A orla da Lagoa da Pampulha vai ganhar mais dois mirantes que permitirão contemplar um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte. Os espaços, nomeados como Península e Vertedouro, devem contar com banheiros, lanchonetes, decks e áreas destinadas à prática de esportes. O entorno da represa já conta com outros quatro mirantes (Bem-te-vi, Biguá, Garças e Sabiá), que, segundo os planos da prefeitura da capital, serão reformados. Uma providência mais que necessária, como comprovou a equipe do Estado de Minas, que detectou problemas nesses espaços e ouviu queixas de frequentadores.


A iniciativa faz parte do eixo “Orla Viva”, integrante do Projeto Transformador Valorização do Conjunto Moderno da Pampulha, e também contemplará o reforço na fiscalização e segurança da região. Os esforços se somam às iniciativas que permitiram a volta da navegabilidade na represa depois de 50 anos de proibição. Desde dezembro, é possível passear a bordo de um catamarã, o “Capivarã”, pelas águas da lagoa.


As informações sobre os novos mirantes foram obtidas pela reportagem do Estado de Minas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). De acordo com ofício respondido por representantes da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), o Planejamento Integrado de Empreendimento (Pine) está em fase de elaboração.


Segundo outro documento, assinado por representante da Fundação Municipal de Cultura (FMC), a previsão é que o projeto seja licitado nos próximos seis meses. A execução ocorrerá por meio dos Recursos Oriundos do Tesouro (ROT), mas ainda não há cronograma definido e orçamento aprovado, informou o órgão da administração municipal. A expectativa é a de que o projeto seja desenvolvido e o dinheiro captado ao longo deste ano e de 2027. A obra, com duração de um ano, deve começar em 2028.


PARQUE ABERTO


Ex-administrador da Regional Pampulha, o arquiteto Flávio de Lemos Carsalade avalia positivamente a iniciativa. “Acho que temos que potencializar a Pampulha como um parque público aberto para a população com uma melhor infraestrutura, equipamentos e sanitários. Os projetos dos mirantes têm uma qualidade arquitetônica muito boa, mas carecem de manutenção. Não sei quem vai ficar responsável pelos projetos de revitalização, mas espero que mantenham a qualidade”, frisou.


O especialista diz ainda que as medidas de melhoria da orla não deveriam demorar tanto para ser colocadas em prática. “Quando fui administrador da Pampulha, entre 2004 e 2008, eu já queria fazer esse tipo de ação. Essas medidas já deveriam estar sendo feitas há muito tempo”, destacou Carsalade.



O Projeto Transformador Valorização do Conjunto Moderno da Pampulha envolve diversas secretarias municipais, como a de Obras e Infraestrutura (Smobi), a de Cultura (SMC) e a de Esportes e Lazer (SMEL), além da Sudecap e da FMC. A segurança pública também será reforçada no complexo. Ainda em fase de estudos, o projeto prevê a criação e implementação de um plano para garantir a preservação do Conjunto Moderno e promover a sensação de segurança entre moradores e turistas.


O Estado de Minas entrou em contato com a Prefeitura de BH, que afirmou que dará detalhes do projeto quando for divulgado para a população.


MANUTENÇÃO NECESSÁRIA


A equipe do Estado de Minas visitou os quatro mirantes já implantados na Lagoa da Pampulha para conferir a situação de cada um. Todos contam com estacionamento, um banheiro, aparelhos para ginástica, bebedouro, bancos e veículos licenciados que vendem água de coco e outros produtos.


Mas os pisos dos mirantes estão desgastados e apresentam rachaduras. Ítalo Angelo de Almeida, que trabalha há dois anos vendendo cocos no Mirante do Sabiá, contou que os desníveis representam um perigo para frequentadores. “O piso precisa de uma atenção. Corredor cai muito aqui, tropeça, se lesiona. Cansei de presenciar isso”, disse.


No local, é possível também ver sinais de desgaste nos aparelhos de ginástica, e alguns até com partes soltas ou faltando. Porém, um ponto em comum destacado por todos os entrevistados foi a condição inadequada dos banheiros públicos. Para evitar vandalismo, eles ficam trancados com cadeado. As chaves e a limpeza ficam sob responsabilidade dos comerciantes licenciados.


Ítalo afirma que já chegaram a roubar o padrão de luz de um dos mirantes, mas diz que no Sabiá não há grandes problemas, pois policiais militares costumam usar o banheiro e a presença dos agentes inibe a ação de pessoas mal-intencionadas.


Mesmo assim, às vezes o comerciante ainda encontra o sanitário sujo. “Se deixamos aberto, a gente não tem banheiro. Em dezembro teve uma corrida aqui e deixei aberto. Em um minuto que me descuidei, já estava muito sujo”, diz o vendedor.

no mirante do Sabiá, desnível no piso representa risco para corredores

Fotos: Jair Amaral/EM/D.A Press


VANDALISMO É UM GRANDE INIMIGO


No Mirante do Biguá, na área onde estão os aparelhos para ginástica, o piso estava sem nenhum tipo de cobertura. Segundo frequentadores, quando chove a área vira um lamaçal e fica inutilizável. Pedro Henrique Damasceno trabalha com venda de cocos há 14 anos no local e também relata problemas com vândalos, além de roubo de motos e arrombamento de carros nas redondezas.


