DESASTRE DE BRUMADINHO: SETE ANOS DEPOIS

Marcos da tragédia de 2015 ainda continuam no papel

Enquanto Córrego de Feijão já tem seu memorial, Museu do Território e proteção de ruínas de capela seguem na promessa em Mariana e outras cidades atingidas pel

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Enquanto Brumadinho, na Grande BH, tem o memorial para homenagear os mortos na tragédia ocorrida em 25 de janeiro de 2019 – o Memorial Brumadinho, que completa hoje um ano –, Mariana, na Região Central, e três cidades da Zona da Mata mineira (Barra Longa, Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado), vítimas do rompimento da Barragem do Fundão, da Samarco, em 5 de novembro de 2015, aguardam a implantação do Museu de Território, modelo museológico no qual o próprio território, com suas paisagens, modos de vida, memórias, bens materiais e imateriais e relações sociais, constitui simultaneamente o espaço, o conteúdo e o suporte da ação museológica.

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A espera de uma década pelo Museu de Território preocupa alguns prefeitos e secretários municipais de Cultura, principalmente pela extinção da Fundação Renova (criada após a tragédia para cuidar das questões sociais e ambientais ao longo da Bacia do Rio Doce), embora a esperança se mantenha, como forma também de fortalecer o turismo.

“O valor de R$ 27 milhões para a implantação do Museu de Território está depositado numa conta bancária em nome da Prefeitura de Mariana, mas só poderá ser usado quando houver um acordo com a Unesco (agência das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura)”, afirma o prefeito de Mariana, Juliano Duarte. O recurso específico para essa finalidade provém do “Acordo judicial para reparação integral e definitiva relativa ao rompimento da Barragem do Fundão”, firmado em 25 de outubro de 2024.


Em 13 dezembro último, no subdistrito de Bento Rodrigues (localidade mais atingida), em Mariana, houve um encontro de técnicos da Unesco, que acompanha o caso como parceira técnica, com autoridades dos quatro municípios, para apresentação de estratégias, e não exatamente de um projeto, para implantação do Museu de Território. “Trata-se de um trabalho muito complexo, pois cada município tem realidade bem diferente do outro. Como a Fundação Renova não existe mais, queremos saber como ficará a situação de contrato, obras, entendimento com a Unesco e outros detalhes”, diz o prefeito de Mariana.


Em seu primeiro mandato, o prefeito de Barra Longa, Elson Aparecido de Oliveira, está atento e preocupado, já que o município ainda sofre as consequências da tragédia, que levou, inclusive, ao fechamento da histórica Matriz São José, e, no campo da saúde mental, a muitos casos de depressão. “Estou no meu primeiro ano e vejo que, no papel, tudo é muito ‘bonito’, e precisamos ver a concretização do projeto”, afirma.


“Memoriais e museus são importantes e servem de exemplo para que tragédias futuras não ocorram”, ressalta o prefeito de Rio Doce, Silvério da Luz. Ele conta que foi assinado um protocolo de intenções, na reunião de 13 de dezembro, em Bento Rodrigues, mas não houve avanços. “É preciso saber como será a implantação do Museu de Território”, diz o prefeito. O município sofreu um duro revés com a paralisação, em 2015, da Usina Hidrelétrica de Candonga, cujo reservatório recebeu 10 milhões de metros cúbicos de rejeitos provenientes do rompimento da Barragem de Fundão. Em 2023, houve o retorno operacional, mas o quadro ainda é grave, na avaliação do chefe do Executivo.


ATUAÇÃO


Em nota, a Unesco informa que atuou no Museu do Território Atingido como parceira técnica no âmbito do Projeto de Cooperação Técnica intitulado “Construção da Paz e do Diálogo para o desenvolvimento sustentável das regiões atingidas pela Barragem de Fundão”, estabelecido com a extinta Fundação Renova, oferecendo expertise internacional em patrimônio cultural, memória, direitos culturais e processos participativos. Seu papel foi estruturar fundamentos conceituais, metodológicos e diretrizes para a estratégia de criação do centro de memória físico e para a salvaguarda das referências culturais, assegurando alinhamento a padrões internacionais.


A Unesco esclarece que não é a única instituição à frente da iniciativa, nem atua como executora isolada: sua atuação se dá “em articulação com os entes responsáveis pela reparação, municípios envolvidos, organizações parceiras e, de forma central, com as comunidades atingidas, visando à transição para arranjos institucionais sustentáveis no médio e longo prazo”.


A direção da Samarco esclarece que, conforme estabelecido no Novo Acordo do Rio Doce, a responsabilidade cabe à Prefeitura de Mariana. “Nesse contexto, o projeto conceitual desenvolvido em parceria com a Unesco foi concluído em 2025 e devidamente disponibilizado ao ente público. A Samarco realizou, em junho de 2025, o repasse de R$ 27 milhões”.


SIGNIFICADO


Diferentemente do museu tradicional centrado em um edifício ou em coleções encerradas, o Museu de Território opera de forma distribuída e integrada, por meio de percursos, pontos de memória, memoriais, sinalizações e dispositivos interpretativos físicos e digitais, articulados a práticas participativas que reconhecem o patrimônio como experiência vivida e socialmente construída ao longo do tempo.


Conforme a Unesco, quando qualificado como “Museu de Território Sensível”, esse modelo incorpora de maneira ética e responsável as perdas e rupturas decorrentes do rompimento da barragem, articulando memória, identidade e reparação sem reduzir o território à tragédia, afirmando, ao contrário, seu profundo lastro histórico e cultural, construído ao longo de mais de três séculos.

