Até uma ladeira precisa de regras claras para ser comparada com outra. Em Dunedin, na Nova Zelândia, a Baldwin Street passou mais de uma década reconhecida como a rua mais íngreme do mundo, perdeu o título para uma concorrente do País de Gales em 2019 e o recuperou no ano seguinte, quando uma revisão mudou o ponto exato da medição.
Quando a Baldwin Street perdeu o recorde mundial?

A Baldwin Street perdeu o título em junho de 2019, quando o Guinness World Records reconheceu a Ffordd Pen Llech, em Harlech, no País de Gales. A via neozelandesa havia mantido o recorde por mais de uma década, e a troca parecia encerrar uma disputa baseada apenas em qual trecho apresentava a maior inclinação.
Representantes de Dunedin contestaram o resultado com um levantamento comparativo das formas tridimensionais das duas ruas. O recurso não dizia que a medição galesa havia sido feita de modo descuidado. Ele apontava uma lacuna no regulamento: escolher lados diferentes de uma curva podia produzir gradientes que não representavam o caminho efetivamente percorrido pelo centro da rua.
Por que medir pela lateral mudou o resultado?
Numa rua que faz curva, a borda interna percorre uma distância horizontal menor do que a linha central enquanto vence quase o mesmo desnível. Como gradiente é a razão entre subida vertical e avanço horizontal, medir pelo lado mais curto pode inflar o resultado. Foi esse efeito geométrico que tornou a metodologia tão importante na disputa.
Depois de consultar especialistas, o Guinness World Records determinou que o gradiente deve ser medido pela linha central da rua. O critério passou a valer para todas as candidatas. Assim, o recorde deixou de depender da escolha conveniente de uma borda e ganhou uma referência comparável.
Qual é a inclinação confirmada da Baldwin Street?
A nova análise confirmou um gradiente máximo de 34,8% para Baldwin Street, contra 28,6% para Ffordd Pen Llech. Isso significa que, no trecho mais inclinado, a rua neozelandesa sobe 34,8 metros a cada 100 metros avançados na horizontal. Convertido para ângulo, o valor corresponde a aproximadamente 19,2 graus.
Percentual e grau não são a mesma medida, uma confusão comum em descrições de ladeiras. Uma inclinação de 100% representa 45 graus, não uma parede vertical. Na Baldwin Street, a fotografia frontal também comprime a distância e pode fazer a subida parecer ainda mais abrupta, mas o recorde depende do levantamento topográfico, não da aparência da imagem.
Como a rua recuperou oficialmente o título em 2020?
O recorde voltou à Nova Zelândia em 8 de abril de 2020, após uma revisão extensa do recurso liderado pelo topógrafo Toby Stoff. O Guinness aceitou a medição pela linha central e atualizou suas diretrizes para permitir levantamentos fornecidos por profissionais locais, nacionais ou internacionais qualificados.
A decisão também esclareceu o que conta como via pública para a categoria. Uma rua pode terminar conectada a outras vias, pois essas conexões são consideradas destinos válidos. O episódio tornou uma pequena rua residencial protagonista de uma discussão técnica internacional: não bastava encontrar o maior número, era preciso garantir que candidatos diferentes fossem medidos da mesma forma.
Quanto esforço exige subir a Baldwin Street a pé?

A subida tem cerca de 350 metros e costuma levar aproximadamente dez minutos a pé, de acordo com o portal oficial de turismo DunedinNZ. Uma fonte de água no alto recebe quem conclui o percurso. O tempo varia bastante com preparo físico, ritmo e paradas para observar a inclinação.
A rua está no bairro de North East Valley, na encosta do Signal Hill, e continua sendo endereço de moradores. Visitantes devem caminhar pelas áreas destinadas a pedestres, não bloquear garagens nem parar no meio da pista para fotografar. Calçados com aderência ajudam tanto na subida quanto na descida, quando a gravidade muda o esforço para os joelhos e exige passos controlados.
Fotografias feitas com a câmera inclinada podem exagerar ou esconder a ladeira, por isso imagens da Baldwin Street parecem discordar entre si. Uma referência vertical, como poste ou parede, ajuda a perceber a inclinação real. No local, o corpo funciona como outro instrumento: a passada encurta, a panturrilha trabalha mais e permanecer parado exige ajustar o equilíbrio.
Uma disputa decidida no centro da rua
A Baldwin Street recuperou o recorde porque a discussão saiu do campo da impressão e entrou no da geometria. Quando a linha de referência foi padronizada, a ladeira neozelandesa apresentou o maior gradiente sob a mesma regra aplicada à concorrente galesa.
O detalhe que decidiu o título é menor do que a rua e maior do que a rivalidade. Medir pelo centro mostrou que recordes geográficos não dependem apenas de paisagens extremas, mas também de perguntas precisas sobre onde começa uma comparação justa.
Sua história pode virar reportagem
Conte por texto ou áudio — nomes e endereços viram fictícios antes de qualquer publicação.




