Bandeira Azul renovada e a maior área marinha protegida do país: o vilarejo alagoano onde o peixe-boi volta ao rio e o mineiro chega em meio dia
São cerca de 1.800 km de Belo Horizonte até Porto de Pedras, no litoral norte de Alagoas, uma viagem de carro que passa de 24 horas ao volante. Por isso, quase todo mineiro faz o trecho em duas etapas: voa até Maceió, em pouco menos de duas horas, e roda mais 110 km pela AL-101, a estrada que margeia o mar. No fim do caminho, a paisagem tem mais recife do que prédio, e o mar fica raso o suficiente para virar piscina quando a maré baixa.
De vila queimada por holandeses a refúgio de coqueirais
A história aqui começa cedo e violenta. Em 14 de maio de 1633, guiados por Calabar, os holandeses entraram em Porto de Pedras, destruíram embarcações portuguesas e incendiaram o povoado, registra a Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas (SECULT).
Um alvará régio de 5 de dezembro de 1815 elevou o povoado à categoria de vila, desmembrada de Porto Calvo. Em 1921, virou município. Do passado sobraram os antigos engenhos de cana e as casas grandes dos coronéis, hoje espalhadas pelo interior do município.

Por que a Praia do Patacho carrega um selo que quase nenhuma praia brasileira tem?
Porque atende a critérios internacionais auditados todo ano. Em outubro de 2025, o júri internacional do programa Bandeira Azul renovou a certificação da Praia do Patacho para a temporada 2025/2026. Ela foi a primeira praia alagoana a receber o selo, segundo o Governo de Alagoas.
O selo não é decorativo. Exige educação ambiental para moradores e turistas, divulgação da qualidade da água, informação sobre ecossistemas locais e código de conduta para o uso da praia, com comprovação anual. A SOS Mata Atlântica, que integra o júri nacional do programa, aponta que o fato de a praia estar dentro de uma área protegida facilitou o cumprimento de parte dos critérios.

495 mil hectares de mar protegido e um santuário de peixe-boi
Toda essa faixa de litoral está dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, criada em 1997. Em 5 de junho de 2025, um decreto federal ampliou a unidade em 89.442 hectares, levando-a a 495.084 hectares de área total, informa o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). A ampliação protege recifes de coral, manguezais e, em especial, o peixe-boi marinho, além de beneficiar cerca de 40 comunidades pesqueiras.
O rio local virou berçário. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) montou em Porto de Pedras uma base do Projeto Peixe-Boi, em um terreno de 1 hectare às margens do Rio Tatuamunha, considerada estratégica por ficar no centro da APA. Desde a fundação do projeto, em 1994, dezenas de animais foram devolvidos à natureza, e 20 deles pela estrutura instalada no próprio Tatuamunha, conforme dados do ICMBio. A observação é feita em jangadas conduzidas por moradores.

O roteiro: farol de 36 metros, jangadas e pontes de madeira
Tudo se resolve em dois dias, e quase nada exige agência. As praias ficam ao longo da AL-101, a poucos minutos umas das outras.
- Praia do Patacho: areia branca, coqueiral fechado e piscinas naturais na maré baixa. É onde tremula o selo Bandeira Azul.
- Farol de Porto de Pedras: torre troncônica de concreto armado com faixas horizontais, 36 metros de altura, 90 metros de altitude e alcance luminoso de 24 milhas. Foi inaugurado em 1933 com sistema de gás acetileno, no morro Nossa Senhora da Piedade, segundo a Capitania dos Portos de Alagoas.
- Santuário do Peixe-Boi: passeio de jangada pelo Rio Tatuamunha, agendado com antecedência pela associação de moradores.
- Praia de Lages: acesso por dentro de um coqueiral, faixa em meia-lua e quase nenhuma estrutura comercial.
- Boca do Rio Tatuamunha: encontro de água doce e salgada, ponto clássico para o pôr do sol.
- Pontes fluviais de madeira: travessia sobre o mangue, com caranguejos à vista.
Na mesa, o cardápio vem do mar e do mangue: casquinha de aratu, caldeirada de frutos do mar servida em panela de barro e peixe assado com pirão. O artesanato em palha e madeira se concentra na avenida principal, entre Tatuamunha e a Vila Palmeira.
Quem sonha em vivenciar as belezas cinematográficas do litoral de Alagoas, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Viagens Cine, que conta com mais de 81 mil visualizações, onde os apresentadores mostram as piscinas naturais, a Praia do Patacho e um roteiro completo por Porto de Pedras:
Quando o mar de Porto de Pedras fica transparente?
As piscinas naturais dependem de maré e de chuva. O período mais seco, entre setembro e março, entrega a água mais clara e maré baixa em horários convenientes.
Temperaturas aproximadas com base na climatologia do Climatempo. Condições podem variar.
Como sair de BH e chegar ao litoral norte alagoano
De carro, são cerca de 1.800 km pela BR-381, BR-116 e BR-101, com mais de um dia de estrada e pernoite obrigatório. A alternativa prática é voar de Confins até Maceió, alugar um carro no aeroporto e seguir 110 km pela AL-101, entre coqueirais e vilas de pescadores.
Quem prefere velocidade troca a AL-101 pela AL-105, mais interiorana. Ambas levam por volta de duas horas e meia até a vila. Chegando pelo norte, vindo de Maragogi, é preciso cruzar o Rio Manguaba de balsa.
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Vá antes que o mundo descubra
Porto de Pedras não vendeu a orla. As praias seguem sem prédios, o peixe-boi volta ao rio e o farol de 1933 ainda pisca sobre o mangue.
Você precisa fazer essa viagem longa uma vez e entender por que quem chega aqui começa a calcular quanto tempo consegue ficar.




