Barão de Cocais desenvolve projeto que reduz tráfego de caminhões na cidade
Proposta da prefeitura prevê utilização de quatro terminais ferroviários que já existem para distribuir com mais eficiência o transporte do minério da região
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Os moradores de Barão de Cocais, município que pertence ao Colar Metropolitano de Belo Horizonte, a cerca de 100 quilômetros da capital, reclamam dos impactos do rápido crescimento da mineração na cidade nos últimos anos. Apesar de reconhecer a importância da geração de empregos e renda na região, os moradores têm feito constante pressão no município para diminuir os impactos causados principalmente pela logística rodoviária utilizada pelas mineradoras para escoar a sua produção.
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O município e sua região sempre estiveram envolvidos com a mineração, com minas como o Gongo Soco (em descomissionamento) e Brucutu, que pertencem à Vale. No entanto, nos últimos cinco anos, a empresa cedeu sua licença para explorar algumas minas na região para mineradoras de menor porte, que geralmente vendem esse minério para a própria Vale.
Glace Ibraim dos Santos Oliveira (57) é presidente da Associação Comunitária do Castro, um dos bairros de Barão de Cocais. A produtora rural relata que os moradores do Castro são obrigados a circular, de carro ou caminhando, em meio às carretas, sendo que alguns motoristas acabam ignorando as sinalizações.
A Via no Minério é uma alternativa que minimiza os impactos causados nas comunidades, mas não resolve o problema como todo. Outros bairros também sofrem bastante, como o Dois Irmãos e o Garcia, por estarem na entrada da cidade. “Da forma como está sendo feito hoje, todos esses caminhões acabam atravessando toda a cidade aumentando o nosso transtorno”, disse a presidente da associação.
Moradora do bairro Castro há 18 anos, Iderlane Cristina da Conceição (51) viu a saúde de sua família ser afetada a partir do barulho e sujeira causados pelo intenso tráfego de caminhões, além do próprio CDB. Para aliviar o sofrimento, ela e a neta passam alguns dias da semana na casa de uma filha, em Belo Horizonte. Relatos como este são comuns entre os moradores que cobram uma solução definitiva às autoridades.
Projeto prevê redução significativa do tráfego na cidade
A partir das demandas da população, a Prefeitura de Barão de Cocais desenvolveu um projeto para reduzir significativamente o tráfego de caminhões. Como a Estrada de Ferro Vitória a Minas passa pela cidade, a ideia é utilizar quatro terminais ferroviários que já existem para distribuir com mais eficiência o transporte do minério produzido por cada empresa. Um exemplo é a operação do Grupo AVG, que poderia entregar sua produção no terminal de Brucutu, da Vale, bastando atravessar a rodovia MG-436. Hoje, esses caminhões precisam atravessar toda a cidade para descarregar no CDB.
Outro exemplo mais extremo é o da MSA Trindade Mineração, que poderia embarcar seu minério no terminal do CDB, a seis quilômetros da mina - ou no terminal 206 que está a menos de um quilômetro - mas atravessa toda a cidade assim como a BR-381 e o Anel Rodoviário de Belo Horizonte - para desembarcar no município de Sarzedo, a 126 quilômetros.
“Querendo ou não, tudo isso passa pela Vale. Eu apresentei a eles esse mapeamento mostrando que existem outras alternativas que precisam ser estudadas para que não impacte a cidade desse jeito. Não porque somos contra a mineração, mas a gente também precisa cuidar das pessoas e da cidade”, explicou Leandro Aguiar Rabelo, secretário de Meio Ambiente de Barão de Cocais.
“A mineração em Barão cresceu muito rápido. Pegamos a prefeitura no início do ano passado com milhares de carretas passando diariamente pela cidade, tirando qualidade de vida e o sono das pessoas. A prefeitura está tendo que tirar do CFEM (Compensação Financeira pela Exploração Mineral) para pagar o impacto que a mineração faz aqui dentro. E ainda temos entre 12 mil e 15 mil pessoas que vieram trabalhar aqui, causando um impacto muito alto na Saúde, Educação e Segurança”, disse Geraldo Abade (PSD), prefeito do município.
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Ele frisa que é a favor da mineração, que gera emprego e renda, além de movimentar o comércio, mas ressalta que a prioridade é a qualidade de vida da população. Mas, o prefeito acredita que é possível conciliar as duas coisas. “Também não queremos cortar o serviço dos caminhoneiros daqui. Eles podem desempenhar a mesma função e até outras. Estes caminhões podem tirar rejeitos trabalhando dentro das minas. É uma mudança de logística, não é para tirar o emprego de ninguém”, completou Abade.
O prefeito ainda afirma que este tráfego intenso, e com tendência de aumentar, só pode ser resolvido com o uso da rede ferroviária e dos terminais já existentes no município, que possuem capacidade ociosa e suficiente para suportar os volumes produzidos por estas novas mineradoras.
Paralelamente a essas discussões, o vereador Tico Santos (PMN), presidente da Câmara Municipal de Barão de Cocais, explica que a cidade vem tentando implementar planos de ação para que o tráfego da mineração não deixe a cidade tão suja: o transbordo de pessoas depois da mina para que os ônibus cheguem limpos à cidade; pavimentação dos pátios; não deixar os carros administrativos rodarem dentro das minas; e a instalação de lava-rodas. Ele acrescenta que também foi proibido o tráfego de caminhões entre as 22h e as 7h.
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“Tenho muita expectativa que o compliance da Vale possa analisar e ajudar a população de Barão de Cocais a ter uma qualidade de vida boa, tranquila e sem problemas, como a gente sempre teve. O Marcelo Klein, representante da Vale, viu de perto esses impactos e foi muito receptivo. Tenho uma boa expectativa sobre o retorno da Vale”, comentou Abade. Consultada pela reportagem, a Vale informou que segue aberta ao diálogo com o poder público para discutir iniciativas que promovam o desenvolvimento sustentável do município.