Caroline Jardim - Especial para o Estado de Minas
A menos de dois meses da Copa do Mundo, o maior evento global de futebol deve impulsionar o fluxo de turistas e pressionar a infraestrutura do setor. Nesse cenário, a inteligência artificial já se tornou um diferencial competitivo entre empresas que conseguem responder à demanda em tempo real e aquelas que ainda operam com processos manuais. Hoje, 91% das empresas de turismo já utilizam ou testam IA, e 85% relatam ganhos concretos de eficiência, segundo relatório do PWC.
Para Luiz Moura, especialista em turismo e co-fundador da VOLL, a maior agência de viagens corporativas digital da América Latina, o mercado vive uma mudança estrutural. “A inteligência artificial já se consolidou no turismo. E a diferença entre quem aproveita essa transformação e quem ainda hesita em começar se amplia a cada trimestre, refletindo diretamente nos resultados”, afirma.
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Dados recentes do Boston Consulting Group (BCG), em parceria com a New York University (NYU), mostram que empresas que já incorporaram IA chegam mais preparadas para lidar com picos de demanda. Hotéis que adotaram sistemas inteligentes reduziram em até 20% o tempo de liberação de quartos.
“O Four Seasons Peninsula Papagayo, na Costa Rica, reduziu o desperdício de alimentos em aproximadamente 50% em oito meses usando ferramentas de rastreamento inteligente na cozinha. Além disso, hoje, 37% dos viajantes já utilizam inteligência artificial para buscar e reservar hospedagens e passagens, alterando a lógica de distribuição no setor”, afirma. Esse novo padrão tende a ganhar ainda mais relevância em eventos de grande escala, quando a disputa por atenção do turista é global e mediada por plataformas digitais.
A transformação também alcança a aviação e o turismo corporativo. Segundo Moura, soluções baseadas em IA já permitem ganhos contínuos de eficiência. “A VOLL desenvolveu agentes de IA que monitoram tarifas aéreas continuamente após a emissão das passagens. Quando o sistema identifica uma oportunidade de reemissão a custo menor, ele age automaticamente, submetendo a alteração para aprovação e gerando economias de até 30% no custo de voos”, exemplifica.
Apesar dos avanços, o relatório do BCG aponta um gargalo estrutural: apenas 2,9% dos profissionais de turismo possuem habilidades em inteligência artificial, contra 21% nos setores de tecnologia e mídia. Para Moura, esses dados mostram não apenas uma lacuna de talento, mas de competitividade que se aprofunda a cada ciclo de adoção.
“A América Latina herda nesse debate os mesmos desafios presentes em outros aspectos da transformação digital: sistemas fragmentados que não se integram, infraestrutura de dados imatura, culturas organizacionais resistentes à automação e um ecossistema de formação profissional que ainda não incorporou a IA como competência essencial para o setor”, analisa.
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Para o especialista, esse atraso pode ter impacto direto na capacidade de capturar oportunidades em momentos de alta demanda global. Ele destaca a importância de o setor se apressar nessa adequação. “As empresas que agirem agora estarão definindo os padrões do setor para os próximos dez anos e construindo vantagens competitivas difíceis de replicar. A inteligência artificial no turismo é uma realidade presente que a América Latina ainda tem tempo de abraçar com protagonismo, mas esse tempo não é infinito”, alerta.
