Nem toda cratera guarda apenas rocha. No Triângulo Mineiro, uma estrutura circular de 4,5 km de diâmetro concentra ao mesmo tempo o maior depósito conhecido de nióbio do mundo e fontes minerais usadas em tratamentos desde o século XIX. Sobre ela cresceu Araxá, cidade de pouco mais de 110 mil habitantes com renda por morador maior que a da capital mineira.
O que existe embaixo do Barreiro, a cratera que deu origem à cidade?
Embaixo do Barreiro, a cerca de 5 km do centro, está um complexo alcalino-carbonatítico, um antigo sistema magmático rico em carbonatos que subiu pela crosta e se resfriou sem chegar à superfície como um vulcão comum. Conforme o levantamento Recursos Minerais de Minas Gerais, da Codemge, a formação tem 4,5 km de diâmetro e se formou entre 77 e 97 milhões de anos atrás.
As águas minerais da região aparecem em registros do século XIX, mas o nióbio só foi identificado em 1953, pela equipe do geólogo Djalma Guimarães. Segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB), o depósito do Barreiro é o maior do planeta, com reserva estimada em 527 milhões de toneladas, e o país responde por cerca de 90% da produção global do metal, usado em ligas de aço mais leves e resistentes, supercondutores e equipamentos aeroespaciais.

Por que as fontes araxaenses são chamadas de radioativas?
A mesma química que gerou o minério deixou a água carregada. As duas fontes mais conhecidas do complexo têm perfis distintos: a Fonte Dona Beja, de água classificada como radioativa, e a Fonte Andrade Júnior, de água alcalino-sulfurosa, com o cheiro característico de enxofre que denuncia a origem profunda.
De acordo com o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG), todo o conjunto é tombado como Complexo Hidrotermal e Hoteleiro do Barreiro. As Termas são de 1944 e o Grande Hotel, de 1945, ambos com projeto coordenado pelo arquiteto Luiz Signorelli. Os jardins ao redor levam a assinatura de Roberto Burle Marx, e a Fonte Andrade Júnior, de 1947, foi criada por Francisco Bologna. É uma reunião de nomes que raramente aparece fora de capitais.

Quanto pesa a economia de um município de 110 mil habitantes?
Muito mais do que o tamanho sugere. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram um PIB por habitante de cerca de R$ 79 mil em 2023, acima dos R$ 56 mil registrados em Belo Horizonte no mesmo ano. Mineração, indústria química e turismo de saúde sustentam esse patamar, incomum para cidades desse porte no interior do país.
O reflexo social aparece nos rankings. Conforme a Prefeitura de Araxá, o município marcou 0,9922 no indicador de Emprego e Renda do Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), quase o teto de uma escala que vai até 1. A cidade também entrou entre os 100 melhores municípios do Ranking de Competitividade, do Centro de Liderança Pública. O padrão se repete em outros pontos do estado, como na cidade eleita a melhor do Brasil para envelhecer, onde a água mineral também virou marca registrada.

Onde ir além do complexo termal?
O centro histórico e os mirantes concentram o resto do roteiro, quase tudo a menos de 15 minutos de carro do Barreiro. Confira abaixo os pontos que costumam abrir a lista de quem chega:
- Termas de Araxá: banhos de lama negra, piscina emanatória de água mineral aquecida e tratamentos estéticos dentro do prédio tombado de 1944.
- Museu Histórico de Araxá Dona Beja: casarão do século XIX ligado a Ana Jacinta de São José, figura central da memória local.
- Museu Calmon Barreto e Memorial de Araxá: reúne 257 obras do artista araxaense e 1.406 objetos de personalidades da cidade, conforme a Prefeitura.
- Parque do Cristo: mirante gratuito com lunetas voltadas para o vale, pista de caminhada e vista aberta no fim de tarde.
- Mata da Cascatinha: trilha curta dentro do próprio complexo do Barreiro, com arvorismo e tirolesa.
- ExpoQueijo Brasil: realizada nos salões do Grande Hotel, a competição reuniu produtores de 19 países e teve um queijo brasileiro premiado com o Super Ouro, segundo a Prefeitura de Araxá.
Quem quer conhecer as águas termais de Araxá vai curtir este vídeo do canal Turismo de Minas, que passa pelo Grande Hotel, pelas termas e pelos sabores da cidade mineira.
Como é o clima de Araxá ao longo do ano?
A cidade está a quase mil metros de altitude, no cerrado de altitude que separa o verão úmido do inverno seco de forma bem marcada. Julho concentra pouca chuva, enquanto o período entre dezembro e fevereiro responde pela maior parte do volume anual. Veja abaixo como as estações se comportam em Araxá:
Médias aproximadas com base na climatologia do Climatempo. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada antes da viagem.
Como chegar ao Triângulo Mineiro por estrada ou por ar
De Belo Horizonte, são cerca de 370 km pela BR-262, no sentido oeste, com trecho final já entre as chapadas do Alto Paranaíba. Quem vem de São Paulo costuma seguir pela BR-050 e acessar a região por Uberaba.
Há ainda a opção aérea. O Aeroporto Romeu Zema fica a poucos quilômetros do centro e opera voos regionais, com ampliação de frequências para a capital mineira e para Guarulhos anunciada pela Prefeitura de Araxá.
Conheça a cidade que nasceu sobre uma cratera
Poucos lugares no Brasil conseguem juntar geologia rara, patrimônio tombado e economia forte no mesmo endereço. O magma que subiu há dezenas de milhões de anos deixou o metal que sustenta a indústria e a água que sustenta o turismo, e a cidade aprendeu a viver das duas heranças.
Você precisa subir até o Triângulo Mineiro e conhecer Araxá, onde um banho de lama negra e o maior depósito de nióbio do mundo dividem o mesmo pedaço de chão.




