pratos com paisagens chinesas, os inventores da louça azul -  (crédito: Reprodução)

pratos com paisagens chinesas, os inventores da louça azul

crédito: Reprodução

Quando era muito menina, em Santa Luzia, e morava na casa de meu padrasto, que tinha um quintal imenso, cheio de jabuticabeiras, gostava de fuxicar os muros que dividiam o quintal em dois tempos: o perto da casa, mais controlado e mais usado, e o dos fundos, que era entregue ao deus-dará. Numa dessas escavações em busca de segredos, achei uma vez vários cacos de louça azul, que não sabia que era inglesa e antiga. Só me apaixonei por ela, achando linda aquela combinação de azul em todos os tons e brancos. Guardo esse gosto em meus armários domésticos de louças, onde tenho várias peças.

Os cacos de louça que achei faziam parte dos aparelhos usados nas casas luzienses, que uma vez quebrados, eram jogados fora, como louça comum. Bons tempos aqueles, onde louça inglesa era usada no cotidiano. Aprendi adulta que aqueles cacos pertenciam a um tipo de louça que era conhecida como louça borrão, ou simplesmente azul borrão, de origem inglesa, largamente usada nas mesas brasileiras no começo do século 19 e no século posterior. Sua coloração era obtida através do cobalto, que não muda apenas a forma das peças, são modelos de decoração que iam sendo modificados através do estilo de cada época.

Já tivemos, por exemplo, peças inglesas dessa fabricação com sua tonalidade cobalto com frisos e folhagens no mais puro art-nouveau, o que leva à conclusão de que são peças de fabricação do início do século 20. O cobalto, metal acinzentado, era usado pelos oleiros chineses desde o século 16. Com o correr dos anos, essa tonalidade de azul cobalto era usada pelos chineses nas decorações de suas louças, em desenhos de cenas, folhagens, pássaros e outros elementos decorativos ou também na sua totalidade, quando servia de elemento base de cor uniforme e depois recebendo decorações a ouro.

Esse tipo de trabalho recebeu dos estudiosos a denominação de 'azul de chuva”. Os ingleses, que viajavam para o Oriente, traziam de lá peças em azul e branco que também foram muito bem aceitas no país. Longe, muito longe mesmo era o Oriente, naquele tempo (começo do século 19) e por causa da demanda foram então fundadas várias fábricas na Inglaterra, que, tentando fazer louças de gosto oriental, introduziram no país o gosto oriental para a louça de uso popular. No início do século 18, já havia sido introduzido esse gosto na Europa, o que deu a essa novidade a denominação de “chinoiserie”. A princípio, os oleiros ingleses foram obrigados a importar o cobalto, matéria extremamente necessária para a coloração do azul intenso, tão usada no Oriente e necessária para essas reproduções.

Peças decoradas

Sem conhecimento profundo e aplicando o cobalto de modo errado, ao serem queimadas, as peças se infiltravam do cobalto, recebendo cargas diferentes de cor, o que lhes dava o ar infiltrado e que por esse motivo recebeu por aqui a denominação de borrão e entre os ingleses de “flow-blue”. Com a descoberta de jazidas de cobalto na Inglaterra, o produto passou a ser usado pelos ingleses com o mesmo sucesso do cobalto importado. No início do século 19, a louça decorada com azul se popularizou na Inglaterra e passou a ser usada em outros países.

Depois das guerras de 1812, a indústria inglesa produziu em massa esse tipo de louça e então a sua manufatura já industrializada em série entra no mercado. O aumento da população e a estabilidade econômica criaram um ótimo mercado para quaisquer tipos de produtos manufaturados. As fábricas de louça começaram então a popularizar os objetos e todas as classes puderam, então, adquirir aparelhos de jantar, chá ou café em louça inglesa de caráter popular – o azul cobalto.

Em 1818, havia mais de 140 artesãos-oleiros nas fábricas de Stalgordshire, todos eles dedicados à fabriação de louças em azul-cobalto, que por aqui passaram a ser em encontradas em qualquer grande mercearia do interior. O cobalto se tornou a cor da moda. Nessa época, intensifica a exportação, principalmente para os Estados Unidos (é a louça usada quase sempre nos filmes faroeste) e Brasil (foi parar em Santa Luzia...). Esse tipo de louça agradou tanto que as pesquisas não pararam. Coube a um inglês, Josiah Wedgwood, criar a variação dos desenhos. O processo consistia na colocação, dentro dos fornos onde a louça ia ser queimada, um recipiente onde havia uma mistura volátil, que, ao ser aquecida, evaporava.

Esse processo faz derramar a cor para fora das linhas do desenho, produzindo o efeito de 'infiltrado'. Os oleiros puderam controlar a coloração com azul-cobalto por muitos anos, não havendo dúvida de que houve intenção de se obter esse resultado na louça. O que não conseguiram foi a infiltração natural em todas as peças e, por isso, num aparelho de jantar antigo, é impossível encontrar rigorosamente iguais todas as peças. Descobridores da louça azul, os ingleses logo foram seguidos pela Alemanha, França, Holanda, Estados Unidos e Brasil. O bom gosto sobrevive a todos os motivos modernos e um aparelho antigo de louça azul é uma preciosidade.