Especialistas alertam sobre como conteúdos misóginos nas redes influenciam garotos e reforçam estereótipos -  (crédito: kleber sales)

Especialistas alertam sobre como conteúdos misóginos nas redes influenciam garotos e reforçam estereótipos

crédito: kleber sales

À primeira vista, pode parecer apenas um ambiente de troca de experiências entre homens. São comunidades, grupos e espaços digitais formados em torno de discussões sobre masculinidade, relacionamentos e identidade masculina. O problema é que grande parte desse ecossistema passou a ser associada à disseminação de discursos misóginos, antifeministas e visões estereotipadas sobre relações de gênero. É a chamada machosfera, cujos integrantes usam a internet para publicar, diariamente, conteúdos que estimulam o ódio às mulheres.

Em dezembro de 2024, um estudo realizado pelo Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da UFRJ (NetLab) investigou a presença de discursos misóginos no YouTube. A análise identificou conteúdos desse tipo em ao menos 137 canais, que juntos acumulavam cerca de 3,9 bilhões de visualizações. Entre os temas mais recorrentes estavam o "desprezo às mulheres" e o "estímulo à insurgência masculina". A partir das buscas, os pesquisadores mapearam, aproximadamente, 76,3 mil vídeos relacionados ao tema.

Neste ano, o laboratório revisou os dados e constatou que o cenário não apresentou melhora. Embora o número de canais identificados tenha diminuído de 137 para 123, o alcance dessas páginas continuou crescendo. Em 2024, os canais reuniam cerca de 19,5 milhões de inscritos; atualmente, já ultrapassam 23 milhões — um crescimento aproximado de 18,5%. A produção também avançou: o número de vídeos publicados passou de 105 mil para 130 mil.

Juliana Cunha, representante da SaferNet Brasil, organização não governamental que busca  defender e promover os direitos humanos na internet, afirma que a instituição tem recebido um número crescente de denúncias relacionadas a esse tipo de conteúdo. "Claro que o aumento também pode estar relacionado ao fato de mais pessoas estarem denunciando, mas, sem dúvida, nos últimos anos, esse discurso passou a ser mais utilizado, inclusive, como plataforma política", afirma.

Segundo ela, adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis a esse tipo de discurso por se encontrarem em uma fase marcada pela construção da consciência moral e pela formação de percepções sobre o que é certo e errado. "Esses grupos se aproveitam, justamente, dessas vulnerabilidades e utilizam uma linguagem próxima do universo adolescente para atrair atenção e criar identificação", explica.

A psiquiatra Danielle Admoni, especialista em infância e adolescência da Universidade Federal de São Paulo, alerta, ainda, para um agravante: eles ainda não possuem maturidade suficiente para lidar com esse material. "Hoje, sabemos que a exposição precoce a determinados conteúdos pode provocar alterações cerebrais. Além disso, existem impactos emocionais importantes, porque há temas para os quais crianças e adolescentes simplesmente não estão preparados."

Segundo a especialista, a adolescência é uma fase marcada por intensas transformações cognitivas, emocionais e sociais. Nesse período, os jovens ainda desenvolvem a capacidade crítica necessária para interpretar e questionar as informações que recebem, o que os tornam mais suscetíveis à absorção acrítica de determinados discursos. "A exposição frequente à violência, por exemplo, pode desencadear irritabilidade, alterações no sono e no apetite, dificuldades escolares e comportamentos mais agressivos", explica.

No caso específico de conteúdos misóginos e machistas, Danielle afirma que os riscos são ainda mais preocupantes. "Esses jovens podem internalizar essas ideias como verdades, especialmente quando não existe uma formação adequada em casa sobre relações de gênero."

A médica observa que já é possível identificar grupos de adolescentes que passam a legitimar discursos violentos e reproduzir mensagens de ódio sem compreender plenamente suas consequências. "Muitas vezes, a educação desses jovens acontece predominantemente no ambiente digital, e isso é extremamente problemático."

O neurologista infantil Samuel Borges de Oliveira, do Hospital Santa Lúcia e do Instituto Evlo, ressalta que o ambiente digital, por si só, não deve ser considerado tóxico. No entanto, ele destaca que as plataformas apresentam características para as quais o cérebro humano não está evolutivamente preparado, especialmente a exposição contínua a estímulos rápidos, repetitivos e facilmente acessíveis.

