Casu Marzu: o queijo com larvas que choca o mundo e é proibido em vários países
Entre os muitos queijos tradicionais do mundo, o queijo Casu Marzu chama a atenção pela presença de larvas vivas no interior da massa. Saiba como ocorre sua produção e a razão para ele ser proibido em vários países.
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Entre os muitos queijos tradicionais do mundo, o queijo Casu Marzu chama a atenção por um detalhe pouco comum: a presença de larvas vivas no interior da massa. Originário da Sardenha, na Itália, ele tem um processo de maturação peculiar e está envolto em um debate constante sobre segurança alimentar. Embora seja tratado como patrimônio cultural por parte da população local, também é alvo de restrições legais e de alerta de especialistas em saúde.
O interesse em torno do Casu Marzu cresceu nas últimas décadas, impulsionado por reportagens, curiosidades gastronômicas e pelo caráter exótico do produto. Ao mesmo tempo, autoridades sanitárias de diferentes países, inclusive o Brasil, mantêm atenção redobrada quanto à circulação desse tipo de alimento. Para quem estuda alimentação tradicional, o queijo funciona como exemplo de como hábitos regionais podem entrar em choque com normas modernas de higiene e controle de riscos.
Como é produzido o queijo Casu Marzu?
O Casu Marzu é feito, em geral, a partir de leite de ovelha cru. Assim, o processo começa com a produção de um queijo típico sardo, semelhante ao pecorino, que é então deixado ao ar livre em determinadas condições. Nesse estágio, o produtor permite que uma espécie de mosca, conhecida como Piophila casei, deposite ovos na casca do queijo. Por fim, quando esses ovos eclodem, as larvas passam a se alimentar da massa interna.
À medida que as larvas consomem o queijo, liberam enzimas que aceleram a fermentação e transformam a textura, deixando-a muito mais macia e cremosa. Esse processo de decomposição controlada pode levar semanas ou meses, dependendo da temperatura, da umidade e da tradição de cada família ou produtor. O resultado é um queijo de odor forte e sabor extremamente intenso, cujo consumo ocorre muitas vezes ainda com as larvas vivas em movimento no interior da peça.
Em muitos casos, o próprio produtor decide o ponto ideal de se consumir observando a atividade das larvas e a consistência da massa. No entanto, alguns consumidores preferem retirar as larvas antes de comer. Por sua vez, outros as ingerem junto com o queijo. Porém, essa escolha não elimina todos os riscos, já que a transformação química que os insetos promovem ocorre em toda a peça.
Por que o Casu Marzu é tão polêmico?
A polêmica em torno do queijo Casu Marzu associa-se principalmente à segurança alimentar e às normas sanitárias. Afinal, a presença de larvas vivas e o uso de leite cru criam um ambiente propício para a proliferação de bactérias, parasitas e toxinas. Por isso, autoridades europeias consideram o produto fora dos padrões de higiene previstos para alimentos comercializados em larga escala. Assim, esse fato levou à proibição oficial de venda em muitos contextos na União Europeia.
Apesar das restrições, o Casu Marzu continua circulando de forma limitada. Geralmente, em pequenas comunidades ou no mercado informal da Sardenha. Para parte da população local, ele é um símbolo de identidade cultural e tradição pastoril. Porém, para agências regulatórias ele representa um possível vetor de doenças gastrointestinais e problemas mais graves. Portanto, é uma situação que alimenta o conflito entre preservação cultural e proteção da saúde pública.
Outro ponto sensível é o impacto da divulgação em massa desse queijo. Afinal, o destaque em programas de TV e sites de curiosidades muitas vezes desperta interesse em turistas e consumidores que não conhecem os riscos. Isso pode estimular o transporte clandestino e o comércio irregular em outros países, sem qualquer tipo de controle sanitário.
O Casu Marzu está à venda no Brasil? Quanto custa e quão disponível é?
No Brasil, o Casu Marzu não é reconhecido como produto regular pelas normas de inspeção federal, estadual ou municipal. A legislação brasileira segue princípios semelhantes aos europeus no que diz respeito à presença de insetos e parasitas em alimentos, o que torna a comercialização formal desse queijo praticamente inviável. Até 2026, não há registro público de importação regular do Casu Marzu para o mercado brasileiro.
Relatos pontuais indicam que alguns viajantes tentam trazer pequenas porções de forma informal, o que entra em conflito com regras de entrada de produtos de origem animal. Assim, pode-se dizer que a disponibilidade do Casu Marzu no Brasil é, na prática, inexistente em canais legais, limitando o acesso a quem viaja à Sardenha ou a quem participa de eventos privados em que o produto aparece de maneira não oficial.
Quanto ao preço, na própria Sardenha o Casu Marzu costuma ser mais caro do que queijos ovinos convencionais. Estimativas recentes apontam valores que podem variar de 80 a 200 euros por quilo, dependendo da raridade, da procura turística e da forma de aquisição (informal ou por encomenda). Em uma conversão aproximada, isso significa que, se fosse vendido legalmente no Brasil, poderia atingir valores muito altos, sobretudo por ser um produto artesanal, raro e sujeito a custos extras de transporte e risco.
Quais são os possíveis riscos do queijo Casu Marzu para a saúde?
Os riscos à saúde relacionados ao Casu Marzu são tema recorrente entre profissionais de medicina e vigilância sanitária. A ingestão de larvas vivas pode, em situações específicas, levar a quadros de mioses intestinais, quando os organismos sobrevivem ao ambiente gástrico e se desenvolvem no trato digestivo. Isso pode provocar dor abdominal, diarreia, náuseas e, em casos mais severos, necessidade de acompanhamento médico.
Além das larvas em si, o ambiente de maturação favorece o crescimento de bactérias patogênicas e outros microrganismos. O uso de leite cru, sem pasteurização, aumenta a possibilidade de contaminação por agentes como Salmonella, Escherichia coli e Listeria, entre outros. Pessoas com sistema imunológico comprometido, crianças, gestantes e idosos tendem a ser apontados como grupos particularmente vulneráveis.
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- Risco de infecções intestinais e diarreias graves.
- Possibilidade de mioses causadas por larvas sobreviventes.
- Exposição a bactérias presentes em leite cru e em ambiente pouco controlado.
- Maior impacto em pessoas com saúde fragilizada.
Por esses motivos, órgãos de saúde costumam desaconselhar o consumo do queijo, especialmente fora do contexto tradicional em que há alguma experiência empírica de manuseio e armazenamento. Mesmo na região de origem, o consumo tende a ser esporádico e restrito a pessoas familiarizadas com a prática, o que reforça a percepção de que se trata de um alimento de risco elevado e baixa escala, distante do padrão de queijos destinados ao grande público.