Na entrada do memorial, uma estrutura uniforme representa a destruição provocada pela lama que vazou da barragem da Mina do Córrego do Feijão - (crédito: Jair Amaral/EM/D.A Press)
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Às 12h28 de 25 de janeiro de 2019, a barragem de rejeitos da Mina do Córrego do Feijão, pertencente à Vale, se rompeu e arrastou violentamente tudo o que havia pela frente: estruturas administrativas, carros, vagões. A onda de lama atingiu o Rio Paraopeba, devastou a vegetação e matou 272 pessoas, entre elas, 251 trabalhadores ligados à mineradora, dois nascituros, moradores da comunidade e turistas.
Erguido no território atingido pelo rompimento, o Museu Memorial de Brumadinho espelha esse trauma coletivo e transforma a dor em um espaço de memória, reflexão e educação. Para a psicóloga Luana Carola, professora e doutora do Departamento de Psicologia da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), espaços como esse cumprem um papel central na elaboração do luto coletivo.
Em seu pós-doutorado, ela pesquisou a memória de populações que perderam familiares nas tragédias de Brumadinho e de Mariana, em 2015, no subdistrito de Bento Rodrigues, e observou o aumento significativo de casos de depressão e ansiedade, além de estresse pós-traumático entre os atingidos.
“Os espaços de memória, dentro do contexto da elaboração do luto – principalmente o coletivo –, podem ser entendidos como áreas de reconexão e de ressignificação daquele passado traumático para as vítimas do rompimento das barragens”, explica. Segundo ela, esses locais fortalecem o pertencimento comunitário e ajudam a manter viva a lembrança do que ocorreu. “Eles lembram à sociedade que o que aconteceu foi um crime, e não um acidente, já que (as barragens) estavam em nível de alerta.”
Assim como no “Soneto da Separação”, de Vinicius de Moraes (1913-1980) – “De repente do riso fez-se o pranto / Silencioso e branco como a bruma / Fez-se de triste o que se fez amante / E de sozinho o que se fez contente” –, o Memorial torna físico e palpável o choque da perda vivido pelos familiares. Banhado de simbolismos que começam já na portaria, o projeto, assinado pelo escritório Gustavo Penna, é um convite à empatia e ao conhecimento.
Logo na entrada, uma estrutura uniforme representa a destruição desnivelada. No teto, flechas de luz remetem ao dia que não amanheceu e ao ar que as vítimas não tiveram. A cada 25 de janeiro, exatamente às 12h28, um facho de luz incide diretamente sobre as drusas de cristais, uma alusão às “joias”, que dão boas-vindas aos visitantes.
É comum que familiares utilizem esse termo para se referir aos que morreram no desastre. Nayara Cristina Dias, esposa de Everton Lopes Ferreira, morto aos 32 anos, e presidente da Associação de Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Mina Córrego do Feijão – Brumadinho (Avabrum),explica a origem do termo: “Durante a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), em 2019, o então presidente da Vale, Fábio Schvartsman, disse que a mineradora 'é uma joia brasileira, que não pode ser condenada por um acidente’. Depois disso, pegamos a fala dele e retrucamos. As verdadeiras joias foram as que morreram. Joias, para nós, é o que perdemos. Uma empresa só com CNPJ, sem funcionários, não é nada.”
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Jair Amaral/EM/D.A Press
ESPAÇO DE HOMENAGENS
O percurso segue pela sala de meditação, que conduz o visitante aos nomes das 272 vítimas gravados no espaço. Ao redor, árvores de ipês simbolizam um culto permanente à memória. “Os ipês florescem em uma das estações mais secas, mostrando que, mesmo na adversidade, há vida”, explica Juliana Veiga, diretora administrativo-financeira da Fundação Memorial de Brumadinho (FMB).
Para Luana Carola, esses símbolos ajudam a enfrentar um tipo específico de sofrimento. “No caso de Brumadinho, estamos falando do que a psicologia chama de ‘morte em vida’. São mortes inesperadas, violentas, que interrompem a vida de forma abrupta. Diferente de quando alguém está doente e a família pode, de alguma forma, se preparar para a perda.”
Segundo a especialista, esse tipo de morte dificulta a ressignificação da realidade. “São corpos que não foram encontrados, expectativas de sobrevivência que permanecem, despedidas que não aconteceram. Isso mobiliza níveis muito altos de ansiedade e adoecimento mental.”
Na sequência, o espaço de memória e testemunho abriga os segmentos corpóreos das vítimas. A decisão de mantê-los no local veio após inúmeras idas dos familiares ao Instituto Médico-Legal (IML), em um processo marcado por incertezas e dor. “Hoje, apenas o IML e a Polícia Civil têm permissão para abrir os compartimentos. Os familiares só serão notificados caso sejam encontradas as duas joias restantes”, explica Vanessa Sousa, diretora vice-presidente da FMB, referindo-se às duas vítimas ainda não encontradas.
Ao lado, uma sala reúne fotos, depoimentos e pertences das vítimas: anotações, iscas de pesca, camisas de times de futebol, bíblias, DVDs piratas e conjuntos de enxoval de bebês que nunca puderam ser usados. “Aqui as vítimas deixam de ser números e passam a ser pessoas. Há um pouco da história de cada uma, com minibiografias e objetos de que elas gostavam”, explica Fabíola Moulin, diretora-presidente da FMB.
