As ruas têm nome de variedade de uva, o túnel verde cobre toda a frente da igreja e o cheiro de polenta sai das casas ao entardecer. Otávio Rocha, distrito de Flores da Cunha, na Serra Gaúcha, guarda a memória dos imigrantes italianos como poucos lugares do Rio Grande do Sul.
Como um vilarejo italiano apareceu na Serra Gaúcha?
A história começa em 1882, quando os primeiros imigrantes italianos chegaram à região. A maioria veio da Província de Vicenza, no nordeste da Itália, e trouxe o dialeto vicentino, os costumes camponeses e as técnicas de cultivo da uva que moldariam o distrito para sempre.
O nome oficial só veio em 17 de maio de 1924, como homenagem a Otávio Rocha, político gaúcho que foi senador, deputado e prefeito de Porto Alegre. Ele ajudou na emancipação de Flores da Cunha, e o reconhecimento virou o atual 3º distrito do município. A Prefeitura de Flores da Cunha mantém uma subprefeitura na Rua Uva Isabel, no centro da vila.

Curiosidades que fazem de Otávio Rocha um caso único no Brasil
Poucos lugares do país preservam com tanta clareza a identidade dos imigrantes italianos. Algumas marcas da vila chamam atenção logo na chegada.
- Ruas com nomes de uva desde 1975: a avenida principal é a Uva Itália, seguida por ruas como Uva Bonarda, Uva Moscato, Uva Niágara, Uva Merlot e Uva Isabel. A mudança foi feita no ano do centenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul.
- Dialeto vicentino ainda vivo: muitos moradores mais velhos conversam no dialeto original trazido da Província de Vicenza.
- Túnel da Uva com 80 metros: cerca de 100 mudas de videiras cobrem a rua em frente à Igreja Matriz São Marcos, com 5,6 metros de altura.
- Leão alado de São Marcos: o símbolo do padroeiro é o mesmo da antiga República de Veneza, de onde vieram os primeiros colonos.
Reconhecimento oficial como rota turística da Serra Gaúcha
O distrito foi formalizado como roteiro turístico em 2017, quando um grupo de empresários se uniu com apoio do Sebrae e da Prefeitura Municipal para lançar a rota Otávio Rocha Vila Colonial. O projeto reúne oito empreendimentos familiares que oferecem experiências de cultura italiana, gastronomia e vinhos artesanais.
A rota é hoje uma das mais charmosas da Serra Gaúcha e atrai visitantes que buscam uma experiência mais autêntica e menos turística que as rotas tradicionais de Gramado e Canela. O atendimento é feito pelas próprias famílias que carregam a tradição há gerações.
O que fazer entre o túnel de uvas e as cucas caseiras?
O centro do distrito se percorre a pé em poucos minutos, mas cada esquina esconde um pedaço da herança italiana. Confira algumas atrações imperdíveis:
- Túnel da Uva: parreiral de 80 metros em frente à igreja, mais bonito no verão durante a vindima, quando os cachos ficam ao alcance da mão.
- Igreja Matriz São Marcos: considerada a primeira igreja em estilo moderno do interior do Rio Grande do Sul, com torre de pedra e Via Sacra pintada por Guido Mondin.
- Praça Regional da Uva: praça central que homenageia os oito municípios maiores produtores de uva da região, com a estátua de Nossa Senhora da Uva.
- Casarão dos Veronese: casa onde viveu a família Veronese, que imigrou para Otávio Rocha em 1882, aberto para visitas agendadas.
- Parque da Gruta: cachoeira em meio à mata, com gruta natural que abriga a imagem de Nossa Senhora das Graças, a cerca de 2 km do centro.
- Museu Padre Alberto Lamonatto: acervo histórico doado por testamento, com destaque para a coleção de vinhos e licores.
A gastronomia é o grande motivo de muitas viagens à vila. Quase tudo é preparado em casa, com receitas trazidas pelos imigrantes e adaptadas aos ingredientes locais. Veja o que provar:
- Menarosto: prato típico de Flores da Cunha com carne de codorna, leitão, frango e coelho, servido com polenta, massa, radicci e maionese.
- Cucas artesanais: massa fofa com diferentes recheios, tradição doce das famílias italianas da região.
- Vinhos e espumantes coloniais: produzidos em vinícolas familiares como a Pauletti Vinhos, fundada em 2018, e a Casa Gazzaro.
- Geleias de mirtilo e uva: produzidas na Doces Silber, agroindústria familiar com 31 hectares de plantação.
- Chocolates artesanais: da Chocolate com Arte, no coração da vila, uma das paradas obrigatórias da rota.
Quem busca um refúgio de paz na Serra Gaúcha, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Otávio Rocha Vila Colonial, que conta com mais de 600 visualizações, onde é apresentado o roteiro histórico e cultural de Otávio Rocha, distrito de Flores da Cunha:
Quando o clima ajuda cada tipo de passeio?
O clima é subtropical, com estações bem definidas e temperaturas amenas que seguem o ritmo da Serra Gaúcha. A melhor época para visitar é durante a vindima, entre meados de janeiro e meados de fevereiro, quando os parreirais estão carregados e o túnel da uva fica no auge.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar ao distrito da uva
De Caxias do Sul, são aproximadamente 25 km por estrada asfaltada que já é parte do passeio, repleta de parreirais e vinícolas. De Flores da Cunha, o centro fica a apenas 12 km, também em rota cênica pela Serra Gaúcha.
Quem vem de Porto Alegre percorre cerca de 150 km até chegar ao distrito, com trajeto pela BR-116 e depois pela Rota do Sol. O ideal é estar de carro, porque as propriedades rurais e as vinícolas familiares ficam espalhadas pelos arredores da vila.
Visite a vila onde o tempo ainda fala vicentino
Otávio Rocha reúne em poucas ruas a essência da colonização italiana no Sul do Brasil. A igreja com torre de pedra, o túnel verde de videiras e as mesas fartas de polenta e vinho formam um roteiro raro na Serra Gaúcha.
Você precisa caminhar pela Avenida Uva Itália ao entardecer e entender por que esse distrito esquecido dos grandes roteiros virou o segredo mais bem guardado da imigração italiana no Rio Grande do Sul.




