O nível de endividamento do brasileiro em maio atingiu seu recorde na série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). 


O percentual de famílias que relataram possuir dívidas a vencer — como cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal e financiamentos — naquele mês foi de 81,6%.  



O percentual de inadimplência em maio foi de 29,9%, enquanto o percentual de famílias que relataram não ter condições de quitar as dívidas em atraso ficou em 12,3% pelo terceiro mês consecutivo.

Ao mesmo tempo, desde o mês de abril, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central vem reduzindo a taxa básica de juros. Foram três cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual que levaram a taxa Selic de 15% para 14,25%.

No entanto, a última ata do Copom divulgada na terça-feira (23/6) sinaliza uma piora no cenário de inflação que pode interromper novos cortes na taxa Selic.

A questão que surge ao “cruzar” a queda da Selic com o recorde de endividados é se o cenário se mostra favorável para a renegociação de dívidas.

"O ambiente macroeconômico de crescimento ainda resiliente, combinado com a deterioração das expectativas de inflação, sugere um cenário de juros elevados por mais tempo. Nesse contexto, eventuais reduções adicionais da taxa de juros devem ter impacto apenas marginal sobre as condições de renegociação de dívidas”, acredita o economista Rodrigo Ashikawa, da Principal Asset Management.

Para ele, iniciativas do governo, como o programa Desenrola, contribuem para facilitar a renegociação, sobretudo para determinados segmentos da população. Segundo Rodrigo, a ampliação desses estímulos tende a sustentar a demanda e manter a economia aquecida, reforçando o cenário de juros elevados por mais tempo.

De acordo com Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, a redução da Selic contribui para melhorar o ambiente de crédito, mas os ajustes promovidos até o momento ainda são insuficientes para alterar de forma relevante as condições de renegociação das dívidas.

“A taxa básica permanece em um patamar restritivo e as condições oferecidas pelas instituições financeiras continuam refletindo, além do custo de captação, prêmios associados ao risco de crédito. Do lado das famílias, a capacidade de pagamento continua sendo um dos principais condicionantes para o avanço das renegociações”, disse Camila, explicando que o comprometimento da renda com dívidas permanece em um patamar historicamente elevado e que uma eventual reaceleração da inflação tende a reduzir ainda mais o espaço no orçamento das famílias para assumir novos compromissos financeiros.

“A queda da Selic ainda não impacta de forma relevante o consumidor que busca renegociar dívidas. A redução foi pequena e, por isso, tende a produzir pouco efeito nas condições oferecidas pelo mercado”, analisou Marcelo Higuchi, gerente sênior de estratégia da 99Pay.

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Para quem precisa reorganizar as finanças, ele indica iniciativas voltadas à renegociação que não dependem diretamente da variação da taxa básica de juros e podem ajudar o consumidor a recuperar o controle do orçamento. “Mesmo após a renegociação, é importante que o consumidor pesquise soluções que auxiliem a organizar as finanças e manter o controle dos gastos”, aconselhou Marcelo.

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