A 110 km de Florianópolis e a 8 km do Beto Carrero World, existe uma cidade que decidiu competir por um critério que ninguém mais tinha ousado tentar. Enquanto vizinhas do litoral catarinense se enchiam de prédios, Balneário Piçarras foi atrás de um certificado europeu que mede qualidade da água, segurança e educação ambiental. Em 2025, conseguiu algo inédito no país: aprovar a orla inteira. Só que o mar tem opinião própria, e a história da cidade com a areia é bem mais antiga.
O que é a Bandeira Azul e por que Piçarras entrou para a história
O selo é concedido pela Foundation for Environmental Education (FEE) a praias, marinas e embarcações que cumprem dezenas de critérios anuais: balneabilidade, gestão ambiental, acessibilidade, segurança e atividades de educação ambiental durante toda a temporada.
Balneário Piçarras recebe a certificação desde 2018, quando a Praia de Piçarras passou. Depois vieram a Ponta do Jacques, em 2023, a Praia Central, em 2024, e a Barra do Rio Piçarras, na temporada 2025/2026. Com isso, os 6,7 km de orla, divididos em quatro trechos, ficaram inteiramente certificados. Foi a oitava temporada consecutiva do município no programa e o primeiro caso brasileiro de 100% de cobertura.
Vale saber antes de viajar: em março de 2026, a prefeitura retirou preventivamente as bandeiras de três praias por causa de obras na faixa de areia. Em julho de 2026, as quatro candidaturas foram recomendadas pelo júri nacional para a temporada 2026/2027, e a decisão final cabe ao júri internacional da FEE.

Meio milhão de metros cúbicos de areia contra o mar
A obra que suspendeu as bandeiras merece atenção, porque explica a cidade. Piçarras convive com erosão costeira há décadas. Relatórios da Defesa Civil municipal citados pela prefeitura apontam eventos severos entre 2003 e 2025 e trechos onde a distância entre o mar e as construções era inferior a cinco metros.
Entre 23 de janeiro e 16 de abril de 2026, a draga Amazone despejou mais de 493 mil metros cúbicos de areia ao longo de 2,43 km de orla, cerca de 6 mil metros cúbicos por ciclo, com até quatro ciclos diários. A faixa ganhou aproximadamente 30 metros de largura. O custo passou de R$ 47 milhões, bancados pelo Fundo de Manutenção da Praia.
Menos de dois meses depois, ressacas de outono formaram escarpas erosivas perto do molhe da Avenida Getúlio Vargas. O Instituto do Meio Ambiente (IMP) classificou o fenômeno como acomodação natural após alimentação artificial de praia, e o monitoramento segue programado até 2027. Quem visitar no inverno pode encontrar esses paredões de areia, e não deve caminhar na borda deles.
O maior acervo oceanográfico das Américas fica na beira da BR-101
A poucos metros da rodovia, o Museu Oceanográfico Univali (MOVI) guarda coisas que quase ninguém associa a uma cidade de praia. Segundo a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), o museu foi criado em 1987, está entre os quatro principais acervos de história natural do Brasil e é o maior das Américas no tema oceanográfico.
O acervo passa de 200 mil peças, das quais cerca de 1.500 ficam em exposição, distribuídas por 16 alas. Há esqueletos de baleias, fósseis e aquários com animais vivos. Um detalhe pouco divulgado: o museu abriga a maior coleção de conchas do Brasil, com dezenas de milhares de exemplares.
Fica na Avenida Sambaqui, 318, no bairro Santo Antônio, com estacionamento próprio. É o programa certo para dia de chuva.
Duas ilhas, uma lenda e uma árvore torta
Do calçadão, o horizonte tem três vultos de pedra. A Ilha Feia fica a cerca de 20 minutos de barco, é cercada de paredões rochosos, coberta de Mata Atlântica e praticamente inacessível, o que a preservou. Guias levam mergulhadores até a Caverna do Diabo, uma gruta pouco explorada.
Mais ao longe estão as Ilhas Itacolomi, dois rochedos irmãos. Conforme a Prefeitura de Balneário Piçarras, a lenda local conta que Açauna, filha do chefe carijó, estava prometida a um chefe botocudo quando se apaixonou por um náufrago que socorreu na praia. Na fuga, o casal se atirou ao mar durante um temporal. Quando o dia clareou, dois rochedos estavam ali, onde antes não havia nada.
Quem quer curtir praias calmas e tranquilidade no litoral catarinense, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Drones South, que conta com mais de 34 mil visualizações, onde o apresentador mostra o crescimento e o charme de Balneário Piçarras:
Na orla central, perto do Hotel Imperador, cresce a Árvore Torta, reconhecida como patrimônio natural do município. Ela sobreviveu a tantas ressacas que virou símbolo de resistência, e dá para sentar embaixo dela.
Como é o clima de Balneário Piçarras durante o ano?
Verão cheio e inverno vazio, com mar mais calmo do lado sul, protegido pelos molhes. As ressacas se concentram entre outono e inverno.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Sobre a viagem: são 110 km de Florianópolis, 180 km de Curitiba e apenas 16 km do aeroporto de Navegantes. O acesso é direto pela BR-101, com saídas nos quilômetros 100 e 103. O centro se resolve a pé ou de bicicleta.
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Vá ver o mar que a cidade aprendeu a negociar
Piçarras não tem o skyline da vizinha nem a fama do parque ao lado. Tem uma orla que o poder público leva a sério o bastante para submetê-la, ano após ano, a um júri internacional, e um museu que guarda mais conchas do que qualquer outro lugar do país.
Você precisa caminhar os 6,7 km dessa orla ao amanhecer, sentar embaixo da Árvore Torta e olhar as Itacolomi no horizonte, onde a lenda diz que dois apaixonados continuam de mãos dadas.




