ARY QUINTELLA

Ponto de inflexão nas relações entre Brasil e Malásia

Em sua coluna de estreia, diplomata e escritor afirma que, Na verdade, por mais distantes que possam parecer em termos geográficos, Brasil e Malásia compartilha

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Em 20 de novembro, aterrissei no Rio de Janeiro, vindo da Malásia, para o lançamento de meu livro de ensaios, “Geografia do tempo”. Da porta do apartamento onde moro em Kuala Lumpur à porta da minha mãe no Rio, a viagem durou quase 30 horas, o que dá a noção da distância física entre os dois países.

Encontrei o Rio de Janeiro sublime de beleza e alegria. Havia um ar de tranquilidade nas ruas, que atribuí ao fato de que, na véspera, encerrara-se na cidade a Cúpula do G20.

Do Brasil ao Sudeste Asiático existem, dependendo de como olhamos para o mapa, dois oceanos para cruzar ou um continente inteiro e um oceano. Para um brasileiro, o Sudeste Asiático pode parecer uma abstração, de tão longínquo.

Na verdade, por mais distantes que possam parecer em termos geográficos, Brasil e Malásia compartilham várias características que favorecem uma aproximação natural de interesses.

Ambos são multiétnicos e multiculturais. Ambos conseguiram manter intacta uma parte significativa de sua cobertura florestal original e são países megadiversos. O presidente do Brasil e o primeiro-ministro da Malásia ambos trabalham para que a voz do Sul Global seja ouvida mais fortemente, com o objetivo de ajudar a criar uma ordem internacional mais justa.

O comércio bilateral é dinâmico. A Malásia foi, em 2023, o 16º maior destino global das exportações brasileiras e o 9º maior superávit em favor do Brasil. Vendemos mais para a Malásia do que para a maioria dos países sulamericanos e europeus.

O ano de 2024 provou ser extremamente movimentado para o aprofundamento, em várias áreas, das relações entre o Brasil e a Malásia.

A Malásia não é membro do G20, mas seu primeiro-ministro, Anwar Ibrahim, participou da Cúpula a convite do presidente Lula.

Naturalmente, o ponto mais alto no diálogo entre os dois países foi atingido no dia 17 de novembro, no Rio de Janeiro, quando o presidente do Brasil e o primeiro-ministro da Malásia se reuniram às margens da Cúpula do G20. O encontro bilateral confirmou o bom entendimento entre os dois líderes, que já ficara patente meses antes, em 9 de fevereiro, quando mantiveram uma conversa telefônica particularmente cordial.

A intensa atividade diplomática desenvolvida nos últimos dois anos, pode-se dizer, facilitou a reunião de 17 de novembro, e preparou o seu êxito. Da mesma maneira, a reunião no Rio de Janeiro legitimará os próximos passos.

Sobretudo, ao agradecer no Rio ao presidente Lula o convite para participar da Cúpula do G20, o primeiro-ministro Anwar Ibrahim retribuiu convidando-o a participar em Kuala Lumpur, este ano, da Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), que a Malásia preside em 2025. Pela primeira vez, um presidente brasileiro participará da Cúpula da ASEAN, uma das regiões economicamente mais dinâmicas do mundo, e cuja situação geográfica a torna um dos epicentros da rivalidade entre a China e os Estados Unidos.

Foram estabelecidas, ao longo de 2024, as condições para que a relação entre os dois países se aprofunde em 2025, com a Malásia presidindo a ASEAN e o Brasil sediando a COP30 e presidindo o BRICs, de que a Malásia se tornou, há poucas semanas, país-parceiro.

Aproximar-se da Malásia é aproximar-se da ASEAN.

Em entrevista que concedi, em 13 de dezembro, ao programa de rádio mais valorizado pelos formadores de opinião e a classe política da Malásia, “The Breakfast Grille”, fui perguntado pela entrevistadora sobre como a já importante troca comercial e de investimentos poderia ser incrementada ainda mais. Respondi que falta apenas vencer um estado de espírito hesitante, causado pela distância física. A mesma observação é válida para todas as áreas, não apenas a comercial.

Muitas das iniciativas da Embaixada do Brasil em Kuala Lumpur ao longo de 2024 tiveram o propósito de vencer a barreira psicológica que a distância geográfica pode causar.

No futuro, 2024 será certamente visto como um ponto de inflexão nas relações entre o Brasil e a Malásia, o ano em que se tornou claro o quão frutífera pode ser a amizade entre os dois países, o quão próximos eles  podem ser.

Agradeço ao jornal Estado de Minas, com felicidade,  o convite para manter em suas páginas uma coluna quinzenal, de que esta é a primeira.

Ary Quintella, diplomata de carreira, é desde janeiro de 2020 embaixador do Brasil na Malásia. Publicou, em novembro, pela editora Andrea Jakobsson Estúdio, o livro de ensaios “Geografia do tempo”. Mantém uma página pessoal no endereço eletrônico aryquintella.com. As opiniões expressas nesta coluna são de responsabilidade exclusiva do autor.



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