Cartaz no elevador, aviso no grupo de mensagens, comentário animado na portaria: a notícia de que o prédio finalmente ia instalar medidores individuais de água correu rápido, e Priscila, atendente de 38 anos, foi uma das que mais comemorou. Morava com o companheiro havia 4 anos no mesmo apartamento e sempre reclamava de pagar, no rateio antigo, uma parte que parecia desproporcional ao consumo dos 2.
Quando a 1ª fatura individualizada chegou, ela abriu o aplicativo do banco animada para comparar com a média que pagava antes, dividida entre todos os apartamentos do prédio. O valor, porém, veio bem mais alto do que o esperado para uma casa de apenas 2 pessoas, quase o dobro do que ela imaginava pagar sozinha. Priscila decidiu não se alarmar de imediato: talvez fosse só o ajuste natural do 1º mês, pensou, e resolveu esperar a fatura seguinte para tirar conclusões, sem entrar em contato com ninguém.
No mês seguinte, o valor continuou alto, quase no mesmo patamar do anterior. Ela passou a anotar o consumo diário num caderno na cozinha, reduziu o tempo de banho, trocou o registro da caixa d’água e até revisou se havia algum vazamento visível nos encanamentos do apartamento. Ainda assim a conta não baixava na proporção que fazia sentido para a rotina de 2 pessoas que trabalhavam fora o dia inteiro. Passaram-se quase 3 meses nesse ajuste de hábitos, sem nenhuma explicação que batesse com o esforço que estava fazendo, e ela já cogitava chamar um encanador por conta própria para procurar um vazamento escondido.
Foi só quando desceu até o hidrômetro para conferir pessoalmente que Priscila notou o detalhe que tinha escapado de todo mundo: o número gravado no medidor da sua unidade não era o mesmo número que aparecia na fatura em nome dela. A leitura, ao que tudo indicava, estava vindo de outro apartamento.
O número do medidor que ninguém tinha conferido

A troca de um sistema de rateio para medição individual cria um novo ponto possível de falha: a associação entre o número de série do equipamento instalado e a unidade correspondente na base de cobrança. Esse tipo de erro de cadastro costuma passar despercebido justamente porque o morador confia que o valor mais alto ou mais baixo é só uma questão de consumo, e não de identificação equivocada do próprio medidor. Em prédios com muitas unidades, a instalação de dezenas de medidores em poucos dias aumenta a chance de uma troca de cadastro passar despercebida, especialmente quando 2 apartamentos ficam em posições próximas no mesmo pavimento.
Como pedir a vistoria sem esperar a fatura seguinte
Antes de gastar tempo ajustando hábitos que talvez nem sejam o problema, alguns passos simples ajudam a checar se a leitura corresponde de fato à unidade:
- Anotar o número de série gravado no próprio medidor, na porta do hidrômetro.
- Comparar esse número com o que aparece registrado na fatura ou no sistema da administradora.
- Solicitar por escrito uma vistoria caso os números não coincidam, sem esperar a fatura seguinte para agir.
- Guardar as leituras anteriores, com data, para embasar o pedido de revisão.
Foi exatamente esse tipo de registro que Priscila passou a fazer depois de descobrir a divergência, anotando o número do medidor e as leituras de cada mês antes de formalizar a reclamação.
O que a administradora e a concessionária respondem por partes diferentes

A administradora do condomínio costuma ser responsável pelo cadastro que associa cada medidor a uma unidade, enquanto a concessionária de água trata da leitura e da cobrança propriamente dita — e o erro pode estar em qualquer uma dessas etapas. O Código Civil trata da relação entre condôminos e da administração do prédio, mas a forma de instalar e cadastrar medidores individuais costuma seguir regras próprias definidas pela concessionária local, e pode haver diferenças no processo de um condomínio para outro. Priscila levou o caso primeiro à administradora, que revisou a planta de instalação e confirmou, em resposta por escrito, que o medidor da unidade vizinha realmente tinha sido cadastrado com o número trocado desde a instalação inicial. Quando a divergência não se resolve diretamente com a administradora, o caminho seguinte é registrar reclamação formal no Consumidor.gov.br. O tema da instalação de medidores individuais em condomínios também foi tratado em outra reportagem sobre a obrigatoriedade de medição individual de água.
Depois de corrigido o cadastro, as faturas seguintes voltaram a refletir o consumo real do apartamento de Priscila, num valor bem mais próximo daquilo que ela e o companheiro esperavam para 2 pessoas. O episódio todo, do estranhamento à correção, levou pouco mais de 3 meses, boa parte deles gasta tentando reduzir um consumo que, na verdade, nunca tinha sido tão alto assim.
Uma história como esta, embora hipotética, mostra o que fazer quando a conta de água individualizada não bate com o consumo esperado da unidade: conferir o número do medidor antes de qualquer outra hipótese, pedir vistoria por escrito e guardar as leituras com data. Casos individuais dependem do processo específico adotado pela administradora e pela concessionária local, e por isso vale confirmar as regras aplicadas naquele condomínio.




