Caroline Jardim - Especial para o Estado de Minas

Toda empresa que enfrenta processos judiciais convive com um passivo judicial corporativo. O nome é técnico, mas a ideia é simples: são obrigações, riscos e valores ligados a ações judiciais que podem pesar no caixa em algum momento. Entram nessa conta processos trabalhistas, cíveis, tributários, contratos, acordos, depósitos judiciais e bloqueios determinados pela Justiça.

Durante muito tempo, esse universo ficou quase restrito ao departamento jurídico. A lógica era acompanhar processos, provisionar riscos e cumprir decisões. Mas, em empresas com grande volume de ações, o passivo judicial também diz muito sobre dinheiro parado, previsibilidade financeira e eficiência na gestão do caixa.

É nesse ponto que entra a Pact. A empresa, que atua na gestão e reestruturação de passivos judiciais corporativos, ajuda companhias a organizar informações jurídicas dispersas, cruzar dados financeiros e identificar valores que podem estar esquecidos em depósitos, bloqueios ou registros não localizados. Desde setembro de 2024, a companhia recuperou ou identificou mais de R$ 160 milhões em recursos vinculados a depósitos judiciais e valores não identificados dos clientes que atende. Esses valores estavam fora do fluxo financeiro das empresas atendidas e, muitas vezes, sem acompanhamento contínuo.

A área da Pact dedicada ao tema cresceu mais de 500% nos últimos dois anos. Entre setembro e dezembro de 2024, a recuperação somou R$ 462 mil. Em 2025, o volume chegou a R$ 35,2 milhões. No primeiro trimestre de 2026, foram R$ 3,5 milhões. Os depósitos identificados e convertidos em caixa totalizaram R$ 5,7 milhões em 2024 e mais de R$ 3,2 milhões em 2025.

Na prática, o trabalho é olhar para dentro do contencioso e encontrar recursos que já pertencem à empresa, mas que não voltaram ao caixa por falta de rastreamento, análise ou processo estruturado. É como abrir uma gaveta antiga da área jurídica e descobrir que havia dinheiro parado ali.

A base ativa monitorada mensalmente pela Pact soma R$ 40,5 milhões. O avanço acontece em um cenário em que cada real parado pesa mais: juros altos, pressão por liquidez e busca por eficiência de capital fizeram o tema sair da prateleira jurídica e ganhar espaço nas conversas financeiras.

O CEO da Pact, Lucas Pena, afirma que parte desses valores não deve ser vista apenas como rotina processual, mas como capital imobilizado sem gestão ativa.

“Em muitos casos, há recursos já depositados ou bloqueados que permanecem sem tratativa estruturada, o que posterga sua identificação e eventual retorno ao caixa. Quando esse processo passa a ser monitorado com método e dados, a companhia deixa de olhar apenas para o contencioso e passa a capturar uma oportunidade concreta de eficiência de capital”, afirma.

Para Pena, a revisão de depósitos judiciais e valores não identificados começa a fazer parte de uma agenda mais ampla de recuperação de capital dentro das empresas.

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“A discussão ganha espaço em um ambiente de juros altos, foco em geração de caixa e maior rigor sobre alocação de capital. Na prática, a revisão de depósitos judiciais e valores não identificados começa a ser incorporada como uma agenda de recuperação de capital, com potencial para liberar recursos que estavam fora do fluxo financeiro das empresas”, diz.

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