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Brigadeiro com mensagem: conheça a história de Carolina Ladeira Calvo

No mês que celebra a Linguagem de Sinais e as pessoas surdas, conversamos com a empreendedora e confeiteira

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Carolina Ladeira Calvo é uma mulher de 45 anos, alegre, dinâmica, simpática, independente, surda de nascença. Abriu, há alguns anos, a Carol Brigadeiros Gourmet e este mês criou brigadeiros com símbolos dos sinais de Libras para celebrar duas datas muito importantes para ela, o Dia Internacional da Linguagem de Sinais – 23 de setembro – e o Dia Nacional do Surdo – 26.

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“Setembro é um mês especial para a comunidade surda, por causa dessas duas datas, e achei que seria uma maneira diferente de apresentar um pouco da Libras também por meio do meu trabalho. Criei os brigadeiros personalizados com carimbos relacionados à Libras justamente para unir duas coisas muito importantes na minha vida: a confeitaria e a Libras”, conta Carol.


Sua mãe, Adriana Calvo, nunca soube exatamente a causa da surdez de Carol. Pode ter nascido assim, mas existe a possibilidade de ter sido consequência de algum antibiótico que tomou quando era bebê, “nunca tivemos confirmação”, diz a confeiteira.


Criada para ser independente, teve uma infância difícil porque não tinha acesso à Libras. A independência ela alcançou na conquista diária, enfrentando as barreiras que surgiam, já que cresceu cercada por pessoas ouvintes, e precisava se comunicar principalmente pela oralidade, leitura labial, gestos e expressões. “Eu queria conversar, brincar e participar, mas muitas vezes não conseguia compreender ou ser compreendida. Naquela época havia muito preconceito e a Libras não tinha a valorização que tem hoje”, relembra.


Carol consegue fazer leitura labial com facilidade. Ela conta que aprendeu praticamente sozinha, observando o movimento da boca, o rosto e as expressões das pessoas. O processo foi difícil e levou anos, e até hoje continua aprendendo. A Libras é a língua em que ela se sente mais confortável e livre. É a sua voz.


Carol cresceu vendo a mãe fazer bombons para vender o que despertou nela um grande interesse por doces. Aos 12 anos começou a fazer experiências e testar receitas. Sua mãe ficava por perto com medo que ela se queimasse. Orientava e alertava para que tomasse cuidado com o fogão, mas incentivou a filha a continuar. Autodidata, Carol aprendia sozinha, e a confeitaria tornou sua profissão.


“No início tive insegurança por não saber como as pessoas reagiriam ao serem atendidas por uma pessoa surda. Com o apoio da minha família e dos amigos, fui ganhando confiança. Comecei vendendo para familiares e amigos. Aos poucos, outras pessoas foram conhecendo meus brigadeiros, fazendo encomendas e indicando meu trabalho”, relata.


Carolina começou com três sabores: brigadeiro, palha italiana e casadinho, o “ele e ela”. Depois, criou receitas e aumentou a variedade. Hoje, tem cerca de 30 sabores. “O grande destaque é o brigadeiro de bolo de cenoura, uma receita que eu desenvolvi depois de muitos testes. Ele se tornou meu carro-chefe e um diferencial entre os brigadeiros”.


Com o tempo e o boca a boca as encomendas aumentaram. A confeiteira passou a atender festas e eventos, e conquistou seu espaço. “É muito especial estar em tantos lugares como festas de 15 anos, ações de empresas, feiras etc. A maioria das pessoas me recebe muito bem. Muitas ficam surpresas quando percebem que sou surda”.


Carolina conta que quando o cliente não sabe Libras, encontram outras formas simples de comunicação, como gestos, apontar os sabores ou mostrar uma placa. “Quando existe respeito, paciência e vontade de se comunicar, sempre encontramos um caminho”.


O fato de Carol ser surda e trabalhar sozinha nos eventos faz com que muitos a vejam como exemplo e inspiração. Ela já recebeu várias mensagens relatando que se inspiraram em sua história. Ela gosta de mostrar que uma pessoa surda pode empreender, criar, trabalhar e conquistar seu espaço.


Durante muito tempo, Carol sofreu preconceito por usar Libras. “Naquela época, a sociedade ainda tinha pouco conhecimento sobre a língua e não reconhecia a importância da Libras e da cultura surda. Foi muito difícil enfrentar essa realidade, mas essas experiências me fortaleceram e me fizeram lutar pelo reconhecimento e pela inclusão das pessoas surdas”, explica.


E foi pela luta do reconhecimento da língua que criou os brigadeiros com carimbos de sinais de Libras. Mas ela reforça que a mensagem não é só para setembro. “Acessibilidade, inclusão e respeito às pessoas surdas precisam existir o ano inteiro. Quero que as pessoas conheçam e valorizem a Libras como uma língua e compreendam a importância que ela tem para a comunidade surda”.
Para a confeiteira, esses brigadeiros são mais do que doces personalizados, são parte da sua identidade. “Sou surda, confeiteira e empreendedora. Libras é minha voz, e os brigadeiros são uma forma de contar um pouco da minha história”.


Uma das coisas que Carolina ama fazer é viajar e já foi para vários lugares sozinha. Sua primeira experiência foi quando tinha 15 anos, para a Disney. Nessa viagem descobriu que Libras não é uma língua universal, mas a Língua Brasileira de Sinais, outros países têm suas próprias línguas de sinais.
“Por isso, quando estou em outro país, preciso me adaptar como qualquer estrangeiro que não domina a língua local. A diferença é que, na minha experiência, muitas vezes encontro mais paciência para me comunicar no exterior do que no Brasil. Lá, antes de tudo, eu sou uma estrangeira, e as pessoas já esperam que possa existir uma dificuldade com a língua”.


Hoje, a tecnologia facilita muito. Existem aplicativos de tradução, celular, mensagens escritas e várias outras formas de comunicação. As viagens ficam mais fáceis por causa desse auxílio, mas o que faz diferença mesmo, segundo Carol, é a disposição das pessoas para encontrar uma forma de se comunicar.


Carolina passou por uma situação desagradável há algum tempo, dentro de um Uber. O motorista estava gravando a corrida. Ela entrou digitando no celular e não viu o motorista cumprimentá-la. “Depois ele conversou comigo normalmente, me tratou bem e eu inclusive dei uma boa avaliação para ele na Uber.” Ele editou o video e postou borrando o rosto de Carol, falando da sua falta de educação em não cumprimentá-lo.


Ela estava com uma sacola da Carol Brigadeiros Gourmet. As pessoas reconheceram a sacola, a identificaram e começaram a marcá-la na publicação. Foi assim que viu a postagem.


“Quando vi a postagem e principalmente os comentários, fiquei muito chateada. Fizeram julgamentos e comentários ofensivos sobre mim e sobre a minha surdez sem saber o que realmente tinha acontecido. Muitos me chamavam de “surda-muda”, o que também me incomodou muito. Sou surda, não sou muda. Esse tipo de expressão mostra o desconhecimento que ainda existe sobre a surdez.”

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“Depois recebi muitas mensagens de apoio, principalmente da comunidade surda e de pessoas que entenderam a situação. Foi muito importante para mim. Acho que esse episódio mostra como é perigoso julgar alguém sem conhecer a história toda. O que para ele pareceu falta de educação era simplesmente uma pessoa surda que não tinha ouvido o cumprimento.” 

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