A 23 km do centro de Belo Horizonte, cerca de 40 minutos de carro pelo Anel Rodoviário, Sabará nasceu de uma obsessão. Bandeirantes paulistas subiram o rio das Velhas atrás do lendário Sabarabuçu, a montanha de metal que nunca existiu. Encontraram ouro de verdade, ergueram igrejas com o lucro e transformaram a vila no maior centro comercial das Minas do século 18. Três séculos depois, a riqueza que sustenta a cidade cabe na palma da mão e é roxa.
O que sobrou da vila mais rica das Minas do século 18
A antiga Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará sediava a Comarca do Rio das Velhas, cujos limites tocavam Pernambuco, Bahia, Espírito Santo e Goiás. Era ali que o ouro extraído da região virava barra e pagava o quinto devido à Coroa Portuguesa.
Em 1938, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou o conjunto de Sabará no mesmo lote de Ouro Preto, Mariana, Diamantina, Serro e Tiradentes. Segundo o IPHAN, os primeiros tombamentos na cidade ocorreram em 1938 e 1945, entre eles a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a Capela de Nossa Senhora do Ó e a Casa Borba Gato.

Aleijadinho assinou a portada, os púlpitos e dois santos na Igreja do Carmo
A pedra fundamental da Igreja de Nossa Senhora do Carmo foi lançada em 1763, no morro Cruz das Almas. O projeto era do mestre Tiago Moreira, mas a fachada mudou de rumo quando a Ordem Terceira decidiu, em 1768, refazer o frontispício.
Entrou Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Conforme o IPHAN, a ele se atribui a escultura da portada em pedra-sabão, executada entre 1771 e 1774, e ainda os púlpitos, o coro e as balaustradas, documentados em 1779 e 1781. Do mesmo período são as imagens de São João da Cruz e São Simão Stock, concluídas em 1779 e instaladas nos altares do arco-cruzeiro.
Vale procurar os dois atlantes de madeira que sustentam o coro. São detalhes fáceis de perder para quem entra olhando o teto.
Por que uma jabuticabeira vale desconto no imposto?
Porque uma lei municipal de 1982 diz isso. A Prefeitura de Sabará confirma: pela Lei Municipal nº 146/82, cada pé de jabuticaba no imóvel rende 5% de abatimento no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), limitado a cinco pés. Quem tem o quintal cheio economiza um quarto do imposto.
O resultado apareceu nos quintais do centro histórico. A fruta passou a ser chamada de “ouro negro” e ganhou selo federal: o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) concedeu, em 23 de outubro de 2018, o registro de Indicação de Procedência à Associação dos Produtores de Derivados de Jabuticaba de Sabará. A lista oficial do Ministério da Agricultura registra cinco produtos protegidos:
- Licor: feito com o suco extraído depois que a fruta estoura, misturado a álcool de cereais e calda de açúcar.
- Geleia: consistência gelatinosa e cor roxa avermelhada.
- Molho: usado sobre carnes, aposta recorrente dos concursos gastronômicos locais.
- Casca cristalizada: aproveita a parte que a maioria descarta.
- Compota: produzida somente com a casca, fervida e depois adoçada.
O nome “jabuticaba de Sabará” só pode ser usado por produtores do município. É o mesmo mecanismo legal que protege o queijo Canastra e a cachaça de Salinas.

Um teatro de 1819, um museu de mudança e dois festivais
O Teatro Municipal, antiga Casa da Ópera, foi inaugurado em 2 de junho de 1819. De acordo com a Prefeitura de Sabará, é o segundo mais antigo do Brasil ainda em funcionamento, tem planta em ferradura com três andares de camarotes e recebeu as visitas de Dom Pedro I, em 1831, e de Dom Pedro II, em 1881. As portas de entrada vieram da antiga cadeia da vila. Em 2012, ele foi eleito uma das Sete Maravilhas da Estrada Real por votação pública organizada pelo Instituto Estrada Real.
Vizinho dele, o Museu do Ouro ocupa o único remanescente de Casa de Intendência e Fundição do Brasil, prédio de meados do século 18. O acervo reúne 749 objetos, entre mobiliário, prataria e equipamentos de mineração. Atenção antes de programar a visita: o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) informou que o edifício está fechado para obras de restauro, e o acervo passa a ser exposto em sede provisória, no Solar do Padre Correia, no centro.
Duas datas gratuitas movimentam o calendário. O Festival do Ora-Pro-Nóbis ocupa o bairro Pompéu, com concurso de pratos e drinques criados a partir da planta, sendo o clássico local o ora-pro-nóbis com marreco. Em novembro vem o Festival da Jabuticaba, que chegou à 39ª edição em 2025: quatro dias nas praças Melo Viana e Santa Rita, mais de 40 estandes e cerca de 200 mil visitantes, segundo dados da prefeitura.
Quem tem o desejo de desvendar a história de uma joia barroca de Minas Gerais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 90 mil visualizações, onde Tati Marmon mostra as igrejas históricas, o Museu do Ouro e o festival da jabuticaba em Sabará:
Como é o clima de Sabará durante o ano?
Sabará fica a cerca de 700 metros de altitude e tem verão chuvoso e inverno seco. O calendário de festas segue essa lógica, porque a safra da jabuticaba depende das chuvas.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Sabará saindo de Belo Horizonte
São cerca de 23 km do centro da capital, viagem média de 40 minutos de carro. O acesso mais direto sai pela avenida Cristiano Machado ou pela Avenida Antônio Carlos até o Anel Rodoviário, sentido Vitória. Quem chega pelo Aeroporto de Confins percorre aproximadamente 50 km. Linhas metropolitanas de ônibus ligam a capital ao centro histórico, e todas as atrações principais ficam a distância de caminhada entre si.
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Vá conhecer a cidade onde uma árvore paga imposto
Sabará guarda o barroco de Aleijadinho, o teatro que ouviu dois imperadores e o único prédio de Casa de Intendência que restou no país. Mas o que a torna singular está nos quintais, onde uma lei de 1982 convenceu uma cidade inteira a não derrubar suas árvores.
Você precisa subir a ladeira da Intendência num sábado de novembro, comer jabuticaba direto do pé e entender por que aqui o ouro mudou de cor.




