Depois de deixar seu apartamento delegada Monah Zein foi sedada e encaminhada pelo Samu a um hospital da capital  -  (crédito: Isabela Bernardes/EM/DA. Press)

Depois de deixar seu apartamento delegada Monah Zein foi sedada e encaminhada pelo Samu a um hospital da capital

crédito: Isabela Bernardes/EM/DA. Press

O processo envolvendo a ocorrência da delegada Monah Zein, que entrou em conflito com policiais civis na terça-feira (21/11), foi colocado em segredo de Justiça. A decisão foi deferida pela juíza Juliana Pagano, da Central de Flagrantes de Belo Horizonte, na manhã desta sexta-feira (24/11), durante audiência de custódia. Em entrevista ao Estado de Minas, uma das advogadas da servidora da Polícia Civil informou que o pedido partiu da defesa e teve o objetivo de preservar sua intimidade dela. A Justiça também concedeu liberdade provisória à delegada, que ainda está internada em um hospital da capital.

Com o sigilo decretado, detalhes do processo não estarão disponíveis a qualquer cidadão. Jucélia Braz, uma das defensoras de Monah, explica que o pedido teve o objetivo de preservar a intimidade da servidora, uma vez que foram anexados aos autos documentos como laudos médicos e comprovantes de endereço.

A advogada explicou também que, como a ocorrência teve uma grande repercussão, em poucos minutos o processo teve mais de 200 acessos. Nesta manhã, o também defensor Leandro Martins informou que a Corregedoria Geral da Polícia Civil incluiu nos autos outras ocorrências em que envolve a delegada. Ao Estado de Minas, Jucélia garantiu que a decisão para restringir os acessos não foi motivada por isso.

Monah foi presa em flagrante por tentativa de homicídio contra os agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE). Em boletim de ocorrência, registrado pela mãe da delegada, enquanto ela ainda estava trancada em seu apartamento, a servidora confessou que atirou seis vezes contra colegas.

No registro, ela afirma que os disparos foram efetuados depois que os policiais a atingiram com uma arma de choque. Em áudio enviado à uma amiga, e obtido pela reportagem, Monah relata que, ao ser atingida, pensou se tratar de um tiro de arma de fogo.

“Guria, eles estavam com uns escudos e eu falei: ‘abaixem as armas’. E eles não abaixavam. Ridículo, três homens armados, tudo cheio de colete. Aí quando esse cara me deu esse tiro, eu não sabia o que era um troço daquele, eu nem sei se dá choque, o que que é. Eu sei que eu não senti nada na hora. Eu sei que eu fiquei muito assustada e eu tinha certeza que era um tiro de arma, foi uma sensação muito estranha”, relata a delegada.

Apesar da fala da servidora, o porta-voz da Polícia Civil, Saulo Castro, afirmou que até o momento a perícia não constatou se os disparos de arma de choque, efetuados pela corporação, aconteceram antes ou depois da delegada atirar.

Assédio moral

A ocorrência envolvendo a delegada e policiais da Polícia Civil ainda possui muitas lacunas em aberto. A principal delas é o motivo da mobilização, que durou 32 horas, e teve semelhanças a um cerco policial. Segundo a corporação, a operação se formou depois que Monah enviou mensagens em um grupo de delegados informando que não voltaria para o trabalho e mencionando o suicídio de um investigador do Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), na última semana.

Porém, em uma transmissão ao vivo feita pela delegada em suas redes sociais, ela explica que há dois anos vem sofrendo perseguições dentro da corporação em decorrência de denúncias de episódios de assédio moral que vinha sofrendo. De acordo com Monah, na segunda-feira (20/11), seu último dia de férias, os “atos humilhantes, assediadores, bizarros, adoecedores” voltaram a acontecer e, por isso, ela enviou a mensagem informando que não retornaria ao posto de trabalho.

“Em nenhum momento eu dei a entender que iria tirar a minha vida. Eu dei a entender que não ia voltar para aquele purgatório. E que sim, os envolvidos, todos os que se envolveram de alguma forma criminosa, porque na esfera administrativa os meus pedidos para a corregedoria são simplesmente ignorados. Eu apresentei na ouvidoria do Estado, na ouvidoria da Polícia, na corregedoria, no fiscal do MPMG”, disse.

As denúncias de assédio, segundo aponta uma fonte ouvida pelo Estado de Minas, culminaram em uma sindicância da corregedoria da corporação contra a delegada. A investigação gerou um pedido de remoção da servidora da delegacia de Conceição do Mato Dentro, onde estava lotada, para a regional de Pirapora. Para a delegada, a operação na porta de sua casa foi uma represália da corporação, uma vez que na segunda-feira a Justiça de Minas Gerais acatou o pedido dela para suspensão da transferência.

Na decisão, consta que a sindicância partiu de uma suposta ausência da delegada durante um plantão. Na ocasião, os denunciantes afirmam que Monah teria ficado cerca de 4 horas fora da delegacia, e que por isso um auto de prisão em flagrante teria se atrasado. No entanto, conforme consta na decisão do TJMG, sua saída teria sido de pouco mais de 1 hora, período equivalente ao seu horário de almoço.

“Tem dois anos que eu não consigo trabalhar. Tem dois anos que eu só vivo para pagar advogado, psiquiatra, para tentar me defender. E eles não param, eles não acabam, eles não aceitam você falar: 'beleza, acabou'. E não, eu não tenho plano B, não tenho família, eu não tenho dinheiro. Só que eu também não tenho vida”, diz a delegada