O Carnaval de Belo Horizonte de 2026 começa com perspectivas melhores para os ambulantes. Depois de anos de reivindicações e problemas de organização, a categoria aposta em regras mais claras e ações que valorizem quem depende da festa como fonte de renda.
Ao todo, 12 mil ambulantes foram credenciados para os dias oficiais do Carnaval, o mesmo número do ano passado, mas bem abaixo dos mais de 25 mil inscritos em 2024, quando filas, falta de estrutura e denúncias de tratamento desumano marcaram o processo. A mudança é considerada uma vitória pelos trabalhadores e pelo Centro de Apoio ao Trabalhador Ambulante (CATA).
Presidente da associação, Adjailson Severo, de 45 anos, afirma que o avanço é resultado de uma luta que já dura anos. “A gente vem reivindicando isso há muito tempo, em reuniões, audiências públicas e diálogo direto com a prefeitura e a Belotur. Depois do que aconteceu em 2024, ficou claro que daquele jeito não dava mais. Foi desumano com os trabalhadores”, afirma.
Segundo ele, o episódio ocorrido no Colégio Marconi, no Bairro Gutierrez, Região Oeste da capital, onde milhares de ambulantes se concentraram para o credenciamento sem acesso adequado a água potável e banheiros, foi um divisor de águas. A partir dali, a associação intensificou as negociações com o poder público. Com a mudança na presidência da Belotur, o diálogo foi retomado e propostas apresentadas pelo CATA passaram a ser incorporadas ao processo.
Entre as principais mudanças está o credenciamento totalmente on-line, que eliminou filas presenciais e deslocamentos longos. Além disso, passou a ser exigido o título de eleitor de Belo Horizonte, medida que, segundo Adjailson, ajudou a priorizar os trabalhadores que vivem e atuam na cidade durante todo o ano. “Tinha muita gente de fora ocupando o espaço de quem trabalha debaixo de sol e chuva o ano inteiro. Essa era uma injustiça que precisava ser corrigida”, diz.
Outra conquista considerada histórica pela associação é a implantação das creches noturnas para os filhos de ambulantes e catadores de recicláveis durante o período do carnaval. A iniciativa, articulada com apoio da Defensoria Pública, do Ministério Público, do Ministério do Trabalho e de parlamentares, como a deputada estadual Bella Gonçalves, será executada pela Prefeitura de Belo Horizonte em parceria com a Belotur.
“A maioria dos ambulantes são mães. Muitas levavam os filhos para a rua à noite porque não tinham com quem deixar. Isso era perigoso e preocupante. Conseguir essas creches é uma vitória enorme”, afirma Adjailson. O serviço funcionará exclusivamente durante os dias do evento, como já ocorre em cidades como Rio de Janeiro e Salvador, onde a experiência vai acontecer pela segunda vez.
Além das questões sociais, a expectativa financeira também é positiva. Sem o patrocínio da Ambev neste ano, os ambulantes comemoram a possibilidade de trabalhar com marcas locais, que garantem maior margem de lucro. Bebidas como Xeque Mate, Mascate, Veneta, Vanfall Destilaria, além de cervejas como Heineken e Original, estão entre as mais vendidas. “É melhor para a nossa categoria. Valoriza os produtores locais e melhora o ganho do ambulante”, explica.
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Curso gratuito
Para ajudar os ambulantes a vender melhor durante o Carnaval 2026, a Prefeitura de Belo Horizonte oferece novamente o curso Empreendedor BH. A capacitação é gratuita, on-line, tem 10 horas de duração e ensina temas como mentalidade empreendedora, atendimento ao público, técnicas de venda, organização do negócio, controle financeiro e gestão de lucros.
O curso pode ser acessado pela plataforma de ensino à distância da PBH e foi feito em parceria com a Fundação Dom Cabral. Entre os dias 26 e 28 deste mês, durante a entrega das credenciais no Expominas, equipes estarão disponíveis para ajudar com inscrições e tirar dúvidas. As aulas também podem ser acompanhadas pelo celular, com linguagem simples e prática.
Para Adjailson, apesar dos avanços, a luta continua. “O CATA funciona como um sindicato dos ambulantes. A gente sabe que ainda tem muito a conquistar, mas esse carnaval mostra que quando existe diálogo, dá para fazer diferente. O trabalhador ambulante merece respeito”, conclui.
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Sem um grande patrocinador privado, o Carnaval de Belo Horizonte em 2026 terá o apoio da Prefeitura, da CDL e do Supermercados BH. Para os ambulantes, a expectativa é que, além da festa, o evento traga mais dignidade, renda e reconhecimento.