Idealizadora da proteção das ruínas da Capela São Bento, Jô Vasconcellos  nunca teve resposta sobre a construção do "bunker"
Idealizadora da proteção das ruínas da Capela São Bento, Jô Vasconcellos nunca teve resposta sobre a construção do "bunker" Fotos: Jair Amaral/EM/D.A Press

“Bunker” de capela fica esquecido


A palavra alemã “bunker”, que significa abrigo com estrutura reforçada, define bem a construção idealizada pela arquiteta Jô Vasconcellos para proteger as ruínas da Capela São Bento, do século 18, no subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana. Trata-se de um grande retângulo de concreto com adição ao cimento de lama que vazou, em 5 de novembro de 2015, da Barragem do Fundão, da mineradora Samarco. Feito o teste, foi constatada a resistência da mistura.


Há quatro meses, a renomada profissional apresentou seu trabalho na Conferência Internacional do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU), em Brasília (DF), mas ele se mantém inédito aos olhos do grande público, ganhando sua primeira divulgação, hoje, nas páginas do Estado de Minas. “Minha apresentação no CAU me surpreendeu, pois causou comoção, algumas pessoas choraram muito...de soluçar. Fiquei impressionada e emocionada, pois despertou nelas solidariedade aos familiares e vítimas da tragédia e tristeza pelas perdas do patrimônio”, afirma.


Bento Rodrigues se tornou “terra arrasada” a partir do “tsunami”, formado por 40 milhões de metros cúbicos de lama e rejeitos de minério de ferro, que entupiu a Bacia do Rio Doce, de Minas ao Espírito Santo, deixando 19 mortos e rastro de destruição em 200 municípios. Da singela Capela São Bento, que perdeu imagens, paramentos, elementos artísticos e objetos caros à história, restaram apenas a base de adobe, com cerca de 80 centímetros de altura, a mureta do cemitério lateral, em alvenaria de pedra, e o adro, com um “murundum” de terra, num “testemunho” da destruição.


Como se tratava de uma edificação tombada, com registro de fotos e informações, Jô não teve dificuldade para fazer a reconstituição interna da capela. “E nem precisei de muito tempo”, explica, ao mostrar, no papel, as rampas que conduzem ao coro e permitem ao visitante ver o “esqueleto da igreja”, com altar-mor, onde ficaria a imagem do padroeiro, sem uma das mãos (foi resgatado na lama dessa forma) e dois altares colaterais. No interior do templo, não seria permitido pisar, ainda mais onde estavam as campas (cobertura de pedra dos locais de sepultamento no piso de templos católicos). Segundo a arquiteta, o projeto contempla também um pequeno museu. Um aspecto importante é que toda a estrutura de concreto ficará suspensa, sem tocar a base da antiga igreja.


ILUMINAÇÃO NATURAL


Como se vê na proposta conceitual, a construção não tem vidros e ornamentos, mas um sistema de “iluminação zenital”, técnica que permite entrada de luz natural ao ambiente por meio de abertura no teto, tipo claraboia. Para fechar o “bunker”, há o aproveitamento de peneiras usadas na mineração, sem causar impacto visual. “O importante é tocar o coração das pessoas, não ficar preocupado com a monumentalidade”, observa.


Após essa última frase, a arquiteta ressalta que o objetivo foi criar “um lugar de abrigo, de aconchego e resgate espacial daquilo que se perdeu”. No projeto, é possível ver um recorte no volume da cobertura, e há uma explicação. “É como se eu tivesse recortado o retângulo perfeito e levado pedaços para as comunidades de Paracatu de Baixo, em Mariana, e Gesteira, em Barra Longa (Zona da Mata), atingidos pela lama, e construíssemos pequenos museus para guardar peças pertencentes a eles e resgatadas do barro”.


Belo-horizontina com raízes familiares na primeira vila, cidade, diocese e capital de Minas – seu bisavô, Diogo de Vasconcellos (1843-1927), foi historiador e político nascido em Mariana –, Jô conta que sentiu profundamente os efeitos da tragédia e jamais pensou em criar um memorial. Aliás, longe disso, pois sabia que a catástrofe se repetiria, como acabou acontecendo em Brumadinho, na Grande BH, há exatos sete anos.


SEM RESPOSTA


Mesmo concebido há tanto tempo, o projeto não saiu do papel. E a autora nunca soube o porquê. Há uma década, ela entregou à mineradora Samarco a “Proposta Conceitual de Uso e Conservação dos Remanescentes da Capela de São Bento”, após ser contratada pela empresa Estilo Nacional, vencedora de concorrência aberta pela Fundação Renova (já extinta), criada após a tragédia para cuidar das questões sociais e ambientais ao longo da Bacia do Rio Doce. Na época, havia a proposta de criação do Museu de Território, e também de valorização do patrimônio, fomento à economia e recuperação das reminiscências em Gesteira e Paracatu de Baixo.


A contratação de Jô Vasconcellos se deu em função do seu trabalho na área, entre eles a restauração da Capela de Santana, em Ouro Branco, na qual atuou com seu marido, o também arquiteto Éolo Maia (1942-2002). Entre outros trabalhos, Jô foi responsável pela restauração, no início da década de 1990, da Praça da Liberdade, cartão-postal de Belo Horizonte. Ao EM, ela conta que nunca teve resposta sobre construção do “bunker”, nem da Samarco, muito menos de autoridades envolvidas no processo de proteção do patrimônio cultural. Enquanto isso, Bento Rodrigues padece no silêncio.

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A Samarco esclarece que a restauração de bens religiosos e históricos – incluindo a Capela de São Bento – é de responsabilidade da Arquidiocese de Mariana, conforme acordo firmado entre as partes, com a interveniência do Ministério Público, e em observância às atribuições legais e institucionais aplicáveis.

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