À direita do percurso, o visitante pode revisitar o vídeo do rompimento da barragem, conhecer a história da mineração na região e acessar uma área dedicada aos bombeiros que atuaram nas buscas. Abaixo, dois feixes de água simbolizam as lágrimas por tudo o que foi visto e lembrado. O trajeto se encerra diante da barragem rompida, que ainda carrega marcas da violência e da destruição.
“O principal papel do memorial é educativo, no sentido da não repetição de tragédias como essa. Queremos que as pessoas conheçam essa história narrada a partir da perspectiva dos familiares. É o direito à memória, essa conscientização necessária. Por isso, estabelecemos aqui um sítio de memória, com a compreensão de que o memorial existe para afirmar que a vida deve vir em primeiro lugar”, destaca Fabíola.
Para a organização, o foco não é o fúnebre, mas um gesto em favor da vida que vale a pena ser vivida. Por isso, o acesso ao Memorial, que recebeu mais de 22 mil visitantes em seu primeiro ano, é gratuito e recepciona excursões que vão de escolas de ensino básico a estudantes do ensino superior, além de promover sessões de cinema infantil e oficinas culturais.
Para Luana Carola, esse caráter coletivo é essencial. “Esses instrumentos ajudam na ressignificação das vidas interrompidas e lembram que esse tipo de crime não pode acontecer novamente.”
Durante programação que se encerra neste dia 25, os familiares fizeram homenagem aos que morreram. Na sexta-feira, eles se uniram a familiares das vítimas da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), tragédia que vitimou 242 pessoas e segue sob investigação. As homenagens se encerram com o “Concerto para a Memória – Uma Homenagem às 272 Joias de Brumadinho”, em apresentação única e gratuita, às 16h, com Fernanda Takai e a Orquestra Opus.
O LUTO DIÁRIO
Sete anos depois, familiares das vítimas ainda convivem diariamente com as marcas da destruição deixada em Brumadinho e em suas próprias vidas. Anastácia do Carmo Silva, mãe de Cleiton Luiz, morto aos 29 anos, permanece morando na cidade. Costureira, ela conta que passou cerca de um ano e meio sem conseguir trabalhar. Foi apenas durante a pandemia de COVID-19, dois anos após a tragédia, que voltou à atividade, confeccionando máscaras para a população brumadinense.
“Fui voltando aos poucos para o meu ateliê. Meu marido abria a porta e a luz entrava, e aquilo doía. Eu queria até brigar com ele, porque a luz, para mim, que estava deprimida, incomodava. E também a saudade do meu filho, que chegava no fim da tarde e se sentava aqui, nesta porta. As pessoas começaram a ver a porta aberta, pediam um conserto de roupa, e assim eu voltei a trabalhar. Se não fosse isso, eu não estaria mais aqui”, relembra.
Segundo Luana, o caráter violento do rompimento contribui para o prolongamento do sofrimento. “Muitas pessoas não conseguiram se despedir. Souberam da morte por notícias na televisão, por telefonemas interrompidos. É um ciclo que não se fecha, que arrasta essas pessoas.”
Flávia Coelho também permanece na cidade. Filha de Olavo Henrique Coelho, de 63, funcionário mais antigo da Vale em Brumadinho, com 40 anos de serviços prestados apenas naquela região, ela também perdeu dois primos, Edymayra Samara e Anízio Coelho, além de amigos. “O luto é diário. A tragédia/crime teve tamanha brutalidade, somada à sensação de impunidade, que aumenta ainda mais a nossa dor. Entendemos que o lucro foi colocado acima das vidas e adoecemos física e mentalmente com esse luto permanente.”
Segundo Flávia, os primeiros dias após a tragédia ainda ecoam com força na memória, especialmente o sepultamento dos familiares. Como os caixões eram lacrados, ela diz que não sabia o que, de fato, havia sido encontrado de seus entes queridos. “No meu caso, houve o direcionamento para uma gaveta municipal. Chovia muito e não havia condições de fazer o enterro no solo. Depois de cinco anos, precisei fazer a transferência para outro sepultamento. Eu não sabia o que iria encontrar naquele dia, porque no velório o caixão estava muito pesado, e imaginávamos que tivessem encontrado meu pai inteiro.”
Ela conta que ainda sonha com o momento em que, ao levantar o caixão, ele se rompeu e a lama seca caiu. “Tiveram que cavar novamente para encontrar meu pai. E o que acharam foi apenas o osso do antebraço, sem a mão.”
Para a psicóloga, experiências como essas intensificam o adoecimento mental. “O luto não se elabora apenas com o tempo, mas com processos que permitam compreender e simbolizar o trauma. Quando isso não acontece, a dor permanece aberta.”
“Eu tive que levar o homem que me carregou nos braços dentro de uma caixa menor do que uma caixa de sapatos. Não há um dia em que eu não imagine meu pai conhecendo a terceira neta, chegando pelo portão como sempre fazia”, diz Flávia. “Tiraram isso de mim.”