Segundo o especialista, esse excesso de estímulos pode desencadear respostas dopaminérgicas intensas e frequentes, ativando repetidamente os sistemas de recompensa cerebral e aumentando a predisposição a problemas como ansiedade. 

Além disso, a exposição constante a conteúdos marcados por ódio, misoginia e radicalização mobiliza mecanismos relacionados à ameaça social, ao reforço grupal, à desumanização e à dessensibilização. "Isso aumenta o risco de ansiedade, sintomas depressivos, agressividade, fortalecimento de preconceitos e até polarização", ressalta o médico.

O ódio e o adoecimento mental

A psicóloga infantojuvenil Luisa Linhares Borges alerta que a exposição à chamada machosfera representa um risco significativo para a saúde mental desses jovens. Segundo ela, a juventude é uma fase marcada pela busca por pertencimento, validação e identificação com grupos sociais. Nesse contexto, essas comunidades costumam oferecer respostas simples para dores e conflitos complexos. "É muito mais fácil direcionar sentimentos para o ódio do que aprender a lidar com frustrações. Muitas vezes, esses grupos ensinam os homens a odiarem as mulheres em vez de elaborarem seus sentimentos e compreenderem o que estão vivendo."

Para Luisa, a exposição frequente a esse tipo de conteúdo é especialmente preocupante porque, os jovens acreditam estar formando opiniões próprias, quando, na realidade, estão inseridos em ambientes digitais moldados por algoritmos que direcionam e reforçam aquilo que será consumido. Ela afirma que já existem evidências que associam o uso intenso das redes sociais ao sofrimento psíquico. "A exposição contínua e a normalização de discursos misóginos podem reforçar sentimentos de rejeição, a negação da vulnerabilidade e o medo de demonstrar fragilidade emocional", destaca.

Segundo a psicóloga, esses conteúdos costumam explorar inseguranças, experiências de rejeição e baixa autoestima de forma radical, apresentando uma lógica baseada em extremos: ou se vence, ou se fracassa. Nesse universo, lidar com dificuldades, reconhecer fragilidades ou aceitar frustrações parece não ser uma possibilidade legítima.

"A disseminação de conteúdos misóginos funciona como combustível para inseguranças já existentes. E os impactos ultrapassam a esfera individual: atingem toda a sociedade. O Brasil, por exemplo, permanece entre os países com altos índices de violência contra mulheres, uma realidade cujas consequências afetam toda a coletividade", lamenta. 

O ódio disfarçado de autoajuda 

Outro aspecto apontado pelos pesquisadores é a forma como esses conteúdos costumam se apresentar. Muitas vezes, discursos misóginos aparecem disfarçados de mensagens de autoajuda ou desenvolvimento pessoal masculino. Segundo Débora Salles, esse é um dos formatos mais frequentes na machosfera brasileira. "Os chamados pick-up artists, ou artistas da conquista, costumam se apresentar como espaços voltados ao desenvolvimento masculino, à autoconfiança e ao crescimento pessoal", detalha.

Ela explica que existe uma relação estreita entre autoajuda, performance masculina e conquista amorosa. Nesse contexto, o objetivo não seria apenas promover o desenvolvimento individual, mas tornar os homens mais desejáveis e mais eficientes em estratégias de sedução e manipulação. A combinação entre ressentimento masculino, necessidade de pertencimento e promessas de crescimento pessoal acaba funcionando como um dos principais elementos de união dessas comunidades.

Segundo Luisa Borges, a partir desse processo, muitos jovens passam a enxergar relações humanas sob uma lógica de disputa e poder, deixando de compreender vínculos afetivos como espaços de troca e construção conjunta. "Surge a ideia de que alguém precisa vencer e alguém precisa fracassar — e ele não quer ocupar o lugar de quem perde."

Nesse cenário, a mulher deixa de ser vista como sujeito, com desejos e individualidade, e passa a ser tratada como um recurso a ser conquistado ou como uma adversária a ser combatida. "Isso inviabiliza a construção de vínculos saudáveis, já que não é possível estabelecer intimidade com alguém percebido como inimigo, e também incita a violência"

Sentimentos naturais das relações humanas, como insegurança, vulnerabilidade e frustração, passam então a ser rejeitados e convertidos em raiva, ressentimento e ódio. "Um exemplo disso são os chamados 'incels', ou celibatários involuntários: homens que passam a culpar as mulheres e a sociedade pela ausência de relacionamentos afetivos", conclui a psicóloga.

