Recorde preocupante

Quase um terço das famílias com dívidas atrasadas em BH não têm como pagar

De acordo com a Fecomércio MG, longos períodos de inadimplência resultam em perda do poder de compra e queda no consumo, comprometendo a economia local

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Cerca de 65% das famílias de Belo Horizonte estão com contas atrasadas. Destas, 31,2% não têm condições de quitar as dívidas. Trata-se do maior percentual registrado em toda a série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), aplicada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) desde 2014. 

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Entre as famílias belo-horizontinas que têm contas pendentes, 51,2% estão com pagamentos atrasados há mais de 90 dias. O tempo médio de inadimplência é de 67 dias. Para 45,2% das famílias, o tempo de comprometimento com a dívida é superior a um ano, e a média é de 8,1 meses. Em 44,5% dos casos, o percentual da renda familiar comprometido com dívidas fica entre 11% e 50%, com média de 33,8%.

A análise regional da pesquisa de julho de 2026 da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Minas Gerais (Fecomércio MG), afirma que, embora o percentual de endividados tenha permanecido elevado, na casa dos 88,2%, o principal sinal de preocupação está relacionado ao agravamento da inadimplência. Isso demonstra uma deterioração da capacidade financeira de parte relevante da população da capital. 


O cartão de crédito continua sendo o principal tipo de dívida dos consumidores de Belo Horizonte, presente em 96,6% dos casos de endividamento. Em seguida aparecem os carnês de lojas (33,1%), financiamentos de veículos (9,4%), crédito pessoal (7,9%) e financiamentos habitacionais (6,3%).

"Os resultados mostram que a inadimplência passou a ser a principal preocupação. A maioria das famílias continua acessando crédito e mantendo compromissos financeiros, mas uma parcela cada vez maior enfrenta dificuldades para honrar essas obrigações. Isso ocorre em um contexto marcado por juros elevados, maior comprometimento da renda e aumento dos gastos essenciais, como alimentação, energia elétrica, transporte e outros itens que pressionam o orçamento doméstico", afirma Gabriela Martins, economista da Fecomércio MG. 


A ampliação das modalidades de crédito utilizadas pelas famílias contribui para o aumento das dificuldades financeiras observadas nos últimos meses. Ela cita como exemplo o avanço do crédito consignado, especialmente entre os trabalhadores formais com acesso facilitado ao produto, que pode gerar uma falsa sensação de folga financeira no curto prazo, mas que pode comprometer a renda mais adiante.

A economista ainda cita o aumento dos gastos associados às apostas esportivas on-line (as bets) como um complicador do equilíbrio financeiro das famílias, uma vez que disputam espaço com despesas essenciais e podem comprometer a capacidade de pagamento dos consumidores mais vulneráveis. 

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De acordo com a Fecomércio MG, a situação é mais delicada entre as famílias com renda de até dez salários mínimos. Nesse grupo, 67,2% têm contas atradadas e 32,8% afirmam não ter condições de regularizar seus débitos. Os índices são um pouco melhores nos domicílios de renda mais elevada, onde 53,4% estão com compromissos em atraso e 22,3% acreditam que não têm condição de honrá-los.

"Quando a inadimplência permanece elevada por um longo período, há perda de poder de compra, maior dificuldade de acesso a novas linhas de crédito e redução do consumo das famílias. Como Belo Horizonte possui uma economia fortemente baseada nos setores de comércio e serviços, esse movimento merece acompanhamento constante, pois afeta diretamente o dinamismo econômico da capital", analisa Gabriela Martins.

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