O cheiro de lenha queimada e o som do torno recebem quem chega a Cunha, vilarejo paulista a cerca de 1.000 metros de altitude entre a Serra do Mar e a Serra da Bocaina. A neblina cobre as ruas sem semáforos, e os mais de 20 ateliês mantêm vivo o título nacional conquistado em 2022.
Como um vilarejo virou Capital Nacional da Cerâmica?
O reconhecimento veio pela Lei 14.363/2022, sancionada em 1º de junho de 2022. O texto oficializou Cunha como Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura, reconhecendo uma tradição que começou muito antes da chegada dos portugueses.
Segundo o Senado Federal, os povos Tamoios já moldavam peças na região no século 16. Nos séculos seguintes, as chamadas paneleiras seguiram o ofício em fornos rústicos de barranco.

A virada japonesa de 1975 que mudou tudo
A transformação começou quando o arquiteto português Alberto Cidraes chegou ao vilarejo com o casal japonês Toshiyuki e Mieko Ukeseki. Juntos, instalaram ali o primeiro forno Noborigama do Brasil, uma estrutura construída em declive, alimentada a lenha, capaz de queimar peças por mais de 30 horas seguidas.
A técnica milenar japonesa encontrou a argila da Mata Atlântica e criou uma estética própria. O Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB) aponta o grupo como o marco inicial da cerâmica autoral que hoje domina a cidade.

Um dos maiores polos da América do Sul
A Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo classifica Cunha como um importante polo de cerâmica artística da América do Sul. O reconhecimento federal veio pelo Gov.br, que destacou o município como um dos centros mais importantes do setor no continente.
A cidade tem cerca de 21,5 mil habitantes e nenhum semáforo. O calendário cultural gira em torno do Festival de Cerâmica, realizado em junho desde 2005, com aberturas de forno abertas ao público e exposições coletivas dos ceramistas locais.
O que fazer no vilarejo paulista?
O roteiro combina ateliês, natureza e a estrada que leva ao litoral fluminense. Entre as atrações mais procuradas estão:
- Ateliê Suenaga e Jardineiro: um dos mais tradicionais, conhecido pela influência oriental e pelos esmaltes feitos com cinzas de eucalipto e casca de arroz.
- Casa do Artesão: funciona no espaço do antigo Ateliê Matadouro, primeiro ateliê da cidade, fundado em 1976.
- Parque Estadual da Serra do Mar (Núcleo Cunha): reúne trilhas, cachoeiras e Mata Atlântica preservada, com acesso pela Rodovia Paulo Virgínio.
- Pedra da Macela: mirante a 1.840 metros de altitude no Parque Nacional da Serra da Bocaina, com vista para Paraty e a Baía de Ilha Grande.
- Lavandário: campo de lavanda com vista para o Vale do Paraíba, cenográfico e aberto à visitação.
- Estrada Cunha-Paraty: 46 km por uma das rotas mais bonitas do país, cruzando o Velho Caminho do Ouro.
Na gastronomia, o clima de serra dita o cardápio. Os destaques da cozinha local incluem:
- Truta na brasa: prato típico das pousadas rurais, servido com ervas da região.
- Pinhão: colhido na mata, aparece cozido, na paçoca ou em sopas no inverno.
- Queijos artesanais: produzidos em pequenas fazendas da zona rural.
- Cachaças de alambique: Cunha abriga uma tradição forte de produção artesanal.
Quem sonha em conhecer Cunha, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Vamos Fugir Blog, que conta com mais de 110 mil visualizações, onde Lígia e Ulisses mostram um roteiro completo de passeios e gastronomia em São Paulo:
Quando é a melhor época para visitar o vilarejo?
O inverno seco é a alta temporada, com dias claros e noites frias. No verão, as chuvas são frequentes, mas a neblina ganha ares cinematográficos.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude.
Como chegar a Cunha?
A Prefeitura de Cunha orienta que o acesso mais comum parte da capital paulista pela Rodovia Ayrton Senna e pela BR-116 (Via Dutra) até Guaratinguetá, seguindo pela SP-171 até o centro. São cerca de 230 km e 3 horas de viagem. Quem vem de Paraty percorre apenas 46 km pela Estrada Cunha-Paraty. O carro é essencial, porque as atrações ficam espalhadas pela zona rural.
Suba a serra e conheça a capital da cerâmica
O vilarejo paulista reúne arte, neblina e natureza em um dos recantos mais silenciosos do Vale do Paraíba. Poucos destinos combinam tradição secular, reconhecimento federal e paisagem de montanha a tão pouca distância das duas maiores capitais do país.
Você precisa conhecer Cunha e sentir o ritmo lento de um lugar onde o barro ainda dita o compasso dos dias.




