Encontrado em 1867 numa caverna de Devon, um pingente de 15 mil anos passou mais de um século identificado como dente de animal terrestre. Novas análises mostraram que veio de uma foca-cinzenta, foi perfurado para cordão e provavelmente percorreu mais de 100 quilômetros desde a antiga costa até Kents Cavern.
Como um pingente de 15 mil anos ficou mal identificado por tanto tempo?
O artefato foi retirado de Kents Cavern, em Devon, durante escavações de William Pengelly em 1867. O dente perfurado acabou classificado ao longo do tempo como pertencente a texugo, lobo ou outro carnívoro terrestre.
O problema só começou a ser resolvido quando pesquisadores compararam forma, raiz e desgaste com coleções modernas. A correspondência apareceu numa foca-cinzenta de cerca de 12 anos, permitindo reconhecer que o objeto vinha de mamífero marinho e não de um predador terrestre.

O que permitiu descobrir que o dente era de uma foca?
A análise descrita pela University College London usou microscopia de alta potência, digitalização 3D e microtomografia. Como a peça é rara e frágil, os métodos foram não destrutivos, evitando retirar amostras do dente.
As imagens mostraram que a raiz foi afinada e cuidadosamente perfurada. A identificação zoológica veio da comparação com dentes de mamíferos marinhos. O resultado revelou um pré-molar de foca-cinzenta, modificando mais de um século de classificação do artefato.
Por que os pesquisadores consideram a peça um pingente?
O Natural History Museum explica que o orifício apresenta desgaste compatível com cordão. A superfície está lisa e polida em grande parte, sinal de uso prolongado como ornamento suspenso, possivelmente no pescoço ou no braço.
O trabalho de perfuração também exigiu cuidado porque a raiz poderia se partir. Além de indicar habilidade, esse investimento sugere que o objeto tinha valor pessoal ou simbólico. Não é possível saber o significado exato, mas o desgaste mostra que ele não foi produzido e abandonado logo depois.
A seguir listamos quatro marcas físicas do pingente que ajudaram os pesquisadores a reconstruir sua fabricação e seu uso ao longo do tempo:
- Raiz afinada: a base do dente foi reduzida antes da perfuração.
- Furo: uma abertura cuidadosamente feita permitia passar um cordão.
- Desgaste: a parte superior do furo ficou alterada pelo atrito repetido.
- Polimento: a superfície lisa indica contato e manuseio por longo período.
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Como um dente de foca chegou tão longe do litoral?
Há cerca de 15 mil anos, o nível do mar era mais baixo e a linha costeira ficava muito mais distante da caverna. Os pesquisadores estimam que a costa poderia estar a mais de 100 quilômetros, tornando a presença de material marinho no interior especialmente significativa.
As possibilidades incluem viagem de longa distância, migração sazonal ou troca entre grupos. Nenhuma delas pode ser escolhida com certeza hoje. O pingente mostra movimento de pessoas ou objetos, mas não preserva o caminho específico usado para chegar até a caverna.
A seguir listamos quatro etapas conhecidas do pingente que resumem a trajetória desde o animal marinho até sua reidentificação moderna:
| Etapa | Evidência | O que revela |
|---|---|---|
| Origem | Dente de foca-cinzenta | Material marinho |
| Fabricação | Raiz perfurada | Uso como ornamento |
| Descoberta | Escavação de 1867 | Contexto arqueológico |
| Reanálise | Imagem 3D e comparação | Identificação correta |
Por que essa reidentificação muda tanto o valor do objeto?
Quando era tratado apenas como dente de carnívoro, o artefato parecia menos informativo sobre mobilidade. Saber que veio de uma foca acrescenta distância geográfica, conexão costeira e paralelos europeus, porque ornamentos semelhantes são conhecidos em sítios magdalenianos da França e da Espanha.
O pingente de 15 mil anos mostra como coleções antigas ainda podem mudar com novas técnicas. Encontrado em 1867, ele precisou de microscopia, imagens tridimensionais e comparação zoológica moderna para contar outra história, transformando um dente mal classificado em evidência de viagem, troca e identidade pessoal.
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