Esculpidor de sonhos transforma troncos de árvores em arte
São quase 50 anos seguindo a intuição para criar peças e móveis a partir da madeira
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Dos confins do Vale do Jequitinhonha ao agito da capital do Brasil, ele vem trilhando um caminho de descobertas. Antônio Carlos Teixeira Lages, conhecido Tunico, enxergou em um sonho que deveria ser carpinteiro e se tornou um grande artista de móveis. Diante de uma vida marcada por experiências transcendentais, que revelam sua sensibilidade e sua poesia, o mineiro “ouve” a madeira e desenha formas que remetem ao conforto do útero materno.
Para começar, fale sobre as suas origens no Vale do Jequitinhonha.
Nasci em Araçuaí, mas, na verdade, sou de Queixada, distrito de Novo Cruzeiro. Na época, quando a minha mãe ficava grávida, ia para Araçuaí dar a luz pela estrada Bahia-Minas, de Maria Fumaça. Nasci nesse lugarejo, com 500 habitantes, que não tinha estrada de rodagem, tinha estrada de ferro, era o único ruído de máquina. Mas tinha tudo de bom, silêncio, amigos, rio para tomar banho no fundo da casa, caçar passarinho, jogar bola na rua. Foi uma infância muito rica.
O que te motivou a sair de lá?
Saí aos 10 anos para estudar fora, infelizmente, e todas as férias estava lá. Meu pai era um comerciante bem-sucedido, chefe político e tinha a ambição de que os filhos fossem tudo o que ele não tinha conseguido ser. A ideia dele era que todos os oito filhos fossem médicos e eu, como mais velho, fui a primeira vítima. Fui para BH realizar o sonho dele. Passei no vestibular de primeira, para ciências econômicas, e fui trabalhar com mercado de capitais. Montei escritório, fui um dos primeiros a criar um fundo de investimentos, chamava clube. Peguei clientes e montei uma carteira única. Ganhei muito dinheiro, depois perdi o que tinha e o que não tinha. Tive convulsão no pregão. Quando acordei, olhava para as TVs e, em vez de cotações, via meus pensamentos projetados nas telas: não foi isso que você veio fazer na terra, vai embora daqui. Larguei tudo, estava no último ano da faculdade, botei uma mochila nas costas e fui viajar pela América, procurando por mim mesmo. Fiquei três anos e meio viajando. Estava na costa do Peru, ia para o Japão com um navio cargueiro, passando pela Índia, e uma carioca me curou. Voltei para o Brasil.
Como você se envolveu com madeira?
Tive um sonho com o carpinteiro da minha terra. Era eu, um garoto de oito anos, vendo ele trabalhar a madeira para a igreja. Acordei carpinteiro, com a certeza absoluta de que tinha que trabalhar com madeira. No outro dia, comprei martelo, serrote, meu irmão me emprestou dinheiro e comecei a trabalhar no fundo da casa dos meus pais. Nunca tinha feito nada com as mãos. A família pirou, fui excluído de vez, tido como má influência pelos irmãos, mas isso me salvou a vida. Se não tivesse tido esse sonho e encontrado essa profissão, não ia dar conta de ter chegado aqui. Em dezembro, vai fazer 50 anos.
Como você foi parar em Brasília?
Viajei para caramba. Fui para Goiânia, onde uma polonesa falou que meu lugar era em Brasília e fiz uma feira na torre que foi sucesso, vendi tudo. Voltei para Queixada para montar uma cooperativa de trabalho, com uma ilusão socialista, mas minha mulher não gostava, meu pai não me queria lá e o prefeito me ameaçou de morte. Foi quando fui para a Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, depois para fazenda em Botucatu, no interior de São Paulo, e de lá vim de novo para o Centro-Oeste. Uma lojista de Brasília me encomendou um monte de móveis, precisava de máquinas, aí comecei a fábrica em Goiânia, com dois funcionários. Montei uma loja em Brasília que se chamava Manufatura, fez um sucesso incrível. A Universidade de Brasília (UNB) levava alunos para ver meu trabalho. Depois cheguei à conclusão de que não precisava mais de loja, todo o meio me conhece.
Onde as pessoas podem encontrar as suas peças hoje?
Tenho um showroom na minha marcenaria, que é em Valparaíso de Goiás, fica a 35km do Centro de Brasília. Estou também com um showroom no Mercado de Origem, em BH, e estou entrando no mercado de São Paulo. Tem duas peças minhas na entrada do [hotel] Rosewood.
Como você descreve seus móveis?
Meu trabalho não é exatamente arte, não é exatamente design, é misto, é uma arte utilitária. Passei muito tempo fazendo armário embutido para sobreviver, mas o móvel que faço hoje é intuitivo. Bato o olho na madeira e lapido para chegar onde quero. Falam que Michelangelo fazia isso com bloco de mármore, tirava tudo o que não era escultura e sobrava a escultura que ele enxergava lá dentro. Guardadas as devidas proporções, é o mesmo que faço. Vou tirando tudo e sobra cadeira, sobra poltrona.
Você se considera um artista?
Eu não, as pessoas me consideram. Eu me considero um ser à procura de mim mesmo que faz arte.
Como o Vale do Jequitinhonha está presente no seu trabalho?
Tive várias fases, mas sempre vale jequitinhonhense, sempre uma conexão com as minhas origens. O que aprendi na infância foi o encontro com a simplicidade. A simplicidade é a coisa mais difícil de se alcançar na vida, porque ela é negada pelo poder, o que nos faz confundir simplicidade com pobreza. Simplicidade é a maior riqueza que temos e ela sempre permeou o meu trabalho. Desenvolvi uma linguagem própria, não sabia técnica nenhuma.
Quais madeiras que você usa?
Só trabalho com madeira que encontro morta, ou que não possa impedir a morte, na região de Brasília, num raio de 200km. Uso tamboril, tarumã, jacarandá-do-cerrado, sucupira, pequi, jatobá... Se o Brasil fosse uma fazenda, seria a mais rica da terra.
Como você consegue entregar conforto em móveis de madeiras?
A minha busca pelo conforto é para compensar o meu desconforto interior. Nunca achei o meu lugar e descobri que ele não existe. Meu lugar está dentro de mim, onde estiver, então sosseguei. Parei de fazer mesa e cadeira de jantar e a cada dia mais estou me especializando em peças únicas, geralmente assentos. As pessoas se encantam com o que consigo obter em assento de madeira, sem almofada nem nada. Fica mais confortável que sofá. Tenho conhecimento, sensibilidade ergonômica. A poltrona Ninho e a cadeira Queixada são dois ícones do meu trabalho. O maior elogio que já ouvi foi: pensei que fosse dura, é mole.
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O que você planeja para o futuro?
No campo do fazer, quero me manter vivo, quero ter uma vida boa. Quero deixar de ser vendedor para ficar criando e vagabundando. Tenho 76 anos. Quando você chega nessa idade, tem muita necessidade de ficar sozinho. Quero me reconectar com aquele menino, voltar a ter experiências que acontecem em frações de segundos e me integrar com essa realidade.