No dia da mudança, antes mesmo de tirar as caixas do carro, Marina, professora de 34 anos, caminhou pelo apartamento vazio com o celular na mão, fotografando cada cômodo. Registrou o rodapé descascado da sala, uma mancha de umidade discreta perto da janela do quarto e o registro de gás, sempre com o número marcado no visor do medidor.
O locador tinha entregue as chaves rapidamente, sem muito tempo para conversa, e o termo de vistoria assinado logo em seguida parecia um documento genérico, com campos como “bom estado” preenchidos de forma padrão. Ela achou estranho que um imóvel já usado por outros inquilinos antes não tivesse nenhum detalhe específico anotado ali.
Passaram-se dois anos morando naquele apartamento, com pequenos reparos feitos por conta própria — troca de uma torneira, pintura de um dos quartos — sempre fotografados antes e depois, por um hábito que já tinha virado rotina. Quando decidiu se mudar novamente, chamou o locador para a vistoria de saída, tranquila quanto ao que tinha documentado ao longo do tempo.
A surpresa veio justamente na vistoria de saída: o locador apontou a mancha de umidade perto da janela como se fosse dano causado por ela, e cobrou o reparo do rodapé como se ele estivesse em perfeito estado no dia da entrada. Foi o registro fotográfico do primeiro dia, com data automática do celular, que evitou uma cobrança sobre problemas que já existiam antes mesmo de ela se mudar para o imóvel.
Registrar o estado do imóvel logo na entrega das chaves é um gesto simples que, meses ou anos depois, pode ser o que separa uma vistoria de saída tranquila de uma cobrança sem fundamento sobre reparos que já existiam antes mesmo da mudança.
Por que o contrato assinado ainda define o que pode ser cobrado

A Lei do Inquilinato trata da locação urbana de forma ampla, incluindo temas como benfeitorias, garantias contratuais e a devolução do imóvel ao fim do contrato. As regras específicas sobre reparos e responsabilidades variam conforme o que foi efetivamente combinado no contrato assinado entre locador e inquilino. O texto completo está disponível na Lei do Inquilinato.
Por que a vistoria de entrada é o documento mais importante do contrato
A vistoria de entrada funciona como a base de comparação para a vistoria de saída: é ela que define, formalmente, o que já existia no imóvel antes de o inquilino ocupá-lo. Registrar o estado de paredes, pisos, instalações e a leitura dos medidores logo na entrega das chaves evita disputas sobre o que era desgaste anterior e o que teria surgido durante a locação. O Código Civil também trata de questões gerais sobre posse e benfeitorias que podem ser relevantes nesse tipo de situação, disponível no texto compilado do Código Civil.
Por que fotos com data automática têm mais peso do que a memória
Depois de um ou dois anos morando no mesmo lugar, é natural que os detalhes do dia da entrada se percam — qual mancha já existia, qual parte do piso já estava desgastada, se determinada tomada já não funcionava direito. Fotos com data e horário registrados automaticamente pelo celular funcionam como um ponto fixo nessa memória, difícil de contestar depois. Isso não substitui o termo de vistoria assinado por locador e inquilino, mas funciona como reforço quando o termo é genérico demais ou quando alguma avaria não foi descrita com detalhe suficiente no documento formal.
O passo a passo para registrar o estado do imóvel na entrega das chaves
- Estado de paredes, pisos, portas e janelas, com fotos datadas de cada cômodo
- Leitura dos medidores de água, luz e gás no momento da entrega das chaves
- Funcionamento de tomadas, torneiras, descarga e chuveiro
- Quantidade e estado das chaves recebidas do locador ou da imobiliária
- Eventuais avarias já existentes, mesmo pequenas, descritas por escrito no termo de vistoria
- Assinatura de ambas as partes no termo, com data e cópia entregue ao inquilino
Como agir quando a vistoria de saída gera divergência

O primeiro passo diante de uma cobrança contestada na saída é confrontar a alegação com a documentação da vistoria de entrada, incluindo fotos e o termo assinado na época. Se locador e inquilino não chegarem a um acordo, a orientação jurídica individual ou a mediação costumam ser os caminhos mais indicados, já que a lei estabelece critérios gerais, mas a aplicação depende diretamente do que ficou combinado no contrato específico. Regras recentes envolvendo obrigações de pagamento na locação também já foram tratadas em outra reportagem sobre mudanças nas regras de pagamento do aluguel.
Por que nem toda divergência se resolve só com fotos
Cláusulas específicas do contrato, o tipo de garantia locatícia contratada e o desgaste natural esperado para cada tipo de imóvel são analisados caso a caso, e nem toda divergência se resolve apenas com fotos. Este texto não substitui a orientação jurídica sobre um contrato específico nem a análise de um profissional diante de uma disputa concreta entre locador e inquilino.
Uma história como esta, embora hipotética, mostra o que fazer quando um imóvel será entregue ou recebido para locação: registrar estado, medidores, chaves e defeitos, e anexar tudo à vistoria assinada. Cada contrato tem particularidades, por isso casos individuais devem ser avaliados com a fonte oficial ou o profissional adequado.