Sentinelas do medo 

Se a misoginia disseminada no ambiente digital pode contribuir para o adoecimento psíquico de meninos e jovens, alimentando o ressentimento contra as mulheres, elas também sofrem consequências severas com a expansão da machosfera. Além de serem colocadas em posição de inferioridade e terem seus direitos constantemente questionados, muitas mulheres enfrentam impactos na saúde mental ao serem expostas a esse tipo de conteúdo, que reforça a hostilidade, a objetificação e a violência de gênero no ambiente virtual. 

A psicóloga infantojuvenil Juliana Paim explica que comunidades virtuais que disseminam discursos machistas e misóginos, reforçando crenças de superioridade masculina e de hostilidade contra as mulheres, simplificam a complexidade das relações humanas e dificultam o amadurecimento emocional dos adolescentes.

"Quando pensamos que o adolescente que cresce sob esse tipo de influência será um adulto que se relacionará com mulheres, é inevitável a preocupação com os prejuízos emocionais e as crenças distorcidas sobre os relacionamentos que ele pode carregar para a vida adulta", alerta. De acordo com ela, ensinar os adolescentes a lidar com frustrações, rejeições e emoções difíceis também é uma forma de prevenir a violência de gênero e, até mesmo, casos de feminicídio no futuro.

Segundo levantamento da SaferNet, as denúncias de misoginia na internet cresceram 224% no Brasil em 2025. Em 2024, foram registrados 2.686 casos de violência ou discriminação contra mulheres. No ano seguinte, o número saltou para 8.728 registros.

O avanço se reflete na experiência de milhões de brasileiras. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado e pela Nexus em novembro de 2025, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, revela que 8,8 milhões de mulheres — o equivalente a 10% da população feminina com 16 anos ou mais — sofreram algum tipo de violência digital nos 12 meses anteriores ao levantamento.

Entre as agressões mais relatadas, estão o envio recorrente de mensagens ofensivas ou ameaçadoras, que atingiu cerca de 4,8 milhões de mulheres (5% da população feminina). Também aparecem a invasão de contas e dispositivos pessoais e a disseminação de mentiras sobre vítimas nas redes sociais, ambas relatadas por 4% das mulheres.

Enquanto esses discursos encontram espaço entre parte dos jovens homens, mulheres relatam que a expansão dessas ideias nas redes sociais aumenta a sensação de insegurança também fora do ambiente virtual. O temor não está apenas no conteúdo publicado, mas na dúvida sobre até que ponto essas crenças podem influenciar comportamentos no cotidiano.

A psicóloga clínica Laynara Paiva explica que a exposição contínua a conteúdos que banalizam a violência, sexualizam os corpos femininos ou naturalizam a inferiorização das mulheres pode alterar a percepção de segurança e pertencimento. "Muitas passam a sentir que a violência pode acontecer a qualquer momento e em qualquer lugar."

Temor constante

A psicóloga relata que, em sua clínica, observa um aumento da vigilância constante, da desconfiança e da necessidade de monitorar riscos. "A sensação subjetiva é de que o ambiente se torna menos previsível e menos seguro, o que impacta diretamente a qualidade de vida e o bem-estar emocional", destaca.

"Ver esse tipo de conteúdo circulando nas redes sociais me deixa muito descrente. Eu acreditava genuinamente que a sociedade não poderia retroceder dessa forma, mas a exposição constante a discursos de ódio e à normalização da violência contra as mulheres é assustadora", declara Elisabeth (nome fictício), 25 anos, moradora de Brasília.

Ao ser questionada se o crescimento de discursos misóginos no ambiente on-line aumenta a sensação de ameaça das mulheres também fora da internet, Elisabeth afirma que o medo está relacionado à forma como esses grupos passam a enxergar e tratar as mulheres. "Quando você vê homens falando de mulheres de uma forma tão desumana, tratando a violência como algo banal ou até defendendo esses comportamentos, isso realmente assusta. Se uma pessoa consegue falar abertamente sobre esse tipo de pensamento, o medo de que ela transforme isso em uma atitude concreta existe."

