Oliveira é planta do Mediterrâneo e precisa de frio para dar fruto, o que sempre pareceu um problema em um país tropical. A solução apareceu num ponto específico da Serra da Mantiqueira: Maria da Fé, no sul de Minas Gerais, onde o inverno é rigoroso o bastante para as árvores florescerem e a altitude passa dos 1.200 metros. Foi ali que saiu o primeiro azeite extravirgem do Brasil e é de lá que vem, hoje, um rótulo premiado na Espanha.
Por que o azeite produzido aqui virou o melhor do mundo em uma categoria
Por causa da altitude somada ao frio. Segundo a Agência Minas, o azeite Mantikir Summit Premium, produzido no município, conquistou o primeiro lugar na categoria “Produção Limitada”, até 2.500 litros, no Evooleum 2024, guia dos 100 melhores azeites do mundo organizado pela editora espanhola Mercacei e pela Associação Espanhola de Municípios Olivais. As azeitonas vieram do olival mais alto do país, a 1.900 metros.
O desempenho não parou por aí. Conforme a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), o mesmo rótulo emendou o segundo ano consecutivo entre os cem melhores do mundo e como melhor do Brasil no guia espanhol, enquanto o monovarietal Grappolo Epamig, feito com uma cultivar desenvolvida pela própria empresa, estreou no Top 20 da categoria de produção limitada.

Onde o Brasil extraiu seu primeiro azeite extravirgem
No Campo Experimental da Epamig, dentro da cidade, em 29 de fevereiro de 2008. A Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) registra que a tiragem pioneira rendeu apenas 40 litros, um volume simbólico que abriu caminho para toda uma cadeia produtiva.
Hoje o cenário é outro. A mesma fonte estadual aponta cerca de 200 produtores e 90 marcas próprias na Mantiqueira, entre Minas, São Paulo e Rio de Janeiro, com produção recorde de 120 mil litros em um único ano. O detalhe curioso é que a estrutura pública que fez a primeira extração continua processando azeite de pequenos produtores da região, o que permite a uma família com pouco mais de um hectare disputar concurso na Itália e na Espanha.

O que ver entre oliveiras, araucárias e o mirante a 1.683 metros
A cidade cabe num passeio a pé, mas o entorno pede carro e estrada de terra. Vale começar pela praça central, decorada com oliveiras que dão fruto, e seguir para o antigo prédio da estação ferroviária. Confira abaixo o que rende um roteiro completo no alto da serra:
- Pico da Bandeira: também chamado de Pico Pomária, é o ponto culminante do município, a 1.683 metros, com vista para as cidades vizinhas e para trechos da Mantiqueira.
- Centro Cultural: instalado na antiga estação, guarda registros fotográficos e documentais da história local, segundo o Instituto Estrada Real.
- Locomotiva Baldwin 225: máquina de 1918, desativada, exposta ao lado da estação e transformada em cartão-postal.
- Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes: guarda murais do pintor italiano Pietro Gentilli, autor de obras também em Mariana.
- Gente de Fibra: oficina da Cooperativa Mariense de Artesanato, no centro, onde o visitante acompanha e participa da produção das peças.
- Visitas aos olivais: propriedades da região abrem para degustação de azeite e caminhada entre as oliveiras, uma experiência rara no país.
- Cachoeira Mãe de Ouro: no distrito de Pintos Negreiros, cerca de 15 km do centro por estrada de terra.
O artesanato local tem uma origem improvável: de acordo com o Sebrae Minas, o designer Domingos Tótora, então professor de artes, começou a recolher caixas de papelão descartadas na porta das lojas e transformou o material em peças de papel machê, técnica que virou marca da cidade e deu origem à cooperativa em 1999.
Quem quer saber como é a vida no frio da Serra da Mantiqueira vai curtir este vídeo do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, com mais de 580 mil visualizações, sobre azeites e vinhos de Maria da Fé.
Como é o clima de Maria da Fé ao longo do ano
Aqui o frio não é acidente, é rotina: a Câmara Municipal de Maria da Fé registra que o município é conhecido como o mais frio do estado, com mínimas que descem abaixo de zero no inverno. Veja abaixo como o tempo se comporta ao longo do ano na cidade das oliveiras:
Temperaturas aproximadas. Fenômenos como El Niño e La Niña alteram o padrão de frio e de chuva a cada ano, então vale conferir a previsão atualizada no Climatempo antes de subir a serra.
Suba a Mantiqueira e prove o azeite na origem
Existe algo de bonito em uma cidade pequena que resolveu tratar o próprio frio como vantagem. Foi essa insistência que transformou uma planta mediterrânea em cultura brasileira e colocou um rótulo do sul mineiro na mesma lista de azeites da Espanha, da Grécia e da Itália.
Você precisa passar um fim de semana em Maria da Fé, caminhar entre as oliveiras e provar, ainda na origem, o azeite que saiu do olival mais alto do país.




