Na madrugada de 17 de julho de 1936, uma transmissão de rádio feita a partir de Melilla, no Marrocos espanhol, anunciou um levante militar. Em poucas horas, a notícia atravessou o Estreito de Gibraltar e se espalhou por toda a Espanha. O que parecia ser apenas mais um golpe de Estado logo se transformaria em uma das guerras civis mais sangrentas do século 20.

Ao longo de quase três anos, cerca de meio milhão de pessoas perderiam a vida. Cidades seriam destruídas, famílias divididas e o país mergulharia em uma violência sem precedentes. Mais do que um conflito interno, a Guerra Civil Espanhola acabaria se tornando um laboratório para as grandes potências europeias, onde novas armas, estratégias militares e métodos de propaganda seriam testados antes da explosão da Segunda Guerra Mundial.

A origem desse conflito, porém, vinha de muito antes dos primeiros disparos.

A Espanha chegou à década de 1930 profundamente marcada por desigualdades sociais, disputas políticas e crises econômicas. Em 1931, a monarquia de Alfonso XIII caiu, dando lugar à Segunda República, um projeto que pretendia modernizar o país. O novo governo propôs reformas ambiciosas: separar Igreja e Estado, redistribuir terras, reduzir a influência política dos militares e conceder maior autonomia a regiões como Catalunha e País Basco.

 

Barricadas erguidas por civis e milícias improvisavam a defesa de Barcelona, simbolizando os primeiros dias do conflito

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Cada uma dessas mudanças despertou resistências poderosas.

Enquanto trabalhadores, intelectuais e setores urbanos enxergavam na República uma oportunidade de transformar o país, boa parte da elite econômica, da Igreja Católica, dos grandes proprietários rurais e das Forças Armadas passou a considerar aquelas reformas uma ameaça ao modelo tradicional espanhol.

Pouco a pouco, o país deixou de discutir ideias para viver uma disputa de sobrevivência política.

De um lado estavam republicanos, socialistas, comunistas, anarquistas da poderosa CNT-FAI e nacionalistas regionais. Do outro reuniam-se monarquistas, conservadores, militares, grandes proprietários e integrantes da Falange Española, movimento de inspiração fascista criado por José Antonio Primo de Rivera.

A polarização aumentou ainda mais após as eleições de fevereiro de 1936. A vitória da Frente Popular, coalizão formada por partidos de esquerda, foi recebida por seus apoiadores como a consolidação do projeto republicano. Para os setores conservadores, porém, o resultado representava o risco de uma revolução semelhante à que havia ocorrido na União Soviética.

Foi nesse ambiente de tensão permanente que parte do alto comando do Exército decidiu agir.

Generais como Emilio Mola e Francisco Franco organizaram um levante militar acreditando que conseguiriam derrubar o governo em poucos dias. O plano previa ocupar rapidamente as principais cidades e restabelecer uma nova ordem política.

Nada aconteceu como imaginavam.

Em Madri, Barcelona e outras importantes cidades, trabalhadores, sindicatos, milícias populares e setores das forças de segurança permaneceram leais ao governo republicano e reagiram imediatamente. Barricadas foram erguidas, quartéis enfrentaram resistência e o golpe fracassou justamente onde precisava vencer.

O que deveria durar poucos dias transformou-se em uma guerra que dividiria a Espanha por quase três anos.

O território passou a ser controlado por dois grandes blocos. De um lado permaneceu a República, sustentada principalmente pela União Soviética e pelas Brigadas Internacionais, formadas por cerca de 40 mil voluntários vindos de dezenas de países. Do outro consolidaram-se os nacionalistas liderados por Francisco Franco, apoiados militarmente pela Alemanha nazista de Adolf Hitler e pela Itália fascista de Benito Mussolini.

A partir daquele momento, a Guerra Civil Espanhola deixou de ser apenas um conflito entre espanhóis.

Ela passou a representar um confronto entre projetos de sociedade, ideologias e interesses internacionais. Fascismo, comunismo e democracias liberais observaram e, em muitos casos, participaram diretamente de uma guerra que anteciparia quase tudo o que o mundo testemunharia poucos anos depois.

Por isso, historiadores costumam definir a Guerra Civil Espanhola como o verdadeiro ensaio geral da Segunda Guerra Mundial: um conflito em que armas, estratégias, alianças e discursos foram experimentados antes de mergulharem a Europa na maior tragédia de sua história.

 

General Franco acompanha o desfile das tropas nacionalistas

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Cronologia


17/07/ 1936 – Um levante militar iniciado no Marrocos espanhol tenta derrubar a Segunda República. O golpe fracassa e dá início à Guerra Civil Espanhola.

Julho–novembro de 1936 Madri resiste ao cerco nacionalista. As Brigadas Internacionais chegam para apoiar a República e o lema "¡No pasarán!" torna-se símbolo da resistência.

1937 – As batalhas do Jarama e de Guadalajara freiam o avanço nacionalista. Em 26 de abril, a aviação alemã e italiana bombardeia Guernica, episódio que inspira Pablo Picasso.

1938 – A Batalha do Ebro, a maior da guerra, termina com a derrota republicana e consolida a vantagem militar de Franco.

1939 – Barcelona cai em janeiro; Madri rende-se em março. Em 1º de abril, Francisco Franco proclama a vitória nacionalista, encerrando a guerra.

¡No pasarán!

Tornou-se o principal lema da resistência republicana durante a Guerra Civil Espanhola. A expressão ganhou fama na defesa de Madri, em 1936, quando foi usada pela dirigente comunista Dolores Ibárruri, a "La Pasionaria", para incentivar civis e combatentes diante do avanço das tropas nacionalistas de Francisco Franco. Mais do que uma frase de guerra, transformou-se em um símbolo internacional de resistência ao fascismo e da defesa da democracia.

500 mil mortos Entre militares e civis, a Guerra Civil Espanhola provocou cerca de meio milhão de mortes entre 1936 e 1939.

450 mil exilados ao fim da guerra, centenas de milhares de republicanos fugiram da Espanha, principalmente para a França.

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