O Natal da família de um bombeiro aposentado da cidade de Matias Barbosa, na Zona da Mata mineira, nunca mais será o mesmo. Isso porque, na última data comemorativa, o militar se tornou suspeito de matar Guilherme Augusto do Nascimento, de 22 anos, que participava de um “rolezinho” de moto pelas ruas do pacato município.



Por motivos de segurança do próprio bombeiro e da família dele, a reportagem não vai identificá-lo. Na noite de Natal, o militar estava dormindo em casa, junto com a esposa, a mãe, e a filha, de 14 anos. Até que, por volta de 1h da manhã, ele acordou com os gritos da mãe, de 75 anos, diagnosticada com quadro grave de demência.

 




“Ele estava dormindo, pois toma remédio controlado e cuida da mãe, que tem um quadro de demência muito grave. Ele acordou com os gritos da mãe, se debatendo e gritando, foi até o portão da rua e viu o rolezinho passando”, contou o advogado de defesa, Luiz Alexandre Velloso Botelho, em entrevista exclusiva para o EM.



Diante daquela situação, o bombeiro pegou uma arma e realizou dois disparos. “Quando eles [os motoqueiros] passaram fazendo o grau [o barulho do escapamento da moto] ele efetuou um tiro para cima. O segundo disparo foi na direção do muro [do outro lado da casa]”, detalhou o advogado.



Depois disso, segundo Luiz Alexandre, o bombeiro retornou para dentro da residência. “Ele virou as costas, voltou para casa e tem certeza absoluta de que não atingiu ninguém. Tanto que a vítima não cai ali, cai depois, em uma curva”, contou.



Minutos depois de voltar para a residência, policiais militares foram até o local e explicaram que um dos tiros acertou Guilherme Augusto. E que ele tinha morrido poucos metros à frente da casa do bombeiro.



“Ele entregou a arma espontaneamente e foi conduzido para a Delegacia de Santa Terezinha, em Juiz de Fora. Lá, fez o relato de que havia outras armas na casa. Ele entregou mais duas armas”, narrou o advogado.

 

Guilherme Augusto morreu enquanto participava de um 'rolezinho'

Divulgação / Redes Sociais



“Se tivesse intenção de matar, não teria apenas uma vítima”



Desde a noite de Natal, o bombeiro está detido no 4º Batalhão do Corpo de Bombeiros de Juiz de Fora (CBMMG). o militar já foi indiciado pela Polícia Civil por homicídio duplamente qualificado, por motivo fútil e recurso que dificultou a defesa da vítima.



A linha de defesa do bombeiro é a de que não houve intenção de matar. E que, se o objetivo fosse a morte de algum participante do rolezinho, a tragédia poderia ser maior.



“Se tivesse intenção de matar, não teria apenas uma vítima. Se ele quisesse fazer, ele teria atingido mais pessoas. Eram alvos fáceis. Ele poderia alvejar vários. Não é um procedimento típico levantar a mão e efetuar o disparo. Ele fez para afugentar. E prova disso é que ele volta dentro da sua casa. Ele não sabia que tinha atingido ninguém. Não objetificou a morte [de um participante]”, explicou Luiz Alexandre.



O advogado explicou que a arma que o bombeiro carregava estava municiada com 17 projéteis. Na hora que foi entregue para os policiais militares, havia 15 munições intactas.


“Ele só efetuou dois disparos. E o carregador estava intacto com os demais projéteis. Se quisesse causar danos, matar alguém, com essa finalidade, não teriam esses 15 projéteis. Ou seja, isso corrobora o fato de que deu um tiro de advertência e outro de intimidação”, detalhou.



De acordo com a defesa, o histórico do bombeiro dentro da corporação é mais uma prova de que ele não agiu com a intenção de matar Guilherme, ou qualquer participante do rolezinho. “Foi aposentado com todas as honrarias do Corpo de Bombeiros”, contou.



Filha é ameaçada de estupro coletivo



Segundo Luiz Alexandre, o bombeiro faz uso de remédio controlado para tratar de um quadro de depressão. Além disso, tem a responsabilidade de cuidar da mãe, da esposa e da filha adolescente.



Após o crime, a família precisou sair de Matias Barbosa, porque a filha passou a ser ameaçada de estupro coletivo pelas redes sociais.


“A filha recebeu diversas ameaças de morte e estupro coletivo pelo WhatsApp. A mulher vive acuada, em casa, com muito medo. Teve que sair de Matias Barbosa, porque estava muito apavorada”, contou.



De acordo com o advogado, o bombeiro foi privado dessa informação para não agravar o estado de saúde mental que apresenta dentro da prisão no Batalhão dos Bombeiros. “Se não estivesse lá, ele teria dado problema psicológico. Ele toma remédio, tem depressão”, contou.



Para Luiz Alexandre, o caso tem que ser julgado com Justiça. A morte de Guilherme é irreparável, ontudo, ele reforça que, do outro lado, também tem uma família que está sofrendo.



“O padecimento da família da vítima é claro. Mas a outra família está sem o pai, esposo e filho. E essa mãe consegue identificar o filho. Ela sente falta. E isso agravou o quadro dela. É só termos um pouquinho de piedade. Saber que do outro lado também existe uma família que sofre, que está padecendo”, finalizou.



A reportagem do jornal Estado de Minas também conversou com a família de Guilherme Augusto. O relato pode ser conferido neste link.

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