Uma estrada em área alagável precisa aceitar que a paisagem muda mais depressa do que o asfalto conseguiria impor. A Rodovia Transpantaneira, trecho da MT-060 entre Poconé e Porto Jofre, cruza campos, corixos e baías sobre dezenas de pontes. No fim do caminho, os rios do Pantanal Norte sustentam um turismo sazonal de observação de fauna.
Como a Rodovia Transpantaneira atravessa uma planície que alaga?

A Transpantaneira avança elevada sobre aterros e usa sucessivas pontes para deixar a água circular entre os dois lados da pista. A Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística de Mato Grosso (Sinfra-MT) registra 147 km de extensão na rodovia e documenta a substituição gradual de estruturas antigas por pontes de concreto e aço.
A pista sem pavimentação no trecho pantaneiro não é mero detalhe rústico. Ela acompanha uma região submetida ao pulso anual das águas, no qual áreas secas podem virar banhados e canais. Pontes, bueiros e aterros precisam permitir o escoamento sem cortar completamente essa conexão. Por isso, a estrada parece uma linha estreita costurada sobre a planície.
Quantas pontes ainda existem no caminho até Porto Jofre?
O número exato muda conforme obras substituem pontes de madeira, constroem estruturas permanentes ou instalam bueiros. Em 2020, a Sinfra-MT contabilizava 120 pontes, das quais 83 eram de madeira, e anunciava novas substituições. A atualização de 2024 informou que 36 pontes de madeira já haviam sido trocadas por concreto, conforme a Sinfra-MT.
Esses registros confirmam a travessia sobre dezenas de pontes, mas não autorizam repetir como atual o antigo total de 120. A própria transformação faz parte da história: a imagem clássica das pequenas pontes de madeira convive hoje com obras mais resistentes ao fogo, às chuvas e ao tráfego.
Por que a fauna aparece tão perto da MT-060?

A rodovia corta uma sequência de ambientes com água rasa, vegetação aberta, matas e margens de rios, todos usados por animais para alimentação e deslocamento. A estrada também concentra observadores em uma faixa acessível da planície. É comum procurar aves, jacarés, capivaras, cervos-do-pantanal e outros animais, mas nenhuma espécie deve ser tratada como encontro garantido.
O Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, situado na região alcançada a partir de Porto Jofre, protege espécies ameaçadas como onça-pintada, ariranha, tamanduá-bandeira, tatu-canastra e cervo-do-pantanal. A presença confirmada desses animais explica o interesse ecológico, não uma promessa de fotografia em cada viagem.
O que acontece quando a Transpantaneira chega a Porto Jofre?
Porto Jofre marca o fim rodoviário da rota, junto ao rio Cuiabá. A partir dali, barcos assumem o deslocamento por rios e corixos. Um estudo técnico do ICMBio sobre o Mosaico de Unidades de Conservação do Pantanal Norte descreve a mudança do turismo local, antes concentrado na pesca e depois ampliado pela observação de onças-pintadas.
A atividade é mais intensa na seca, quando praias e barrancas ficam expostas e os barcos percorrem áreas usadas pela fauna. Mesmo nessa época, o avistamento depende de comportamento animal, nível dos rios, distância e acaso. O atrativo real é o conjunto: a viagem terrestre prepara o olhar, e a navegação revela uma paisagem que não pode ser alcançada apenas de carro.
Quando viajar e quais cuidados tomar na estrada?
A seca costuma facilitar a circulação e a observação em áreas abertas, enquanto as chuvas podem alterar rapidamente pista, pontes e acessos. Antes de sair, é prudente consultar as condições atualizadas da MT-060, abastecer em Poconé, levar água e planejar combustível, hospedagem e retorno. A recuperação de 73,2 km anunciada em 2024 pelo Governo de Mato Grosso não elimina variações sazonais.
A viagem também pede direção lenta. Animais podem cruzar a pista, pontes estreitam a passagem e poeira reduz a visibilidade. Parar somente onde houver espaço seguro protege ocupantes, moradores e fauna. Para passeios fluviais, operadores locais e guias habilitados ajudam a manter distância adequada dos animais e a evitar perseguições em busca de uma imagem.
Também convém separar observação de fauna de espetáculo controlado. Capivaras, jacarés, cervos e aves aparecem em ambientes abertos, mas mudam de posição conforme água, alimento, calor e presença humana. Alimentar animais ou cercá-los com veículos altera seu comportamento e aumenta riscos. Binóculos e uma espera silenciosa oferecem uma leitura mais fiel do Pantanal do que a tentativa de forçar aproximações.
Uma estrada moldada pela água
A Transpantaneira não vence o Pantanal como uma obra isolada da paisagem. Ela negocia passagem com a água, sobe sobre aterros, atravessa pontes e chega a um porto onde o automóvel deixa de ser suficiente.
Você precisa percorrer a MT-060 sem transformar a onça em promessa. A força da rota está em observar como estrada, cheia, fauna e comunidades compartilham uma planície que muda de ritmo a cada estação.



