Fiemg: conflito EUA/Irã pode elevar custos logísticos e pressionar energia
Primeiros efeitos do conflito serão o aumento do custo da logística, a elevação dos seguros marítimos e a ampliação do tempo de transporte de mercadorias
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O aumento do custo da logística, a elevação dos seguros marítimos e a ampliação do tempo de transporte de mercadorias podem ser os primeiros efeitos da escalada do conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irã para Minas Gerais. A análise é do Centro Internacional de Negócios (CIN) da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Acrescenta ainda que a pressão sobre os preços internacionais do petróleo pode que aumentar os custos de energia e de transporte, impactando as cadeias produtivas.
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Além do Irã, no epicentro do conflito, outros países banhados pelo Golfo Pérsico - como Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrein - têm bases americanas que já foram atacadas. E são justamente os atritos nesse corredor - sobretudo no Estreito de Ormuz, faixa marítima com cerca de 33 quilômetros (em seu trecho mais estreito) onde circula aproximadamente 20% do petróleo mundial - que ligam o alerta das suas consequências para a economia.
Dados da Fiemg apontam que o fluxo comercial de Minas Gerais com os países envolvidos no conflito é expressivo. Considerando Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Omã, Bahrein, Iraque, Irã, Catar, Israel, Kuwait, Líbano e Síria, o estado registrou US$ 13,85 bilhões em exportações entre 2021 e 2025, o que representa cerca de 6,7% das exportações totais mineiras.
No mesmo período, as importações de Minas Gerais provenientes desses países somaram aproximadamente US$ 1,64 bilhão, cerca de 2% do total importado. De forma agregada, o estado exporta principalmente minério de ferro, açúcar, produtos siderúrgicos e itens do agro (como carnes, soja, café e milho), enquanto importa insumos industriais e agrícolas, com destaque para enxofre e fertilizantes.
No recorte específico do Irã, Minas Gerais exportou US$ 610,7 milhões entre 2021 e 2025, com predominância de soja (75,4%) e milho (14,6%), enquanto as importações somaram aproximadamente US$ 2,6 milhões. “O cenário internacional exige atenção permanente. O aumento do risco já afeta seguros, fretes e expectativas de preços. Para Minas Gerais, isso pode significar maior custo logístico nas exportações e pressão sobre energia e combustíveis, fatores que impactam diretamente a competitividade da indústria”, afirmou Flávio Roscoe, presidente da Fiemg.
De acordo com Verônica Winter, coordenadora de Facilitação de Negócios Internacionais da Fiemg, os países envolvidos nesse conflito, direta ou indiretamente, são relevantes para as nossas exportações em conjunto, mas não são nossos principais compradores isolados nos produtos citados. Ela cita como exemplo a soja: o Irã é o nosso terceiro principal importador, somando US$ 460 milhões entre 2021 e 2025, o que acaba sendo um número pequeno perto da China, nosso principal comprador do grão, que “gastou” US$ 11,87 bilhões no mesmo período.
Outro exemplo é o minério de ferro. Enquanto o Bahrein é o nosso segundo maior comprador, com US$ 5,8 bilhões, e Omã o terceiro, com US$ 3,19 bilhões, a China lidera com nada menos que US$ 49,25 bilhões. “Ainda não temos como mensurar o impacto direto em termos de valor de redução ou aumento de cada um desses produtos da balança comercial mineira considerando que os desdobramentos ainda estão em curso”, disse a coordenadora da Fiemg.
“Para a importação, é a mesma coisa. São produtos essenciais para o agronegócio, mas são produtos que a gente tem em estoque. Então, vai depender do prazo. Se o conflito se estender, em médio ou longo prazo pode afetar o fornecimento e impactar o agronegócio. Mas, também não são nossos principais fornecedores desses produtos”, analisou Verônica. Ela citou o caso dos cinco maiores exportadores de fertilizantes nitrogenados para o Brasil, em que o Catar e Omã estão, respectivamente, na segunda e quinta colocação, mas o produto ainda é fornecido pela Rússia, China e Nigéria.
De acordo com a Fiemg, mesmo sem o anúncio formal de fechamento do Golfo Pérsico, o aumento do risco geopolítico já tem provocado cautela operacional por parte das empresas que operam o transporte marítimo comercial de cargas com elevação do seguro de guerra e a redução no fluxo de navios na região. Sobre a expectativa de pressão sobre os preços internacionais do petróleo, a federação cita como atenuante o anúncio da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP+) de aumento de produção a partir de abril de 2026.
Ainda de acordo com a Fiemg, o conflito também começou a gerar efeitos nas rotas aéreas e conexões internacionais. Companhias aéreas tendem a evitar determinados espaços aéreos e hubs estratégicos da região, como Dubai, Doha e Abu Dhabi, o que já provoca cancelamentos e retenção de passageiros em conexões na Ásia. Tensões envolvendo Dubai ainda podem comprometer arranjos operacionais utilizados para comércio e pagamentos internacionais, elevando a incerteza e o custo das transações.
Assim como Minas Gerais, o Brasil também mantém relação comercial relevante com os países do Golfo e do Oriente Médio. Entre 2021 e 2025, as exportações brasileiras para esses mercados somaram US$ 73,84 bilhões, o equivalente a cerca de 4,5% das exportações totais do país no período. A pauta é concentrada em carnes, açúcar, milho, soja e minério de ferro.
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Nesse mesmo período, as importações brasileiras provenientes da região somaram aproximadamente US$ 42,87 bilhões, cerca de 3,3% do total importado pelo país, com destaque para combustíveis minerais e fertilizantes oriundos principalmente da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Omã. Essa dependência reforça a sensibilidade da economia nacional a eventuais disrupções logísticas ou oscilações de preços no Golfo Pérsico.