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Oficialmente chamada de Grande Revolução Cultural Proletária, a campanha foi lançada por Mao Tsé-Tung em maio de 1966 com o objetivo declarado de eliminar influências "burguesas" e proteger o socialismo chinês contra inimigos infiltrados dentro do próprio Partido Comunista. Historiadores, porém, apontam que o movimento também serviu para restaurar a autoridade política do líder após o fracasso do Grande Salto Adiante, política econômica associada à fome que matou milhões de chineses no final dos anos 1950.

O momento decisivo daquela escalada ocorreu em 18 de agosto de 1966.

Naquela manhã, Mao Tsé-Tung apareceu sobre o Portão de Tiananmen diante de centenas de milhares de estudantes reunidos na Praça da Paz Celestial. Fotografias históricas mostram jovens agitando exemplares do Livro Vermelho, chorando, gritando slogans revolucionários e tentando se aproximar do líder comunista. Muitos haviam atravessado o país em viagens gratuitas organizadas pelo regime para participar das grandes mobilizações convocadas por Mao naquele verão.

Historiadores consideram o episódio um dos marcos simbólicos da Revolução Cultural.

Ao receber publicamente representantes dos Guardas Vermelhos, Mao legitimava nacionalmente o movimento estudantil que, nas semanas seguintes, mergulharia escolas, universidades e cidades inteiras em sucessivas campanhas de perseguição política.

Em poucas semanas, escolas e universidades transformaram-se nos primeiros laboratórios da radicalização.

Relatos reunidos posteriormente por pesquisadores chineses e estrangeiros descrevem professores submetidos a sessões públicas de humilhação organizadas por estudantes adolescentes. Diretores passaram a usar placas ofensivas penduradas no pescoço enquanto multidões os acusavam de elitismo intelectual e desvio ideológico.

Ao mesmo tempo, a campanha avançava contra o patrimônio histórico chinês.

Templos budistas sofreram ataques. Bibliotecas desapareceram. Esculturas antigas foram destruídas.

Cartazes políticos conhecidos como dazibaos, grandes murais manuscritos usados para denúncias públicas, acusações ideológicas e propaganda revolucionária, começaram a cobrir paredes inteiras das cidades chinesas.

A ofensiva recebeu um slogan simples: destruir os "Quatro Velhos".

Velhas ideias.

Velha cultura.

Velhos hábitos.

Velhos costumes.

Na prática, isso significava atacar qualquer elemento associado à China anterior à revolução maoísta. Registros históricos mostram famílias escondendo livros clássicos, queimando fotografias antigas e destruindo objetos religiosos por medo de denúncias. Em algumas cidades, até roupas consideradas elegantes passaram a despertar suspeita política.

O ambiente de mobilização permanente alterou rapidamente o cotidiano chinês. Universidades interromperam aulas para organizar sessões ideológicas. Alto-falantes espalhados pelas cidades transmitiam discursos de Mao durante horas. Trens passaram a transportar estudantes gratuitamente para manifestações políticas em Pequim.

A própria estrutura do Partido Comunista começou a sofrer abalos. Velhos dirigentes revolucionários passaram a ser acusados de "revisionismo". Funcionários públicos desapareceram após denúncias políticas. Em pouco tempo, a campanha deixaria de atingir apenas adversários internos do regime.

Ela avançaria sobre professores, escritores, artistas, famílias inteiras e, gradualmente, sobre a própria estabilidade da sociedade chinesa.

Sessenta anos depois, a Revolução Cultural continua cercada por silêncios dentro da China contemporânea. Mas as imagens daquele verão de 1966 ainda ajudam a explicar o momento em que o país mergulhou numa experiência política que transformaria medo, vigilância e humilhação pública em instrumentos cotidianos de poder.

 

reprodução

Década sangrenba

1966 — O INÍCIO
• Mao lança a Revolução Cultural e mobiliza os Guardas Vermelhos.

1967–1968 — PERSEGUIÇÕES
• Intelectuais são humilhados, escolas fecham e patrimônios são destruídos.

1969 — REEDUCAÇÃO
• Milhões de jovens são enviados ao campo.

1971 — CRISE
• Lin Biao, sucessor de Mao, morre após acusações de conspiração.

1976 — O FIM
• A morte de Mao e a prisão da “Gangue dos Quatro” encerram o movimento.

CONSEQUÊNCIAS
• Milhões foram perseguidos e a China viveu um trauma profundo.

 

Vítimas da Revolução Cultura
Vítimas da Revolução Cultura Arquivo

 

A CHINA FEZ DA HUMILHAÇÃO UM GRANDE ESPETÁCULO POLÍTICO

Fotografias preservadas da Revolução Cultural mostram professores ajoelhados diante de estudantes adolescentes, intelectuais usando chapéus cônicos de papelão com insultos escritos à tinta e homens de cabeça baixa carregando placas ofensivas penduradas no pescoço. Em muitos casos, as imagens foram feitas dentro de escolas. Outras vieram de fábricas, universidades e praças públicas improvisadas como tribunais políticos.

