Há cidades pequenas que carregam um peso gigante na economia do país sem que a maioria perceba. No centro de Minas Gerais, ao pé de uma serra tombada, a silhueta de dois altos-fornos divide o horizonte com a torre de uma igreja barroca do século XVIII. Ouro Branco, cidade de cerca de 40 mil habitantes, abriga a maior usina siderúrgica da Gerdau no mundo e ajuda a abastecer o Brasil com milhões de toneladas de aço todos os anos.
Por que uma cidade pequena produz tanto aço do país?
A resposta está numa usina de porte mundial encravada no interior mineiro. Segundo a Gerdau, a Usina Presidente Artur Bernardes, em Ouro Branco, é a maior unidade produtora de aço da empresa no planeta e responde por mais de 10% de todo o aço produzido no Brasil, com capacidade instalada de 4,5 milhões de toneladas por ano.
A escala impressiona: desde a inauguração, em 1986, a planta já produziu mais de 110 milhões de toneladas de aço bruto, e cerca de 10 mil pessoas circulam diariamente por seus 10 milhões de metros quadrados, entre funcionários próprios e terceirizados. Para dimensionar essa força, a unidade sozinha movimenta mais aço do que a produção anual inteira de muitos países, alimentando setores como construção civil, automotivo, naval e energia.

Como o vale ao pé da serra virou um gigante do aço?
A virada industrial começou por decisão do governo federal. Nos anos 1970, o vale ao pé da Serra de Ouro Branco foi escolhido para receber a estatal Aço Minas Gerais (Açominas), que iniciou a produção em 1986. Em 1997, a Gerdau adquiriu a unidade e a transformou no principal ativo do grupo, expandindo o complexo ao longo das décadas seguintes.
Os investimentos seguem firmes. Segundo a Invest Minas, agência de desenvolvimento do estado, a usina recebeu em 2025 um aporte de R$ 1,5 bilhão para ampliar a produção de bobinas a quente, parte de um plano de R$ 6 bilhões da empresa em Minas Gerais. Esse ciclo do aço é apenas o mais recente de uma cidade que já viveu o ciclo do ouro, o da uva e o da batata, sempre se reinventando.
O que a qualidade de vida da cidade tem de diferente?
A força industrial se traduz em indicadores acima da média. O Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), elaborado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, acompanha desde 2008 o desenvolvimento socioeconômico de todos os municípios do país em emprego e renda, educação e saúde. Em edições passadas do estudo, Ouro Branco chegou a figurar entre as primeiras posições de Minas Gerais, resultado puxado pela renda gerada em torno da siderurgia.
O reflexo econômico aparece em dados recentes. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade registrou PIB per capita superior a R$ 111 mil em 2023, mais que o dobro da média nacional, e escolarização de crianças de 6 a 14 anos próxima de 100%. A presença da Gerdau soma-se ao campus da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) e a uma unidade do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), reforçando a oferta de educação e mão de obra qualificada, num perfil de crescimento parecido com o de outras cidades mineiras que atraem famílias pela qualidade de vida.

De onde vem o nome curioso de Ouro Branco?
O nome nasceu de uma decepção que acabou fundando duas cidades. Segundo o Portal Ouro Branco, ex-integrantes da bandeira de Borba Gato chegaram à região no fim do século XVII em busca de ouro. O bandeirante Miguel Garcia encontrou ali um ouro de coloração esbranquiçada, tom dado pela presença de paládio, e batizou o lugar de “ouro branco”.
A quantidade abaixo do esperado gerou um desentendimento entre os exploradores. Enquanto Miguel Garcia ficou nas terras que hoje formam a cidade, seu companheiro seguiu adiante e encontrou o metal de cor escura que deu origem a Ouro Preto. Em 1724, o arraial foi elevado à categoria de freguesia, tornando-se uma das povoações mais antigas de Minas Gerais.
O que a serra e o barroco guardam além das chaminés?
Ouro Branco reúne indústria pesada e patrimônio raro em poucos quilômetros. A Serra de Ouro Branco, tombada em 1978 pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG), é considerada o marco inicial sul da Cadeia do Espinhaço, reconhecida pela UNESCO como Reserva da Biosfera, e abriga o Parque Estadual da Serra do Ouro Branco, com campos rupestres e sempre-vivas.
No conjunto histórico, a Igreja Matriz de Santo Antônio, do século XVIII, guarda elementos do barroco mineiro com obras atribuídas ao mestre Aleijadinho. A cidade preserva ainda a Casa de Tiradentes, imóvel ligado às reuniões dos inconfidentes, e mirantes como o da serra, a mais de 1.500 metros de altitude, com vista para Ouro Branco, Congonhas e Conselheiro Lafaiete.
Quem quer conhecer uma cidade histórica cercada por montanhas em Minas Gerais, vai curtir esse vídeo do canal De fora em Juiz de Fora, com mais de 79 mil visualizações, que explora Ouro Branco:
Como é o clima de Ouro Branco ao longo do ano?
O clima é tropical de altitude, com inverno seco e ameno e verão chuvoso, típico da serra mineira. Confira abaixo o comportamento do tempo por estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à cidade do aço no centro de Minas?
Ouro Branco fica a cerca de 100 km de Belo Horizonte, com acesso pela BR-040 sentido Rio de Janeiro e entrada pela MG-443 até o centro. A viagem leva cerca de uma hora e meia de carro. A localização estratégica, na antiga rota da Estrada Real, coloca a cidade a curta distância de outros destinos históricos como Congonhas e Ouro Preto.
A cidade onde o barroco e o aço dividem o mesmo horizonte
Ouro Branco reúne uma combinação difícil de encontrar em qualquer lugar do país: um parque siderúrgico de porte mundial, uma igreja setecentista com traços de Aleijadinho e o marco sul de uma cadeia de montanhas reconhecida pela UNESCO. Poucos municípios conseguem juntar tanta história colonial, natureza preservada e indústria de ponta em tão poucos quilômetros.
Você precisa conhecer Ouro Branco e subir a serra para entender como uma cidade pequena consegue abastecer o Brasil de aço sem abrir mão do seu passado barroco e das montanhas que a cercam.




