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Serra da Piedade, Semana Santa de 1813

As trilhas da montanha estavam tomadas. Peregrinos chegavam de diversas regiões de Minas Gerais. Alguns caminhavam durante dias. Outros viajavam em tropas ou a cavalo. Havia homens ricos, trabalhadores humildes, religiosos, curiosos e enfermos em busca de cura. Todos tinham o mesmo objetivo: ver Irmã Germana.

Os relatos reunidos pelo promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda no livro “Irmã Germana – A Exilada de Macaúbas” mostram que, naquele período, a Serra da Piedade transformou-se em um dos principais destinos de peregrinação da província.

Segundo testemunhos daquela época, mais de 2 mil pessoas chegaram a se reunir na montanha durante os eventos realizados para as comemorações da Semana Santa.

Para uma Minas Gerais que ainda possuía consideráveis dificuldades de deslocamento e de comunicação, o número alcançado de peregrinos no lugar era extraordinário.

A fama de Germana havia ultrapassado os limites da cidade de Caeté. Os relatos de seus êxtases circulavam entre viajantes, religiosos e moradores de diferentes regiões.

Muitos acreditavam que ela participava dos sofrimentos de Cristo. Outros diziam ter presenciado fatos inexplicáveis.

Segundo o historiador José Tambasco, citado por Marcos Paulo de Souza Miranda, a devoção popular atingiu proporções impressionantes. “Tocar Irmã Germana era bênção a que os devotos romeiros almejavam de todo o coração.”

A multidão crescia a cada ano. Dom Joaquim Silvério de Souza registraria mais tarde que a força da devoção era tamanha que pessoas de diversas localidades subiam a serra apenas para contemplá-la. “Grande era a força da gente que de tropel afluía para admirar os fenômenos”, escreveu.


AS SEGUIDORAS DE GERMANA

A situação começou a chamar a atenção das autoridades. A preocupação não estava necessariamente relacionada à figura de Germana. O problema era a dimensão que o movimento assumia.

A Serra da Piedade passou a receber fluxo constante de visitantes. A presença de milhares de pessoas favorecia o comércio informal, aumentava a circulação de rumores e criava um ambiente que escapava ao controle das autoridades religiosas.

Ao mesmo tempo, surgia um fenômeno ainda mais delicado: outras mulheres passaram a reunir-se ao redor de Germana. Entre elas destacava-se Clara da Paixão de Cristo.

Inspiradas pela vida de oração da devota, várias beatas passaram a viver na Serra da Piedade seguindo uma rotina de recolhimento, penitência e devoção. O grupo sonhava criar uma instituição religiosa feminina no local.

A iniciativa chegou a ganhar contornos oficiais. Em 7 de julho de 1817, foi encaminhado ao príncipe regente Dom João VI um documento solicitando autorização para a criação de um recolhimento feminino na serra.

No texto, as autoras descreviam Germana como uma mulher de vida exemplar e destacavam os acontecimentos extraordinários associados ao seu nome. “Bem notória é a santa vida de uma mulher aleijada e enferma”, afirmava o documento.

Mas nem todos viam a situação com entusiasmo. Para parte da hierarquia eclesiástica, o crescimento daquele movimento exigia atenção.

As manifestações de religiosidade popular estavam se tornando independentes demais.

A presença constante de romeiros criava uma devoção que não era conduzida diretamente pelas estruturas tradicionais da Igreja.


A solução começou a ser discutida entre as autoridades. Quando os naturalistas alemães Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich von Martius visitaram Minas Gerais em 1818, encontraram sinais claros dessa preocupação.


Ao passarem pela Serra da Piedade, eles registraram que Germana havia sido afastada do local por uma determinação das autoridades. Segundo os viajantes, o governo tomara providências para retirá-la da montanha.


REAÇÃO DOS FIÉIS

Inicialmente, Germana foi levada para Roças Novas, distrito de Sabará, onde residia o padre José Gonçalves Pereira, seu diretor espiritual.

Mas a medida provocou forte reação popular. A pressão dos fiéis foi tão intensa que ela acabou retornando à Serra da Piedade.

O episódio demonstrava a força da devoção construída ao longo dos anos. A permanência, porém, seria temporária.

Na década de 1840, o cenário havia mudado. O padre José Gonçalves Pereira envelhecia. As romarias continuavam. A fama permanecia intacta. E a Igreja desejava uma solução definitiva.

Foi nesse contexto que entrou em cena Dom Antônio Ferreira Viçoso. Missionário lazarista e futuro bispo de Mariana, ele desempenharia papel decisivo na história de Germana.

Em carta datada de 11 de março de 1843, Viçoso recomendou que ela fosse retirada da Serra da Piedade e encaminhada para um local onde pudesse viver em recolhimento permanente.

O destino escolhido foi o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas, em Santa Luzia do Rio das Velhas. A proposta foi aceita.

Em agosto de 1843, Madre Josefa Maria da Purificação solicitou autorização para acolher Germana e sua irmã Dionísia Gonçalves da Piedade.

A aprovação oficial foi concedida em 5 de setembro daquele ano. Dias depois, a mulher que durante décadas havia atraído multidões iniciava sua despedida da Serra da Piedade.

Pela última vez, Germana deixava para trás a sua família e o local que a transformara em personagem conhecida em toda Minas Gerais. O seu destino era Santa Luzia. Na cidade, ela viveria os últimos 13 anos de sua vida.

 

ARQUIVO

ENTRE OS MUROS E A ORAÇÃO

Santa Luzia do Rio das Velhas,
17 de setembro de 1843

Após décadas vivendo na Serra da Piedade, Germana Maria da Purificação atravessava os portões do Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição de Macaúbas acompanhada de sua irmã, Dionísia Gonçalves da Piedade.

O registro de sua entrada foi preservado nos arquivos do mosteiro e informa que ambas foram admitidas "por esmola", sem qualquer pagamento, em razão da pobreza em que viviam. Começava ali o último capítulo da vida da mulher que havia mobilizado médicos, cientistas, religiosos e milhares de romeiros.
Segundo a pesquisa desenvolvida pelo promotor de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda no livro “Irmã Germana – A Exilada de Macaúbas”, a chegada ao recolhimento deu origem a um dos relatos mais impressionantes de toda a sua trajetória.

De acordo com testemunhos preservados por Dom Joaquim Silvério de Souza, durante a cerimônia de recepção das novas recolhidas, o sacerdote responsável teria se esquecido das limitações físicas da recém-chegada.

Ao entregar-lhe o hábito religioso e a imagem do Menino Jesus, ordenou:

— Levanta-te, sobe e vem receber o hábito.

O que aconteceu em seguida marcou profundamente a memória das religiosas. Segundo os relatos históricos, Germana levantou-se e caminhou. “Seguiu manquejando, mas andando ereta, e nunca mais engatinhou.”

A cena teria sido testemunhada por diversas pessoas presentes à cerimônia. Entre elas estava o padre Luiz Antônio dos Santos, futuro bispo, que anos depois deixaria um dos mais importantes depoimentos sobre a vida de Germana em Macaúbas.

Segundo ele, a mulher que durante anos havia se locomovido com extrema dificuldade passou a circular normalmente pelo mosteiro. “Eu tive ocasião de ver Germana dentro do eecolhimento andando perfeitamente”, registrou.

A partir daquele momento, a antiga personagem das romarias passou a viver uma rotina silenciosa.

Os relatos produzidos pelas religiosas e pelos capelães de Macaúbas descrevem uma mulher simples, humilde e dedicada à oração.

Segundo Dom Luiz Antônio dos Santos, Germana alimentava-se muito pouco. Recusava carne e gordura e frequentemente sobrevivia apenas com pequenas porções de alimento.

Mas o aspecto mais lembrado por quem conviveu com ela era a caridade. Dom Joaquim Silvério registrou que Germana estava sempre entre as primeiras a auxiliar as recolhidas enfermas.

Quando alguma irmã adoecia, era comum vê-la prestando cuidados, oferecendo companhia ou auxiliando nos serviços necessários.


A FAMA AUMENTA


Sua fama de santidade cresceu dentro dos muros do recolhimento. E os êxtases continuaram.

Segundo os testemunhos reunidos por Marcos Paulo de Souza Miranda, as manifestações observadas na Serra da Piedade também passaram a ocorrer em Macaúbas.

Nas quintas-feiras à noite, Germana era conduzida ao Coro Alto da igreja ou à Capela do Senhor dos Aflitos. Ali começavam novamente os estados extáticos.

Os relatos descrevem períodos de rigidez muscular, imobilidade e posições corporais associadas aos sofrimentos de Cristo.

Dom Joaquim Silvério registrou um episódio particularmente impressionante. Segundo o religioso, durante algumas Sextas-feiras Santas, Germana permanecia junto à parede da capela com os braços abertos em cruz, sustentando-se praticamente sobre um único dedo do pé até as três horas da tarde, horário tradicionalmente associado à morte de Jesus.

As descrições continuavam a despertar curiosidade. Nem mesmo a ciência abandonou completamente o caso.

Em 19 de agosto de 1844, o médico italiano Paschoal Pacini, integrante da Academia de Ciências de Palermo, recebeu autorização do bispo Dom Antônio Ferreira Viçoso para examinar Germana dentro do recolhimento.

Seu objetivo era tentar compreender os fenômenos observados ao longo de décadas. Assim, foram realizadas diversas tentativas de observação. As conclusões, porém, permaneceram inconclusivas. Os mistérios ao redor da vida da mineira continuava intacto.

Em meio à rotina de oração e recolhimento, Germana sofreu uma perda importante. Em 22 de novembro de 1845 morreu Dionísia Gonçalves da Piedade, sua irmã e companheira desde os tempos da Serra da Piedade.

As duas haviam enfrentado juntas o afastamento da montanha e da família, a mudança para a cidade de Santa Luzia e os anos iniciais vivendo em Macaúbas. A morte de Dionísia deixou Germana se sentido sozinha.

Ainda assim, ela permaneceu no recolhimento por mais de uma década. No final de 1855, sua saúde voltou a se agravar. Uma forte desinteria provocou intenso sofrimento físico.

Durante aproximadamente três semanas, permaneceu recolhida ao leito sob os cuidados das religiosas. Em 14 de janeiro de 1856, aos 73 anos, morreu em Macaúbas.

No dia seguinte, 15 de janeiro, foi celebrada a missa de corpo presente pelo padre Joaquim de Oliveira Lana. Em seguida, Germana foi sepultada no coro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição.


REFERÊNCIAS DE DOM PEDRO II


A morte não encerrou sua influência. Ao contrário. A fama de santidade continuou crescendo.

Monsenhor José de Souza Telles conservou o rosário utilizado por Germana. Dom Benevides guardou a imagem do Menino Jesus que lhe pertencera.

O manto usado pela exilada foi preservado no mosteiro e, durante décadas, pequenos fragmentos foram retirados por diversos devotos que desejavam conservar uma lembrança da devota considerada sagrada.

Três anos após sua morte, em 1859, Joaquim Norberto de Souza e Silva publicou um amplo estudo biográfico sobre sua trajetória.

Em 1881, Dom Pedro II registrou referências à sua fama durante uma viagem por localidades de Minas Gerais.

Décadas depois dos registros, historiadores, religiosos e pesquisadores continuariam investigando os fenômenos associados ao seu nome.

Quase 170 anos após sua morte, Irmã Germana permanece como uma das personagens mais fascinantes da história religiosa mineira.

Entre a fé e a ciência. Entre a devoção e o mistério. Entre os documentos históricos e as lembranças preservadas em Macaúbas.

 

‘‘Queria jejuar completamente às sextas e sábados; a princípio sua mãe quis impedi-la, mas Germana declarou que durante esses dois dias era-lhe inteiramente impossível tomar qualquer alimento e daí por diante ela passou-os sempre na mais completa abstinência’’

• Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853)

‘‘Na Sexta-feira Santa ou da Paixão de cada ano, outra coisa ainda mais admirável se observava... ao aproximar-se o termo das três horas todos os sinais de uma morte iminente apareciam, até o suor e a lágrima que rolava pelas lívidas faces. Oscilava então o corpo e era amparada pela irmã, que a deitava. Assustado junto de Germana e com o relógio na mão, assisti eu ao que aqui descrevo, na Sexta-feira Santa do ano de 1842’’

Dom Luiz Antônio dos Santos, em 1872

‘‘A enfermidade começou há anos, por dismenorragia proveniente da ação diminuída do sistema sanguíneo, de que se seguiram movimentos irritativos retrógrados do canal alimentar, como anorexia, vômitos, histéricos etc. Estes movimentos espasmódicos continuam quase sempre, porém com circunstâncias tão singulares e tão extraordinárias que merecem a maior atenção’’

• Relatório médico

‘‘Porém vós não viestes observar uma cataleptica: vinheis de casa prevenidos a ver uma Santa. Quem no primeiro passo se desvia da verdade, tanto mais diverge dela, quanto mais caminhar na mesma direção. A credulidade da multidão ignorante, além de consagração do erro, danifica diretamente a sociedade, privando-a, por cálculo bem moderado, de um milhão de serviços na sôfrega concorrência de romeiros’’

Antônio Gonçalves Gomide (1770-1835)