PBH instaura "varredura" em obras viárias no Belvedere
Prefeitura institui comissão para apurar eventuais infrações contratuais de empresas que executam projeto em trevo, já em atraso. Motoristas relatam transtornos
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A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) instituiu uma comissão de trabalho responsável por conduzir um Processo Administrativo Sancionador (PAS) relacionado ao contrato de obras no Trevo do BH Shopping, Região Centro-Sul da capital. A portaria, publicada no Diário Oficial do Município (DOM), diz que a finalidade do processo é apurar eventuais infrações contratuais praticadas pelas empresas responsáveis pela execução dos projetos estruturais e das obras de melhoria viária na interseção da MGC-356 e Avenida Raja Gabaglia.
Os atrasos no cronograma de obras foram questionados pela Sudecap em dezembro do ano passado, em notificação entregue às empresas responsáveis pelo contrato, que formam o consórcio vencedor da licitação.
As obras no trevo tiveram início em julho do ano passado e a previsão de conclusão era em novembro. As intervenções fazem parte de um plano amplo de reestruturação da mobilidade na região, onde o viaduto do Belvedere cruza a MGC-356 e conecta importantes corredores de tráfego, como a Avenida Raja Gabaglia e a BR-040. Trata-se de um ponto-chave para o trânsito entre Belo Horizonte e Nova Lima e também para quem circula entre bairros como Belvedere, Santa Lúcia e São Bento.
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A principal frente da obra é o alargamento do viaduto já existente, que passará de cinco para seis faixas de circulação. O objetivo é aumentar a capacidade da via e dar mais fluidez aos acessos, que hoje ficam frequentemente congestionados, com filas que, em alguns dias, se estendem por quilômetros.
A ampliação, de acordo com o que foi divulgado pela PBH, envolve a construção de uma nova estrutura, paralela à atual, com três vãos apoiados em vigas pré-moldadas. Serão dois trechos extremos, de 9,25 metros, e um vão central, de 35,4 metros.
Além do viaduto, as obras também preveem a adequação das alças e ramos de acesso que fazem a ligação com a Avenida Raja Gabaglia. Será ainda implantada uma nova faixa de tráfego entre o trevo e a Praça Marcelo Góes Menicucci, no sentido Nova Lima/Belo Horizonte, ampliando a plataforma para três faixas de rolamento.
TRANSTORNOS
O entregador Paulo Andrade, de 42 anos, diz que o trânsito na região, que já era ruim, com a obra, está ainda pior. “Você não vê onde o investimento desta obra foi aplicado. O viaduto continua do mesmo tamanho, o matagal segue alto, não tem uma pintura, uma sinalização diferente. E o tempo que se leva para fazer uma obra em Belo Horizonte”, reclama. “Além de ser moroso, ainda não tem o retorno que a gente espera”, completa. Um trajeto que levaria cerca de três minutos, ele diz que fez em 15 minutos ontem. “Mas há situações que levo 40 minutos para fazer esse mesmo caminho quando venho fazer entregas.”
Andrade costuma fazer entregas em prédios no Belvedere, no shopping, além dos bairros Santa Lúcia e São Bento. Ele reclama que o trânsito na região acaba sendo um transtorno para a agilidade com que tem que entregar os pedidos. “A gente fica doido para ver essa obra pronta, justamente para ter fluidez no trânsito e conseguir agilizar o trabalho. E ainda tem essa rodovia 356 e o entroncamento com o Anel. Tem dia que você pode desligar a van, descer e ficar esperando até liberar”, ressalta. O entregador reclama ainda que não há agentes para sinalizar o trânsito, nem opções de desvios para fugir dos engarrafamentos. “Ficamos à mercê, com chuva então, vira o caos.”
O motorista de aplicativo Rafael Henrique, de 39 anos, mora em Nova Lima e se desloca, diariamente, para trabalhar em BH. “Quando estou vindo para BH, como é bem cedo, não tem trânsito. “Hoje, até por estar chovendo e ser mês de férias, está tranquilo. Mas tem dias em que é impossível se movimentar aqui.” Apesar do que afirma o motorista de aplicativo, na tarde de ontem, quando conversava com a repórter, havia uma longa fila de veículos, na pista lateral da rodovia, pouco antes da alça do trevo que dá acesso ao shopping, no sentido Belo Horizonte.
O motorista não acredita que o trânsito na região tenha ficado pior em decorrência da obra. “É o trânsito do dia a dia. Faço esse trajeto tem três anos, e esse trânsito é sempre assim.” Depois que as intervenções forem concluídas, ele acredita que a fluidez possa ser maior, mas o problema não será solucionado. “Não é o que vai, realmente, resolver. Mas vai dar mais vazão, com certeza.”
O presidente da Associação Amigos do Bairro Belvedere (AABB), Ubirajara Pires, reclama do atraso e diz que a associação acompanha o andamento das obras, embora não acredite que vão solucionar o problema do trânsito na região. “Essa obra não vai dar em nada, é só para gastar dinheiro público.” Para ele, a solução seria retirar o viaduto do local para que nossas alças fossem feitas pensando no fluxo de veículos da região. “É só um paliativo. Vai melhorar um pouco para quem desce para a (avenida) Raja Gabáglia. A solução, para ele, é o viaduto que Nova Lima e empreendedores estão projetando, chamado de Ferradura. A estrutura consiste em uma alça viária em formato de ferradura que conectará diretamente a MG-30 à BR-356, no sentido Rio de Janeiro, eliminando a necessidade de passar pelo trevo do BH Shopping.
O Estado de Minas procurou a Prefeitura de Nova Lima para saber qual a previsão de início e conclusão das obras do viaduto Ferradura, mas não obteve retorno. Consultada sobre o PAS, a Prefeitura de Belo Horizonte também não deu maiores detalhes.
Operação As Built
Em 11 de novembro de 2025, Prefeitura de Belo Horizonte instaurou comissões para apurar possíveis irregularidades nas obras de melhoria viária do Trevo do BH Shopping, de mobilidade da Praça das Águas, na interseção das avenidas Cristiano Machado com Sebastião de Brito, Waldomiro Lobo e Saramenha e do reservatório Vilarinho 2.
Nas obras do reservatório Vilarinho 2 e do Trevo do BH Shopping foi instaurado o Processo Administrativo para Apuração de Responsabilidade (PAS) para apurar eventuais infrações praticadas pela empresa Direção Consultoria e Engenharia Ltda.
Poucos dias antes, havia sido deflagrada a Operação As Built, do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e da Polícia Civil (PCMG), que expôs um esquema de fraudes em licitações e contratos de obras públicas da PBH, com prejuízos superiores a R$ 35 milhões aos cofres municipais.
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Os supostos crimes envolvem agentes públicos e representantes de empreiteiras que teriam atuado no direcionamento de licitações e superfaturamento de contratos da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap).