Há paisagens que somem sem que ninguém as veja partir, engolidas aos poucos por décadas de trabalho. No coração do Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, uma cidade viu uma montanha inteira desaparecer do horizonte. Itabira assistiu o Pico do Cauê, que brilhava a 1.385 metros de altitude, virar cratera, deu origem a uma das maiores mineradoras do mundo e ainda foi o berço de Carlos Drummond de Andrade, o poeta que melhor escreveu sobre essa perda.
Por que uma montanha de 1.385 metros simplesmente sumiu do mapa?
A resposta está no próprio nome da cidade. Itabira vem do tupi e significa “pedra que brilha”, e o brilho era literal: o minério de ferro exposto nas encostas refletia a luz do sol e atraiu os primeiros exploradores ainda no período colonial. O Pico do Cauê, com seu tom azulado, servia de referência para viajantes que cruzavam a região.
A extração industrial começou em 1911, quando a inglesa Itabira Iron Ore Company obteve a concessão das jazidas. Em 1942, durante a Segunda Guerra, o presidente Getúlio Vargas nacionalizou as minas e criou a Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, conforme registra o Espaço Memória da Vale. Segundo a Biblioteca do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi aos pés do Pico do Cauê que se ergueu a vila que deu origem à cidade, sobre uma das maiores jazidas de minério de ferro do mundo. Décadas depois, no início dos anos 1980, o pico simplesmente não existia mais.

Como a cratera virou símbolo na bandeira do município?
O que sobrou da montanha entrou para a identidade oficial da cidade. No lugar da serra restou uma cratera profunda, hoje estampada na própria bandeira do município, ao mesmo tempo símbolo de orgulho pelo progresso e de luto pela paisagem perdida. As minas a céu aberto circundam a área urbana, e as cicatrizes na paisagem são visíveis de quase qualquer mirante.
Essa relação ambígua com o ferro marca a cidade até hoje. A Vale gera empregos e arrecadação, mas a extração deixou marcas duras no território. Desde 2011, a mineradora conduz um projeto de revegetação na área do antigo Pico do Cauê, licenciado pelos órgãos ambientais, numa tentativa de devolver algum verde ao vazio deixado pela montanha.

O que Drummond escreveu sobre a montanha perdida?
Poucos lugares tiveram sua transformação narrada por um poeta do porte de Carlos Drummond de Andrade. Nascido em Itabira em 1902, ele passou ali os primeiros anos de vida e enxergava o Cauê da janela de casa. Em 1973, publicou o poema “A Montanha Pulverizada”, que trata justamente do desaparecimento da serra, e em outros versos consagrados fez da cidade natal um tema recorrente de saudade e perda.
Crítico declarado da mineração predatória, Drummond chegou a fazer campanha contra a exploração nos anos 1950, uma postura que parte dos itabiranos da época interpretou como traição. O tempo transformou essa tensão em legado: a cidade que ele criticou hoje o celebra como seu maior filho, ostenta o título de Capital Nacional da Poesia e transformou sua obra em roteiro turístico oficial.
Como a cidade transformou a poesia em roteiro a céu aberto?
A memória do poeta virou um museu espalhado pelas ruas. Segundo o portal de turismo da Prefeitura de Itabira, o Museu de Território Caminhos Drummondianos, criado em 1997, é um percurso de cerca de 7 km com 44 placas de ferro fundido, cada uma trazendo um verso ligado ao lugar onde está instalada. Jovens do projeto Drummonzinhos acompanham os visitantes e declamam os poemas ao longo do caminho.
O conjunto cultural se completa com o Memorial Carlos Drummond de Andrade, projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1998 na encosta do Pico do Amor, que guarda primeiras edições e correspondências do poeta. O acervo é gerido pela Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), instituída em 1985 e mantida por recursos municipais, responsável por preservar e difundir a obra do escritor itabirano. Não por acaso, a terra de Drummond atrai cada vez mais moradores em busca de calma, movimento parecido com o de outras cidades mineiras procuradas por quem quer viver com tranquilidade.

O que o ferro não alcançou na paisagem de Itabira?
Nem tudo virou mina na região. Parte do território de Itabira está dentro da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, reconhecida pela UNESCO em 2005 no âmbito do programa O Homem e a Biosfera, que protege áreas de Mata Atlântica e Cerrado e importantes nascentes dos rios São Francisco, Doce e Jequitinhonha.
Longe das crateras, o distrito de Ipoema, a cerca de 42 km do centro, reúne dezenas de cachoeiras catalogadas e é cortado pela histórica Estrada Real. Há ainda o Parque Estadual Mata do Limoeiro, com mais de 2 mil hectares de floresta preservada voltados ao ecoturismo, provando que a mesma serra que deu o ferro também guardou refúgios de natureza intacta.
Quem tem curiosidade sobre a terra de Carlos Drummond de Andrade, vai curtir esse vídeo do canal Naeco, com mais de 12 mil visualizações, que apresenta a história e os lugares de Itabira:
Como é o clima na terra de Drummond ao longo do ano?
O clima é tropical de altitude, com inverno seco e ameno e verão quente e chuvoso, o que define a melhor época para cada tipo de passeio. Confira abaixo o comportamento do tempo por estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Uma montanha que virou cratera e depois virou poesia
Itabira carrega um legado que poucas cidades no mundo poderiam ostentar: a força do ferro que ajudou a construir o país e a delicadeza dos versos mais lidos da literatura brasileira. Onde antes se erguia uma montanha, restou uma cratera na bandeira e uma obra inteira dedicada a lembrar o que se perdeu.
Talvez seja essa a lição mais dura e mais bonita que a cidade oferece: o progresso apagou um pico do horizonte, mas não conseguiu apagar a memória, que sobrevive gravada em placas de ferro pelas ruas onde um menino um dia olhou para a serra e a transformou em palavra.