Alice (nome fictício), 19, moradora do Guará, afirma que o contato com conteúdos relacionados à "machosfera" aumentou sua sensação de insegurança e medo diante dos desafios de ser mulher na sociedade. "Comecei a me afastar e a evitar desenvolver relações que exigissem confiança. Também passei a não ser tão gentil, por uma questão de segurança e pelo medo de que interpretassem isso de outra forma", relata.

A jovem afirma que essa mudança de percepção veio acompanhada de sentimentos como ansiedade e vulnerabilidade. "Tenho dificuldade de relaxar, parece que estou sempre em alerta. Isso acaba gerando consequências físicas, como dores nas costas por causa da tensão e até bruxismo."

Laynara Paiva explica que esses quadros podem surgir a partir de um processo de hipervigilância, em que o cérebro passa a responder não apenas a ameaças reais e presenciais, mas também à exposição constante a esses conteúdos. "A exposição repetida a conteúdos violentos também pode ativar os mesmos sistemas biológicos envolvidos na resposta ao perigo. Isso aumenta a produção de hormônios relacionados ao estresse, como cortisol e adrenalina", detalha.

A profissional explica que, com o tempo, essa sobrecarga pode contribuir para sintomas semelhantes aos observados em quadros de ansiedade, como preocupação constante e dificuldade de relaxamento. Em alguns casos, o excesso de alerta pode favorecer crises de pânico, especialmente quando o organismo passa a interpretar sinais corporais comuns como sinais de perigo.

Outra problemática destacada pela psicóloga é a chamada violência simbólica — presente em piadas, discursos de inferiorização e ataques on-line que comunicam repetidamente que a mulher vale menos, deve ocupar menos espaço ou merece menos respeito. "Quando essas mensagens são constantes, podem contribuir para sentimentos de vergonha, insegurança, baixa autoestima, ansiedade e sofrimento emocional."

Na clínica, a especialista diz observar que pequenas agressões repetidas podem produzir efeitos cumulativos importantes. "Mulheres vão deixando de se perceber como um ser autônomo, perdem seu brilho pessoal. O sofrimento não depende apenas da intensidade de um evento isolado, mas também da frequência com que ele ocorre ao longo do tempo", declara.

Medo de virar estatística

A psicóloga destaca que, quando discursos violentos se tornam frequentes, eles podem passar a ser percebidos como socialmente aceitáveis. Segundo ela, a presença de perfis com grande alcance nas redes sociais que propagam ideias sobre como mulheres "devem" ou "não devem" agir contribui para a sensação de que a hostilidade contra mulheres está mais presente na sociedade, ultrapassando o ambiente on-line.

Em março deste ano, a Polícia Federal (PF) abriu um inquérito para investigar a disseminação, nas redes sociais, da trend "Caso ela diga não", apontada como um conteúdo que incentivaria a violência contra mulheres. Os vídeos, que viralizaram no TikTok, simulavam situações de rejeição feminina — como a recusa de um pedido de namoro — e apresentavam jovens sugerindo supostas formas de "reagir" a esse tipo de situação. Em algumas gravações, eles apareciam desferindo socos e chutes contra manequins que representariam mulheres.

Segundo a PF, foi solicitada a remoção dos conteúdos à plataforma, que informou que os vídeos violavam suas diretrizes e foram retirados após serem identificados.

Do ponto de vista psicológico, Laynara explica que esse cenário enfraquece a percepção de proteção coletiva. "Muitas mulheres passam a sentir que precisam estar constantemente alertas, porque não sabem quem compartilha dessas crenças fora do ambiente virtual. Esse processo contribui para sentimentos de insegurança, vulnerabilidade e isolamento", afirma. 

A reconstrução do masculino 

Se a misoginia, o machismo e a masculinidade tóxica prejudicam tanto os jovens meninos quanto as mulheres, logicamente a solução passa pela transformação do modelo atual de masculinidade. A psicóloga infantojuvenil Juliana Paim afirma que é necessário ensinar que a verdadeira força não está em reprimir os próprios sentimentos, mas, sim, na capacidade de reconhecer, compreender e lidar com as emoções.

