Na Serra da Capivara, pedras enterradas guardaram um registro inesperado: macacos-prego usam ferramentas naquele local há cerca de 3.000 anos. As escavações recuperaram 122 artefatos e mostraram mudanças no tamanho e no desgaste das pedras, sinais de que os alimentos processados também mudaram com o tempo.
Onde essas ferramentas de 3.000 anos foram encontradas?
O sítio fica no vale do Baixão da Pedra Furada, dentro do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí. Ali, grupos atuais de macacos-prego levam pedras para quebrar alimentos, deixando martelos, bigornas, resíduos e marcas de impacto.
As escavações no ponto chamado Caju BPF 2 chegaram a camadas com aproximadamente 3.000 a 2.400 anos. Como o comportamento continua observável na região, os arqueólogos puderam comparar pedras antigas, vestígios modernos e o ambiente em que os animais usam essas ferramentas.

Como os arqueólogos sabem que as pedras foram usadas por macacos?
A equipe recuperou 122 artefatos identificáveis, principalmente seixos de quartzito. Eles apresentam pontos de impacto, esmagamento, lascamentos e resíduos compatíveis com golpes repetidos. Além disso, os martelos são maiores que as pedras disponíveis naturalmente ao redor, sinal de seleção pelos animais.
O estudo Three thousand years of wild capuchin stone tool use, publicado na Nature Ecology & Evolution, combinou datação por radiocarbono e análise dos danos para organizar o conjunto em quatro fases cronológicas.
O que mudou na alimentação dos macacos-prego?
Nas camadas mais antigas, os martelos são menores e carregam muitos pontos de impacto. Os autores relacionam esse padrão ao processamento de alimentos pequenos e menos resistentes, porque golpes contra sementes ou itens menores tendem a atingir também a superfície que serve de apoio.
Em fases posteriores aparecem ferramentas maiores, associadas a alimentos mais duros. Hoje, os macacos da área quebram castanhas de caju, e pedras modernas podem conservar resíduos da fruta. O conjunto mostra que o uso da tecnologia mudou junto com o tipo de alimento processado
A seguir listamos quatro pontos centrais que ajudam a organizar as evidências desta etapa:
- Fase mais antiga: martelos menores sugerem o processamento de alimentos pequenos ou menos resistentes.
- Fases intermediárias: mudanças no tamanho das pedras mostram que as tarefas não permaneceram iguais.
- Alimentos duros: ferramentas maiores aparecem em períodos ligados a itens que exigiam golpes mais fortes.
- Caju atual: os macacos ainda usam pedras na região para quebrar castanhas, deixando resíduos observáveis.

Como as ferramentas mudaram entre as fases escavadas?
A sequência não mostra uma evolução em linha reta. Há momentos com martelos menores e mais leves, outros com peças maiores e mais pesadas, além de mudanças na quantidade de bigornas. Isso aponta para diferentes tarefas ao longo de centenas de gerações.
Os autores calculam cerca de 450 gerações de uso repetido, embora não necessariamente contínuo. A importância está justamente nessa variação: os animais não mantiveram um único padrão imutável por milênios, e o registro arqueológico preserva essas mudanças de comportamento.
A seguir listamos três comparações diretas que resumem os achados já explicados:
| Período | Ferramentas | Leitura provável |
|---|---|---|
| 3.000–2.400 anos | Menores e muito marcadas | Alimentos menores |
| Fases intermediárias | Tamanhos variados | Mudança de tarefas |
| Período recente | Conjunto ligado ao caju | Processamento de castanhas |
Por que esse achado importa para a arqueologia?
Durante muito tempo, uma sequência arqueológica de ferramentas foi vista principalmente como evidência de cultura material humana. O caso brasileiro mostra que outros primatas também podem deixar no solo um registro duradouro, com formas de uso que mudam ao longo de grandes intervalos de tempo.
Isso não torna as ferramentas dos macacos iguais às tecnologias humanas, mas amplia a comparação. A arqueologia de primatas ajuda a separar quais marcas surgem de golpes, seleção de pedras e alimentação, oferecendo novas referências para interpretar ferramentas muito antigas encontradas em outros contextos.
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