A equipe de reportagem encontrou também o vaso sanitário do banheiro local com vazamento. Segundo o comerciante, o defeito já foi notificado à prefeitura. “A gente sempre teve a chave do banheiro e a disponibilizamos para todo mundo. O giro é muito alto. Mas acontece muito vandalismo, principalmente pichação e arrombamento. Estouram o cadeado para ver o que tem dentro, de curiosidade”, relatou.


Frequentadores da Pampulha também relatam problemas com os banheiros. Mário Lúcio trabalhava como supervisor de vendas, rodando pelo Brasil. Se apaixonou por Belo Horizonte, onde já vive há quatro décadas. Aos 82 anos, ele dá três voltas de bicicleta na lagoa todos os dias. “É a minha alegria”, conta. Porém, ele evita usar os banheiros públicos.

“Antes eram abertos e as pessoas abusavam. Para entrar tinha que ter cuidado, senão, em vez de ir ao banheiro, era o banheiro que vinha em você. As pessoas também têm que ajudar: se usar, tem que deixar do jeito que achou. Não é jogar o papel no chão, sujar as paredes...”, declara. “Aqui teria que ter mais uns dois ou três banheiros e a própria prefeitura que tinha que cuidar”, avalia.


UM CUIDADO A MAIS


Quem também faz de tudo para não usar os banheiros é a psicóloga Ana Carolina Baptista, que corre todos os dias na orla. Ela acompanha as mudanças da Pampulha há mais de uma década e afirma que, apesar das melhorias, o poder público deveria ter um cuidado a mais com o ponto turístico.


“A lagoa é o cartão-postal de Belo Horizonte. Como estou aqui há muito tempo, sei que há 10 anos seria impossível estar neste lugar. Era puro odor de amônia. Agora está bom de aproveitar, é um lugar que a gente pode vir para descansar, mas precisa de mais manutenção. Com o que a gente paga de imposto, já pagaria essa obra há muito tempo”, acredita.


Segundo a psicóloga, são recorrentes a falta de água no bebedouro e o lixo acumulado. Ela também entende que a limpeza dos banheiros deveria ser responsabilidade da prefeitura e aponta, ainda, a falta de manutenção no Mirante das Garças. “Acho que sai um pouco daquela questão do ‘público’. Tinha que estar aberto e ser limpo pela prefeitura. É um ciclo de pessoas muito grande. Acho que banheiro está ali de ‘elefante branco’, não dá para usar. Eu mesma nunca usei”, diz.


Por ficarem trancados, outro problema com os sanitários é a falta de conhecimento por parte da população. Muitos sequer sabem que as instalações públicas existem e, quando precisam, vão a estabelecimentos no entorno.


O DILEMA DO BANHEIRO


Fernanda Ruela, mãe de uma menina de 12 anos e de gêmeas de 10, passeava pela lagoa com a família quando encontrou com a equipe do EM. No dia a dia, ela conta que deixa a filha na escola e vai para a lagoa fazer caminhada. Escolhe descansar no Mirante Bem-te-vi, por ter uma lanchonete logo em frente, à qual recorre quando precisa usar os sanitários. “Para ir ao banheiro, ou tem que consumir ou pagar para usar. Tem que ter banheiros públicos. Eu já vi homens e crianças fazendo xixi aqui na orla e tive que virar o rosto para não ver nada”, relatou.


A cobrança por melhor estrutura é semelhante por parte de Adriana de Oliveira Fonseca, de 50, que faz parte de um grupo de ciclistas. “A prefeitura tinha que criar banheiros dignos dos turistas e da gente que frequenta aqui. Ficar procurando um banheiro é muito difícil. Quando preciso usar, eu vou a algum bar ou restaurante, mas é constrangedor.”


A Prefeitura de BH foi procurada para se manifestar sobre os problemas apontados pelos usuários dos atuais mirantes da Pampulha, mas não houve retorno até o fechamento desta edição.


BOAS EXPECTATIVAS


Sobre a perspectiva de revitalização dos mirantes, frequentadores da Pampulha ouvidos pelo Estado de Minas consideraram o projeto necessário e muito aguardado. “A Pampulha é um lugar muito agradável, não era para deixar chegar a este nível. Então, se essa reforma realmente acontecer, vou ficar muito feliz, ainda que demore um tempo maior”, avalia Adriana Fonseca.


O comerciante Pedro Henrique espera também que câmeras de segurança sejam instaladas nos mirantes. Como solução para a escassez de sanitários, o arquiteto Flávio Carsalade acredita que os banheiros autolimpantes, nos mesmos moldes dos instalados no Centro de BH, seriam uma boa opção.


Fernanda Ruela não vê a hora de ver a orla renovada. “Acho que podiam adiantar essa obra, providenciar o quanto antes”. Mário Lúcio concorda: “Não quero morrer antes de ver isto aqui bonito”.

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Promessa de mais segurança na região


A segurança em bairros da Pampulha, inclusive a orla da lagoa, foi tema de audiência pública promovida pela Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) no Iate Tênis Clube, em julho do ano passado. Entre as medidas discutidas durante o encontro está o reforço da rede de vizinhos protegidos, na qual moradores se articulam para prevenir crimes como furtos, roubos e arrombamentos. De acordo com participantes da reunião, deputados e comandantes das forças de segurança, que também estavam presentes, prometeram reforço no policiamento. Outra medida prometida à comunidade foi a implantação de câmeras de vigilância do Programa Olho Vivo. A verba para o sistema de videomonitoramento deve vir de emendas parlamentares.

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