"Quando um adolescente aprende que precisa esconder o medo, a tristeza ou a vulnerabilidade para ser considerado 'forte', ele passa a interpretar emoções naturais como sinais de fracasso", explica. A psicóloga ressalta que emoções reprimidas não desaparecem. "Elas acabam encontrando outras formas de expressão, muitas vezes disfuncionais. É aquela frase: para onde vão as emoções desconfortáveis que você engole?", provoca.

Na vida adulta, explica a profissional, essas emoções podem se manifestar de diferentes maneiras, como dificuldade para estabelecer relações íntimas, baixa tolerância à frustração, explosões de raiva, comportamentos agressivos, ansiedade, depressão e dificuldade para resolver conflitos de forma saudável. Também podem favorecer o desenvolvimento de vícios e compulsões, utilizados como tentativa de obter uma falsa sensação de controle ou de aliviar emoções que nunca foram adequadamente reconhecidas e elaboradas.

O psicólogo Fernando Aguiar, de 41 anos, conta que começou a perceber ainda na adolescência os valores impostos pelo patriarcado. A compreensão mais profunda, no entanto, veio apenas na vida adulta, quando passou a estudar o tema. "Fui entendendo o quanto o patriarcado trouxe prejuízos para a minha vida."

Para Fernando, a expressão "masculinidade tóxica" não é a mais adequada para explicar o problema. O foco deve estar no sistema que sustenta esses comportamentos. "Quando usamos essa expressão, parece que existe uma masculinidade saudável dentro do patriarcado. Na verdade, estamos falando de um sistema baseado na dominação masculina e na desigualdade. Esse é o problema", defende.

Entre os principais impactos que identifica em sua própria trajetória, está a repressão emocional imposta aos homens desde cedo. "O prejuízo clássico é a necessidade de permanecer emocionalmente reprimido. Você cresce tendo que negar a sensibilidade, o afeto e a vulnerabilidade", afirma. Segundo ele, essa pressão acaba produzindo um profundo isolamento emocional e tendências violentas. "No meu caso, eu não queria ocupar esse lugar, mas, ao mesmo tempo, não conseguia deixar de assumi-lo, porque quem não corresponde ao que o patriarcado espera dos homens acaba sendo alvo de violência."

Fernando lembra que, desde a infância, era objeto de ofensas por não se encaixar no padrão esperado de masculinidade. "Eu ouvia o clássico 'viado', 'mulherzinha'. São comentários misóginos e machistas que tentam humilhar o menino."

Para Juliana Paim, a prevenção à violência de gênero e ao aliciamento de adolescentes por discursos misóginos passa, necessariamente, pelo desenvolvimento de habilidades socioemocionais desde a infância. Segundo ela, existem diversas evidências que mostram que esse tipo de educação é capaz de reduzir comportamentos agressivos e fortalecer competências essenciais para a convivência.

Entre elas estão o reconhecimento e a nomeação das emoções, a autorregulação emocional, a tolerância à frustração, a empatia, a resolução de conflitos, a comunicação assertiva, o pensamento crítico e a responsabilização pelas próprias escolhas. "Essas habilidades funcionam como fatores de proteção diante de discursos extremistas e da violência", afirma.

A psicóloga ressalta que a família tem um papel central nessa construção, pois é de dentro de casa que as primeiras noções de respeito, empatia, responsabilidade e convivência são aprendidas. Nesse contexto, Juliana defende que os meninos precisam de referências positivas de masculinidade. "É preciso apresentar homens que sejam responsáveis, respeitosos, emocionalmente maduros, capazes de assumir responsabilidades, cuidar das pessoas e resolver conflitos sem recorrer à violência", diz.

A escola, por sua vez, pode complementar esse processo ao promover a educação emocional, estimular o pensamento crítico, valorizar o respeito às diferenças e adotar uma postura de tolerância zero diante de manifestações de misoginia, inclusive em casos de cyberbullying entre estudantes.

Para Juliana, oferecer novos modelos de masculinidade é uma estratégia que beneficia toda a sociedade. "Os meninos não precisam de menos masculinidade; precisam de referências melhores de masculinidade. Quando ensinamos que força também significa autocontrole, empatia, responsabilidade e respeito, protegemos não apenas as meninas e as mulheres, mas os próprios meninos." 

