Quase toda cidade histórica mineira foi erguida com o que havia por perto, mas poucas levaram isso tão longe quanto São Thomé das Letras. No alto da Serra das Letras, no sul do estado, ruas, muros, casas e igrejas saíram da mesma rocha que forma a montanha embaixo delas. Esse material virou marca registrada, sustenta a economia local e ganhou, em 2024, um reconhecimento oficial que poucos produtos brasileiros têm.
Por que a cidade inteira é feita da mesma pedra?
Porque o quartzito aflora na superfície e se parte em lascas planas, prontas para empilhar. De acordo com o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG), a Igreja Matriz de São Thomé, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e as edificações do centro histórico foram levantadas em pedra seca, com lascas irregulares sobrepostas sem qualquer aglomerante entre elas.
O conjunto tem proteção estadual desde a década de 1990. O tombamento do Conjunto Arquitetônico e Paisagístico do Centro Histórico foi homologado em 24 de abril de 1996 e inscrito em quatro livros do tombo ao mesmo tempo: o arqueológico e paisagístico, o de belas artes, o histórico e o de artes aplicadas. Até as ruas entraram na conta, calçadas com blocos irregulares que acompanham a topografia rochosa.

O que significa o selo de origem concedido em 2024?
Significa que a pedra só pode levar esse nome se sair dali. Conforme o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o registro de Indicação Geográfica na espécie Denominação de Origem foi publicado em 9 de julho de 2024 para a Região Pedra São Thomé, reconhecida como centro de extração de quartzitos plaqueados e foliados usados em ornamentação e revestimento.
É o mesmo instrumento aplicado a vinhos e queijos com território demarcado na Europa, e naquele momento havia apenas 37 denominações de origem registradas no país, entre nacionais e estrangeiras. A área reconhecida abrange São Tomé das Letras e a vizinha Luminárias. Na prática, o piso claro que não esquenta ao sol, comum em bordas de piscina e fachadas, tem endereço certo de nascimento.

De onde vêm as letras que batizam o município?
De marcas gravadas nas rochas da serra, atribuídas pela tradição local aos povos indígenas que ocuparam a região antes da colonização. Não por acaso, o tombamento estadual incluiu o livro do tombo arqueológico, e as grutas do entorno funcionaram como abrigo muito antes de existir qualquer capela ali.
A fundação do povoado tem origem religiosa. Conforme o IEPHA, o núcleo urbano surgiu ligado ao suposto encontro de uma imagem de São Thomé dentro de uma gruta, o que motivou a construção de uma capela a partir de 1770. A atual matriz começou a ser erguida em 1785, e diante dela ficou a Praça Barão de Alfenas, homenagem ao antigo proprietário das terras da região.
O que fazer entre grutas, mirantes e cachoeiras?
Quase tudo por ali envolve subir, descer ou entrar em alguma formação de pedra. As distâncias são curtas, mas boa parte dos acessos é de terra, e o carro baixo sofre nos trechos de estrada rural.
Confira abaixo o que costuma entrar no roteiro de quem visita a cidade:
- Centro histórico: casario de pedra seca, feiras de artesanato em quartzito e a matriz setecentista na praça principal.
- Igreja de Nossa Senhora do Rosário: templo de pedras sobrepostas, conhecido como Igreja de Pedra, protegido em processo próprio pelo IEPHA.
- Cachoeira Véu da Noiva: queda alta e estreita cercada de mata, uma das mais procuradas do entorno.
- Mirantes da serra: pontos altos onde o pôr do sol reúne visitantes todos os dias, com vista para o mar de morros do sul mineiro.
- Ladeira do Amendoim: trecho de rua onde carros em ponto morto parecem subir sozinhos, efeito clássico de ilusão de ótica que virou parada obrigatória.
- Trilhas entre grutas: caminhos abertos na rocha que ligam cavernas e fendas formadas pela erosão do quartzito.
Quem quer desvendar o lado místico de São Thomé das Letras vai curtir este vídeo do canal Rolê Família, com mais de 255 mil visualizações, que mostra um roteiro de 4 dias.
Como o clima de São Thomé das Letras se comporta ao longo do ano?
A altitude domina a sensação térmica: as noites são frescas mesmo no verão, e o inverno seca o ar por completo. Junho registra média mensal de 22 mm de chuva, contra 42 mm em maio, conforme séries do Climatempo, e a estação seca é justamente quando o céu limpo favorece a vista do alto da serra.
Veja abaixo como cada estação costuma se comportar no município:
Temperaturas aproximadas. As condições mudam de um ano para outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada no Climatempo.
A cidade que virou vitrine da própria montanha
Poucos lugares no Brasil conseguem mostrar, em um único quarteirão, a matéria-prima que os construiu e que ao mesmo tempo atravessa o oceano dentro de contêineres. Em São Thomé das Letras, a rocha é chão, parede, igreja, renda e agora também um selo oficial de origem.
Você precisa subir a serra, andar sem pressa pelas ruas de pedra e esperar o sol se pôr no alto para entender por que tanta gente demora a descer daqui.




