Quase nenhum centro de tecnologia do mundo começou por uma sala de aula. No Sul de Minas Gerais, Santa Rita do Sapucaí inverteu a ordem: primeiro veio a escola técnica, depois vieram as fábricas montadas por seus próprios ex-alunos. O resultado é uma cidade de pouco mais de 40 mil habitantes que fabrica de componentes eletrônicos a soluções de inteligência artificial, aparece entre as cinco mais desenvolvidas do estado e ganhou o apelido de Vale da Eletrônica.
Como uma escola fundada em 1959 criou o Vale da Eletrônica
A história tem uma protagonista clara. Luzia Rennó Moreira, conhecida como Sinhá Moreira, viveu no Japão como esposa de embaixador e, segundo o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), assistiu na Europa a uma palestra de Albert Einstein em que ele apontava a eletrônica como o futuro. De volta ao interior mineiro, fundou em 1959 a Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa (ETE FMC), a primeira da América Latina.
Para isso, ela precisou convencer o presidente Juscelino Kubitschek a criar, por decreto, um curso técnico em eletrônica, que ainda não existia no país. Quando morreu, em 1963, deixou todo o patrimônio para a instituição. O Inatel veio em 1965 e a FAI depois, formando a base de mão de obra que faria as primeiras empresas nascerem dentro da própria cidade.

Quanto fatura hoje o Vale da Eletrônica
O apelido virou economia de verdade. Conforme a Agência Sebrae de Notícias Minas Gerais, dados do Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica (Sindvel) mostram faturamento de R$ 3,2 bilhões em 2023, com cerca de 150 empresas de base tecnológica, 50 startups e uma linha de produção que soma perto de 17 mil itens diferentes.
Coloque isso em escala: são bilhões movimentados por uma população menor que a de muitos bairros de Belo Horizonte. As empresas produzem componentes, softwares, equipamentos médicos, automação e sistemas de segurança digital, e a estrutura é reconhecida oficialmente como Arranjo Produtivo Local (APL) eletroeletrônico certificado pelo Governo de Minas Gerais. Em 2021, o município recebeu do governo estadual o certificado de Parque Tecnológico aberto, condição que amplia o acesso das empresas a linhas de fomento à pesquisa.
O que o ranking Firjan revela sobre a educação da cidade
O investimento em ensino aparece preto no branco nos indicadores. No Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), o município ficou em 5º lugar entre os 853 municípios mineiros, com nota 0,8248, à frente de cidades bem maiores como Divinópolis e Ipatinga.
O detalhe mais revelador está na abertura por área. A Firjan registra que, entre as dez cidades mais bem colocadas de Minas, apenas Santa Rita do Sapucaí alcançou grau alto de desenvolvimento em Educação. As demais ficaram no patamar moderado, incluindo vizinhas de peso como a cidade do Sul de Minas com emprego forte, saúde 24h e parque de Mata Atlântica.
O que ver na cidade além das fábricas
Entre montanhas da bacia do Rio Sapucaí, o município combina turismo técnico com paisagem de serra e tradição religiosa. Confira abaixo os principais atrativos listados pelo portal oficial de turismo do estado e pelo guia do município:
- Serra do Paredão: rampa procurada por praticantes de voo livre, com vista aberta sobre o vale, indicada pelo portal de turismo de Minas Gerais.
- Santuário Arquidiocesano de Santa Rita de Cássia: templo dedicado à padroeira, integrado aos roteiros de fé do Sul de Minas.
- ETE FMC: a escola que originou tudo abre visitas mediante agendamento prévio, na avenida que leva o nome de Sinhá Moreira.
- Mercado Municipal Benedito Pereira dos Reis: ponto de encontro no centro, com funcionamento de segunda a domingo.
- Parque Ecológico Municipal: unidade de conservação criada por lei municipal, com área verde preservada às portas da cidade.
- Festa de Santa Rita de Cássia: celebração de maio que mistura devoção, música e tradição popular na data magna do município.
Quem chega em outubro encontra ainda a Feira Industrial do Vale da Eletrônica (Fivel), promovida pelo Sindvel no campus da escola técnica, com entrada gratuita e produtos desenvolvidos e fabricados na própria cidade.
Quem quer conhecer a “Vale do Silício brasileiro” no sul de Minas, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Prefeitura Municipal de Santa Rita do Sapucaí, que conta com mais de 17 mil visualizações, onde a instituição mostra os atrativos, a inovação e o estilo de vida de Santa Rita do Sapucaí – MG:
Como o clima de Santa Rita do Sapucaí se comporta ao longo do ano
A altitude de pouco mais de 820 metros garante noites frescas mesmo no auge do calor, e a diferença entre as estações se nota principalmente no volume de chuva. O inverno é seco e limpo, enquanto o verão concentra as pancadas de fim de tarde. Veja abaixo como o clima se distribui ao longo do ano:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições mudam bastante de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada antes de viajar.
Como chegar a Santa Rita do Sapucaí
A cidade fica a cerca de 316 km em linha reta de Belo Horizonte, segundo a Prefeitura Municipal, e a pouco mais de 200 km da capital paulista. O acesso mais usado parte da Rodovia Fernão Dias (BR-381), com ligação por rodovias estaduais, e linhas rodoviárias regulares conectam o município às principais cidades do Sul de Minas.
A cidade que transformou sala de aula em cadeia produtiva
Poucos lugares no Brasil conseguem mostrar de forma tão direta o que a educação técnica faz com uma economia local. A escola de 1959 formou os engenheiros, os engenheiros abriram as empresas e as empresas passaram a financiar novas escolas, num ciclo que sustenta bilhões em faturamento num território de dimensões modestas.
Você precisa conhecer Santa Rita do Sapucaí e ver de perto a cidade onde o crachá de fábrica e o caderno de aula contam a mesma história.




