Quase todo mundo cruza Betim sem parar. É a cidade que aparece pela janela do carro na BR-381, entre uma chaminé e outra, a caminho de outro lugar. Mas quem sai do Anel Rodoviário e entra no Centro encontra um casarão de pau-a-pique onde tropeiros dormiam no século 18, uma professora que virou lenda local e a carta de sesmaria original que batizou a cidade, guardada numa vitrine. A Betim que ninguém vê é bem mais divertida do que a que todo mundo atravessa.
O bandeirante que deu nome à cidade era genro de Borba Gato
Em 1711, três cartas de sesmaria foram concedidas no atual território do município. A mais conhecida saiu para o bandeirante Joseph Rodrigues Betim, genro de Manuel de Borba Gato e ligado à bandeira de Fernão Dias. O sobrenome pegou e nunca mais saiu.
O primeiro núcleo relevante foi o Arraial da Bandeirinha, que ergueu a Capela Nova do Monte do Carmo em 1754. Dali em diante, o lugar virou parada obrigatória das tropas que subiam de São Paulo e Goiás rumo às minas de Sabará e Pitangui. Curiosamente, Betim só se tornou município em 1938.
A carta de sesmaria de 1711 continua ali, exposta no Museu Paulo Araújo Moreira Gontijo, instalado no prédio do antigo Grupo Escolar Conselheiro Afonso Pena, de 1910. O acervo tem ainda moedas de 1924 e um moedor de carne dos anos 1920.

O casarão que já foi pousada, mercearia e o famoso Boteco dos Inchados
A construção mais antiga de Betim segue de pé na Avenida Padre Osório Braga. Segundo a Prefeitura de Betim, o casarão foi erguido no século 18 em pau-a-pique, técnica que mistura madeira e barro, e servia de pousada aos tropeiros.
Depois virou venda de secos e molhados. Nos anos 1950 e 1960, abrigou um boteco que a cidade apelidou de Boteco dos Inchados, e chegou a ter cinco famílias morando ao mesmo tempo. A prefeitura desapropriou em 1984, restaurou em 1986 e reabriu em 1987 como Casa da Cultura Josephina Bento.
O nome homenageia uma professora que veio de Ouro Preto nos anos 1920, sentada numa carroça, para dar aula na cidade. Ela foi homenageada ainda em vida, coisa rara. Hoje o casarão recebe rodas de samba, exposições e visitas guiadas gratuitas.
A professora que pediu presos emprestados ao delegado
Esta é a melhor história de Betim. Noemi Macedo Gontijo chegou à cidade em 1956 e, em outubro de 1970, fundou com o frei Stanislau Bartold o Salão do Encontro, uma associação para atender famílias da periferia. Faltava dinheiro para levantar as paredes. Ela então pediu ao delegado que lhe emprestasse os detentos da cadeia local.
Os presos chegaram escoltados e ergueram as primeiras salas de tijolinho. No fim do primeiro dia, Dona Noemi perguntou se não preferiam voltar a pé, para ver a cidade e as pessoas. Voltaram caminhando. Não houve uma única fuga, e a rotina virou costume.
Hoje, o Salão do Encontro é Patrimônio Cultural Imaterial de Betim e já passou de 60 mil pessoas atendidas em 55 anos, com oficinas de tecelagem, cerâmica, cestaria e marcenaria. Os móveis rústicos que ficaram famosos nasceram de dormentes descartados da rede ferroviária. Dona Noemi morreu em julho de 2024, aos 100 anos, com quase quarenta prêmios. O Memorial Noemi Gontijo, na casa onde viveu, recebeu certificação de museu pela Secretaria de Estado de Cultura e Turismo. Visitas precisam de agendamento por e-mail.
Um bairro com cine-teatro, coreto e dois times de futebol
Na regional Citrolândia existe um bairro que foi projetado como uma cidade inteira em miniatura. A Colônia Santa Isabel, construída entre 1922 e 1931, recebia pessoas com hanseníase numa época em que o tratamento significava isolamento. Como ninguém saía dali, a colônia ganhou tudo: cine-teatro, coreto, salão de festas, campo de futebol e dois clubes recreativos rivais.
O isolamento acabou nos anos 1980, e o que ficou foi um dos bairros mais charmosos do município, de ruas largas e casarões. Em 2000, o conjunto urbano virou patrimônio cultural de Betim. O Cine-Teatro Glória foi restaurado em 2005 e voltou a receber plateia, e o Coral Tangarás continua cantando.
Conforme a Prefeitura de Betim, o Centro de Memória da Hanseníase Luiz Verganin, criado em 2017, conta essa história em exposições permanentes.
Quem quer entender o crescimento industrial e as oportunidades de carreira na região metropolitana, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Cidades De Minas Gerais, onde o apresentador mostra o polo automotivo e as perspectivas para o futuro de Betim:
Como é o clima de Betim durante o ano?
Clima tropical de altitude, o mesmo da capital: verão chuvoso e inverno seco e ameno. Julho é o mês mais seco, com média histórica de apenas 7 mm de chuva, ideal para andar pelo Centro sem guarda-chuva.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Sobre a viagem: são cerca de 30 km do centro de Belo Horizonte, uns 40 minutos de carro pela BR-381, fugindo do horário de pico. Linhas metropolitanas saem da rodoviária da capital. Uma dica prática: o Parque Ecológico Vale Verde, alambique da cachaça mais premiada da cidade, está fechado à visitação desde novembro de 2017 e não tem data de reabertura, então não inclua no roteiro.
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Conheça a Betim que fica atrás das chaminés
A cidade das montadoras guarda um casarão de barro onde dormiram tropeiros, a certidão de nascimento que lhe deu nome e a história de uma professora que confiou em quem ninguém confiava.
Você precisa sair do Anel Rodoviário, entrar na Casa da Cultura numa noite de samba e descobrir que a cidade que todo mundo atravessa tinha muito a dizer.