A violência revolucionária chinesa rapidamente assumiu uma estética própria. Relatos reunidos posteriormente por sobreviventes descrevem acusados obrigados a permanecer curvados na chamada "posição do avião", com os braços torcidos para trás enquanto multidões gritavam palavras de ordem. Alguns tinham o rosto coberto por tinta preta. Outros eram forçados a desfilar pelas ruas diante de vizinhos e colegas de trabalho.

O objetivo não era apenas punir. Era destruir publicamente a dignidade do acusado. A Revolução Cultural transformou humilhação em instrumento de mobilização política.

Em escolas de Pequim, estudantes Guardas Vermelhos passaram a organizar sessões conhecidas como "sessões de luta" – encontros coletivos nos quais professores e diretores eram acusados de pensamento burguês, elitismo intelectual ou desvio ideológico. Muitos sobreviventes recordariam décadas depois o ambiente de tensão psicológica permanente que dominava esses interrogatórios públicos.

Em agosto de 1966, um dos episódios mais violentos daquele início ocorreu na escola feminina ligada à Universidade Normal de Pequim. A vice-diretora Bian Zhongyun foi submetida a sucessivas humilhações antes de morrer após espancamentos realizados por estudantes Guardas Vermelhos. Registros históricos indicam que ela teve os cabelos parcialmente raspados e foi obrigada a carregar objetos considerados degradantes diante de colegas e alunas. Fotografias feitas posteriormente pelo marido ajudariam décadas depois a documentar a violência dos primeiros meses da Revolução Cultural.

O caso se tornaria um dos símbolos mais conhecidos da brutalidade da Revolução Cultural contra educadores.

Mas a perseguição avançou muito além das escolas.

O escritor Lao She, um dos nomes mais importantes da literatura chinesa do século XX, também foi levado para sessões públicas de denúncia em Pequim. Testemunhos da época descrevem o autor sendo humilhado diante de multidões antes de aparecer morto dias depois próximo a um lago da capital chinesa – em circunstâncias ainda disputadas pelos historiadores.

A violência política começava a atingir figuras centrais da vida intelectual do país. Em universidades, laboratórios foram fechados. Pesquisadores desapareceram das salas de aula. Bibliotecas deixaram de funcionar regularmente.

A ideia de conhecimento passou a despertar suspeita política.

Relatos de sobreviventes reunidos por historiadores chineses descrevem estudantes participando de agressões não apenas por convicção ideológica, mas também por medo. Demonstrar moderação ou compaixão durante as sessões públicas podia ser interpretado como sinal de desvio político. O ambiente favorecia radicalizações sucessivas.

Quanto maior a humilhação imposta ao acusado, maior parecia ser a demonstração pública de fidelidade revolucionária.

Em algumas cidades, caminhões transportavam acusados lentamente pelas ruas enquanto multidões cuspiam, gritavam e agitavam exemplares do Livro Vermelho de Mao. Registros fotográficos mostram praças lotadas acompanhando sessões coletivas de autocrítica conduzidas diante de operários, estudantes e funcionários públicos.

A própria linguagem cotidiana começou a mudar. Expressões consideradas "burguesas" desapareceram do vocabulário público. Em escolas e repartições, frases revolucionárias passaram a substituir conversas comuns. Até o silêncio podia despertar suspeita.

Ao longo dos anos seguintes, milhões de chineses seriam submetidos a diferentes formas de perseguição pública. Alguns morreriam. Outros sobreviveriam carregando traumas que raramente seriam discutidos abertamente mesmo décadas depois.

Sessenta anos após o início da Revolução Cultural, muitas das fotografias produzidas naquele período continuam perturbadoras justamente porque revelam como multidões inteiras aprenderam a tratar humilhação humana como espetáculo político legítimo.

 

Vítimas da Revolução Cultural  são submetidas a humilhações públicas: cartazes de acusação,ridicularização coletiva, cabeça raspada e posições degradantes impostas durante sessões de denúncia política
Vítimas da Revolução Cultural são submetidas a humilhações públicas: cartazes de acusação,ridicularização coletiva, cabeça raspada e posições degradantes impostas durante sessões de denúncia política Arquivo

ESTÉTICA DO AVILTAMENTO

A Revolução Cultural criou uma linguagem visual própria para destruir publicamente os acusados.

Fotografias históricas mostram vítimas sendo obrigadas a usar:

• Chapéus cônicos com insultos escritos à tinta
• Placas penduradas no pescoço com acusações políticas
• Roupas consideradas degradantes
• Rosto coberto por tinta preta
• Cabelos parcialmente raspados