Espaço seguro 

Ao perceber a falta de espaços seguros onde os homens pudessem falar sobre si mesmos sem medo de julgamento, o psicoterapeuta corporal e educador social Paolo Chirola, 54 anos, decidiu, ao lado do colega Lucas Nóbrega, criar a Casa dos Homens. O projeto nasceu há 15 anos com o objetivo de oferecer um ambiente de acolhimento e reflexão sobre masculinidade, afetividade e relações interpessoais.

Segundo Paolo, trata-se de um grupo terapêutico voltado para homens que desejam compreender melhor a si mesmos e transformar a maneira como vivem seus relacionamentos. "É um espaço onde é possível falar de medos, fracassos, raiva, culpa, amor, sexualidade, paternidade e tantos outros temas que, muitas vezes, os homens aprendem desde cedo a esconder", explica.

O trabalho é desenvolvido a partir da metodologia da Core Energetics, abordagem terapêutica que integra corpo, emoções e mente. "Utilizamos exercícios corporais e energéticos, mas também a fala, a escuta e a troca de experiências entre os participantes", detalha.

Nos últimos anos, o grupo passou a investigar, sobretudo, os efeitos do patriarcado sobre a vida dos homens. "Falamos sobre violência masculina, sobre a dificuldade que muitos homens têm de sentir e expressar afeto, sobre sexualidade, relações com as mulheres, relações entre homens, competição, necessidade de poder, medo da vulnerabilidade e o desejo profundo — muitas vezes escondido — de amar e ser amado."

Utilizando-se como exemplo, Paolo relembra que seu grande gatilho era a raiva. Desde criança, respondia às pequenas frustrações com acessos de raiva. "Com o tempo, entendi que não podia descarregá-la nas pessoas, mas também não sabia o que fazer com ela." A resposta veio por meio da terapia corporal. "Descobri que, quando não encontramos uma forma saudável de viver a raiva, ela acaba se transformando em explosões, isolamento, ansiedade ou até doenças no corpo. Sentir raiva não é o problema. O problema é não saber escutá-la." Ao aprofundar esse processo, percebeu que a emoção escondia algo maior. "Aos poucos, fui percebendo que, por trás da minha raiva, quase sempre existia uma profunda sensação de impotência."

Enfrentamento 

Para especialistas, combater a influência da machosfera exige uma atuação conjunta das plataformas digitais, das famílias, das escolas e de espaços que promovam o desenvolvimento emocional dos meninos. A psicóloga Bianca Orrico, da SaferNet Brasil, organização não governamental que busca defender e promover os direitos humanos na internet, explica que os algoritmos das redes sociais tendem a priorizar conteúdos com maior potencial de engajamento, como publicações que despertam indignação, choque ou curiosidade. No caso dos adolescentes, esse mecanismo pode favorecer um processo gradual de radicalização.

Segundo Bianca, as plataformas já dispõem de diferentes ferramentas para identificar a circulação de conteúdos nocivos. Porém, ela ressalta que ainda existem obstáculos constantes. "Esses grupos adaptam continuamente sua linguagem, recorrem a códigos, memes, ironias e outras estratégias para escapar dos mecanismos automáticos de detecção."

Na avaliação da psicóloga Juliana Paim, famílias e escolas precisam estar atentos ao comportamento dos adolescentes para interromper esse ciclo. Ela recomenda atenção a mudanças de comportamento que, quando persistentes e observadas em conjunto, podem indicar influência de discursos extremistas.

A especialista ressalta, no entanto, que esses comportamentos não devem ser interpretados de forma isolada. "O mais importante não é responder com punição imediata, mas fortalecer o diálogo, compreender o que aquele discurso está oferecendo ao adolescente e ajudá-lo a desenvolver pensamento crítico. Nenhum desses sinais, sozinho, significa que o jovem esteja sendo influenciado por discursos de ódio. O fundamental é observar a frequência, a intensidade e o conjunto dessas mudanças."

Para Paolo Chirola, o enfrentamento também passa pela criação de espaços onde os homens possam questionar os padrões que aprenderam desde a infância. "O primeiro passo é reconhecer que essa transformação não acontece de forma solitária."