Existem poucos lugares no mundo onde a mesma terra sustenta ao mesmo tempo uma indústria de alta tecnologia e um destino de bem-estar centenário. Araxá, no Alto Paranaíba, a 367 km de Belo Horizonte, é um deles. O subsolo da cidade concentra a maior reserva de nióbio em operação do planeta, metal essencial para turbinas de avião e baterias de carros elétricos. Na superfície, as mesmas rochas dão origem a fontes termais radioativas e sulfurosas conhecidas desde o início do século XIX, quando a beleza da lendária Dona Beja era atribuída aos banhos nas águas locais.
Por que Araxá concentra 95% do nióbio do mundo?
A história começou em março de 1953, quando o geocientista Djalma Guimarães identificou nióbio no distrito do Barreiro, ao sul do centro urbano. Dois anos depois nasceu a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), que hoje fornece a maior parte do nióbio consumido no planeta. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), o Brasil detém cerca de 95% das reservas conhecidas do metal, e Minas Gerais abriga a maior fatia dessa concentração.
A reserva comprovada de Araxá chega a 527 milhões de toneladas de minério, número que coloca a cidade em uma posição geopolítica singular. O metal é usado em ligas de aço de alta resistência para aviões, foguetes, gasodutos e, mais recentemente, em baterias de veículos elétricos, fruto de parcerias com fabricantes japonesas e alemãs. A arrecadação gerada pela CBMM ajuda a financiar a infraestrutura urbana e explica por que Araxá tem indicadores acima da média entre municípios mineiros do mesmo porte.

Como surgiram as águas termais da cidade?
O Complexo do Barreiro, a poucos quilômetros do centro, guarda fontes termais conhecidas desde o início do século XIX. Segundo o Portal Minas Gerais, ligado à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo, as águas sulfurosas e radioativas da região sempre foram associadas a propriedades terapêuticas, atraindo visitantes desde o Brasil Império.
A figura mais famosa ligada a essas águas é Ana Jacinta de São José, a Dona Beja, que viveu entre 1800 e 1873 e atribuía sua beleza aos banhos na fonte que hoje leva seu nome. A lenda sobreviveu aos séculos e transformou as termas em um dos atrativos turísticos mais tradicionais de Minas Gerais, ao lado do centro termal de outra cidade mineira: a cidade que nasceu dentro de uma cratera e reúne 19 países em torno do queijo.

O que é o Grande Hotel Termas de Araxá?
Inaugurado em 1944 durante o governo de Getúlio Vargas, o Grande Hotel Termas de Araxá é um dos poucos hotéis-castelo neoclássicos do Brasil. Ocupa uma área de aproximadamente 400 mil m² com jardins assinados pelo paisagista Roberto Burle Marx, criador dos calçadões de Copacabana. O conjunto é tombado como Patrimônio Histórico de Minas pelo IEPHA-MG desde 1989.
Hoje o hotel abriga o maior complexo de spa termal do país, com banhos de lama negra sulfurosa medicinal, piscina emanatória e tratamentos de bem-estar. A arquitetura interna preserva salões originais dos anos 1940 e recebe hóspedes que buscam a mesma tradição de repouso que atraía a elite brasileira há oito décadas. O contraste entre o luxo do complexo e a rotina industrial da CBMM define a personalidade dupla da cidade.

Por que Araxá também é referência em queijo mineiro?
Além do nióbio e das termas, a cidade é uma das dez regiões produtoras oficiais do Queijo Minas Artesanal. Segundo o IEPHA-MG, os Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal foram reconhecidos pela UNESCO em dezembro de 2024 como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, tornando-se o primeiro bem brasileiro ligado à cultura alimentar a receber o título.
A região de Araxá tem Indicação Geográfica própria e produtores tradicionais que abrem as porteiras para visitantes. A trilogia formada por indústria de alta tecnologia, tradição termal e produção artesanal reconhecida internacionalmente é o que torna a cidade um caso raro no mapa mineiro, comparável em singularidade a Santa Rita do Sapucaí, o Vale do Silício brasileiro que nasceu de uma escola.
O que ver em Araxá além do complexo termal?
A cidade combina patrimônio histórico, arquitetura da era Vargas e natureza. Veja abaixo os pontos principais:
- Grande Hotel Termas de Araxá: hotel-castelo neoclássico com jardins de Burle Marx e o maior spa termal do país.
- Fonte Dona Beja: gruta artificial com água radioativa, tema de lenda local do século XIX.
- Complexo do Barreiro: conjunto de piscinas termais, trilhas e mirantes ao redor das fontes.
- Museu Histórico Calmon Barreto: acervo sobre a história do Alto Paranaíba e da cidade.
- Parque do Cristo: mirante panorâmico com vista da região.
- Sítios de queijo artesanal: propriedades rurais abertas à visitação para mostrar o processo de produção.
Quem quer conhecer as famosas águas termais de Araxá, vai curtir esse vídeo do canal Hotelier News, com mais de 25 mil visualizações, que entra no histórico Grande Hotel:
Como é o clima de Araxá ao longo do ano?
A altitude de 973 metros faz com que a cidade tenha invernos mais frios do que a maioria das cidades mineiras. Veja abaixo:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Araxá a partir de BH?
A cidade fica a 367 km de Belo Horizonte, com viagem de carro de aproximadamente 5 horas pela BR-262, passando por Nova Serrana e Bambuí. Também há voos regulares para o Aeroporto Romeu Zema, na cidade, com conexões via Confins. De São Paulo, o percurso rodoviário é de cerca de 620 km pela Rodovia Fernão Dias e BR-262.
A cidade dupla que sustenta uma equação rara
Araxá é o tipo de cidade que quase precisa ser explicada duas vezes. De um lado, uma mina que abastece a indústria aeroespacial mundial. Do outro, um hotel-castelo com águas que curaram tensões da elite brasileira por gerações. No meio, produtores artesanais de queijo com selo da UNESCO e uma serra que abriga tanto engenheiros de mineração quanto turistas em busca de banho de lama.
Você precisa visitar Araxá e sentir por que essa combinação improvável de alta tecnologia, luxo termal e tradição rural sustenta há décadas uma das cidades mais originais do interior de Minas.




