BH: filho é agredido e sofre homofobia ao defender o pai de ataque racista
Segurança teria confundido homem negro com pessoa em situação de rua e pedido para se retirar de shopping da Região Oeste
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O que era para ser apenas um momento de descontração entre um filho e seus pais se tornou uma memória de dor para a família de Israel Borges. Ao defender o pai de um ataque racista, tornou-se vítima de homofobia e de agressões físicas nessa quarta-feira (7/1) em um shopping no Bairro Buritis, Região Oeste de Belo Horizonte.
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“Eu estou triste pelo meu pai, nem estou triste por mim porque já estou tão acostumado a receber agressões a vida inteira que isso nem me machuca tanto. O que me machuca é o meu pai passar por isso, principalmente porque ele é surdo”, desabafa emocionado.
Israel, que é médico, professor universitário da UFRJ e pesquisador sênior da Organização Mundial de Saúde na ONU, conta que vai morar no Rio de Janeiro e os pais estavam ajudando a arrumar a mudança. Depois de um dia limpando o apartamento, por volta das 19h resolveram ir até o Shopping Paragem para comer.
Enquanto esperavam o pedido, um segurança acreditou que o pai de Israel, que é negro, seria uma pessoa em situação de rua e estaria recebendo doação de comida dele e de sua mãe, que são brancos. O segurança se aproximou e disse para o senhor que se retirasse assim que recebesse a refeição.
Indignado, o professor defendeu o pai, dizendo que o que estava acontecendo era um crime de racismo. “Eu e minha mãe ficamos horrorizados, falamos para ele sair da nossa frente, que ele era o meu pai e que aquilo não poderia estar acontecendo. Logo em seguida ele falou: ‘vai tomar no ** seu veado’. Me levantei e ele veio para cima de mim com socos”, conta.
O médico foi atingido no rosto, com lesões no lábio e bochecha. Entretanto, para ele, o que mais dói é ver como a situação afetou seus pais. “Meu pai chorou. Ele ficou extremamente triste por ver que eu fui agredido para protegê-lo. Liguei hoje cedo para minha mãe e ela estava chorando. É muito traumático”, afirma.
Racismo estrutural
Mesmo diante das agressões, Israel diz que ainda tentou argumentar com o funcionário do shopping: “Eu falei: ‘você é tão negro quanto o meu pai. Você não pode, pela cor de uma pessoa, estereotipar ela dessa forma. Eu vou fazer de tudo para que isso não passe batido’. Aí, eu acho que ele percebeu que ele poderia ser vítima em outra ocasião, porque ele saiu todo sem graça, mas ainda me xingando de viado”, relata.
Em seguida, o médico foi até uma delegacia para registrar os crimes junto à Polícia Militar. Porém, mesmo afirmando que queria que o Boletim de Ocorrência fosse registrado como racismo e homofobia, o que consta no documento é o crime de lesão corporal leve.
“Não tipificaram da forma que deveria ter sido tipificada. Eles menosprezam o racismo e a homofobia e preconizam o relato de ‘vias de fato’. Isso é um absurdo porque o que deveria ser registrado como um crime inafiançável e imprescindível passa batido por existir um outro crime”, diz o professor.
O segurança também compareceu à delegacia na noite de quarta-feira e, em seu depoimento, alegou que também sofreu racismo e ameaças do médico. Nesta manhã (8), Israel foi até o Instituto Médico-Legal para fazer o exame de corpo de delito e, segundo ele, a instituição respeitou a tipificação pedida por ele.
O que diz o shopping
Em nota, o Shopping Paragem informa que "a situação foi prontamente acompanhada por suas equipes, tendo sido adotadas, de forma imediata e responsável, todas as medidas necessárias para o adequado atendimento dos envolvidos e para a correta condução do ocorrido, em conformidade com seus protocolos internos".
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No texto, o Shopping Paragem "reafirma que repudia, de forma absoluta, qualquer atitude preconceituosa, discriminatória ou conduta incompatível com o respeito às pessoas. Nosso compromisso é manter um ambiente seguro, acolhedor e respeitoso para clientes, lojistas, colaboradores e parceiros".