Irmãos gays encontram realização ao investir em café LGBT+
Café mineiro Nhaí tem ganhado espaço nas cafeterias de São Paulo e leva representatividade para o agro
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Os irmãos Filipe Campos Mendonça, de 32 anos, e Tiago Campos Mendonça, de 30, viram na produção de café a oportunidade de mudar de vida. Em um mercado tão tradicional, eles apostaram na própria identidade para criar o Café Nhaí, voltado para o público LGBT+.
O caminho para a criação da marca própria passou pelo retorno às origens, pelo autoconhecimento e pelo momento decisivo de se assumirem gays para a família. Depois de altos e baixos, a venda mensal de apenas 40 pacotes de café em 2024, quando a marca foi criada, passou para cerca de 4 mil em 2026.
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"Começar a empreender é muito difícil, ainda mais um produto LGBT, porque eu acho que quando você levanta a bandeira da comunidade a gente dá a cara a tapa. Além de ser cobrado pela qualidade do café, ainda somos cobrados pelo posicionamento. Então é bom criar essa rede, porque a gente sabe que o agro é bem fechado, machista e homofóbico, mas eu acho que a gente pode, aos poucos, mudar esse cenário e criar uma comunidade dentro do agro", declara Tiago.
Tudo no tempo certo
O caminho até a criação do Café Nhaí está entrelaçado com a própria história de Felipe e Tiago. Naturais de Três Pontas, no Sul de Minas, eles cresceram na fazenda Esperança, onde o pai cultiva café até os dias de hoje. Porém, a família sempre os incentivou a estudar e buscar construir uma carreira em outras áreas o que, por um tempo, realmente aconteceu.
Felipe se formou em direito e fez um intercâmbio para a Austrália, onde morou por um ano e meio. Do outro lado do mundo, fez a primeira tentativa de mudar de ramo e investiu em uma formação em comércio internacional. Mas, para ele, ainda não tinha encontrado sua vocação.
"Desde quando a gente era pequeno tinha aquela história de ‘café a preço de banana’, que não compensava viver disso. Então comecei a estudar para o mercado financeiro, trabalhei em cooperativa de crédito, depois acabei indo para um desses bancos tradicionais. Só que eu vi a minha vida virar um inferno no banco. Eu falei: 'Eu não sirvo para trabalhar num lugar desse'", relembra.
Durante a pandemia de COVID-19, em 2021, Felipe decidiu passar um tempo na fazenda dos pais. Entretanto, por ter crescido em uma família muito unida, esconder a sua sexualidade passou a ser um peso: "Eu já não aguentava, vivia doente. Acho que quando a gente não fala, o corpo grita e o meu corpo gritava em todos os sentidos."
Foi então que, depois de muita terapia, Felipe e Tiago se uniram para contar para os pais que eram gays. A revelação aconteceu durante um almoço e, para alegria dos irmãos, eles foram acolhidos.
"A nossa família é muito religiosa, então a gente sempre teve um receio de assumir e de não ser aceito. Então a gente demorou muito tempo para criar coragem. A gente foi conversando e se apoiando. Quando a gente contou eles foram muito acolhedores. É lógico que eles também tiveram que ter o processo deles de entender que a gente não ia mudar como pessoa pessoa", conta Tiago.
Depois da aceitação da família, Felipe largou o emprego no banco e decidiu ficar na roça. Já Tiago se formou em engenharia de energia. Diferente do irmão, ele divide o coração entre a engenharia e o empreendedorismo. Com o Café Nhaí crescendo, o engenheiro vislumbra um futuro onde precisará focar inteiramente na marca.
Recalculando a rota
Apesar de ter ido passar um tempo na Fazenda Esperança para descansar da correria da cidade, ele não ficou parado. Uma vez que a mão de obra estava escassa na época, o acordo com o pai era que o filho ajudaria na produção do café trabalhando na plantação.
Essa experiência pavimentou o caminho para a criação do Café Grão Esperança, a primeira marca criada pelos irmãos. O nome é uma homenagem à fazenda da família. "Thiago começou a levar uns pacotinhos de café, ainda sem nenhuma embalagem, porque o pessoal do trabalho dele pedia. Aí o pessoal começou a querer comprar sempre, aí a gente falou assim: 'Então vamos criar uma marca de café.' Criamos o Café Grão Esperança, que a gente mantém até hoje", explica Felipe.
Tiago conta que no mês do Orgulho LGBT+ lançaram uma versão comemorativa do café com adesivo de uma bandeira arco-íris colada na embalagem original. Era o primeiro vislumbre do caminho que o negócio seguiria. Enquanto parte do público abraçou a ação, outra criticou, fez piadas e as bandeiras chegaram a ser arrancadas nas lojas. "O pessoal arrancava a bandeirinha, jogava fora e a gente voltava no mercado para colar as bandeirinhas de novo. Eu pensava 'vai ter bandeirinha sim, porque é a nossa identidade'", conta.
Entretanto, os recentes empreendedores sentiam que a marca não representava a personalidade deles e, em 2024 criaram o Café Nhaí. O nome é inspirado em um cumprimento informal usado na comunidade LGBT+.
Tiago e Felipe destacam que, além do nome e da embalagem, o Café Nhaí se destaca pela qualidade herdada da experiência do pai. "Ele sempre foi muito chato com qualidade. Então, o pós-colheita era muito importante, ele sempre fez cafés com uma pontuação muito alta. Só que o meu pai sempre exportou o café junto com a cooperativa de cafés especiais e gourmet lá de Três Pontas", afirma.
Nhaí!
No início a divulgação era feita no boca a boca. Felipe ia para São Paulo, onde mora Tiago, e levava o café em uma ecobag para apresentar possíveis pontos de venda. Depois de muitos "nãos", uma cafeteria na Rua Augusta finalmente apostou no produto e passou a vender o Café Nhaí.
"Terminou a colheita, peguei o meu carrinho e fui para São Paulo com o carro carregado de café. Desci os cafés na casa do Tiago e roubaram o carro. Nunca mais vi o carro. Eu não tinha o que fazer mesmo, quando ele saía para trabalhar, eu pegava a ecobag e ia para a rua", lembra Felipe.
Com o tempo e a persistência, conquistaram espaço em outras cafeterias e nas prateleiras de uma rede de supermercados em São Paulo. Eles também vendiam o café por meio de um aplicativo de entrega, atingindo várias cidades do interior do estado.
Expandiram a presença para outra rede de supermercados e participam como apoiadores de eventos culturais, como paradas LGBT+ pelo Brasil e peças de teatro. Também investiram na criação de produtos temáticos como xícaras e coadores.
O impacto também aconteceu na vida pessoal. Amigos, em especial LGBT+, voltaram a ver o agro como uma possibilidade de futuro e estão retornando a Três Pontas para empreender.
"Eu amei juntar o agro, a roça, a nossa história e encontrar uma forma diferente de viver. Para mim tá sendo mágico", afirma Felipe. "Muita gente vem conversar com a gente e fala que voltou a se encontrar no campo. Isso é legal, um vai apoiando o outro. Muitos gays que também produzem café entram em contato com a gente e vamos trocando figurinhas", completa Tiago.
Segundo eles, hoje a empresa já consegue se pagar e todo o lucro é revertido em investimentos para o crescimento da marca. A dupla torce para que, em um futuro próximo, possam transformar o Café Nhaí em fonte principal de renda.
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Apesar de ser um sonho vender no próprio estado, infelizmente não conseguiram a mesma abertura para os produtos em Minas Gerais. Atualmente o Café Nhaí pode ser encontrado na Cafeteria Bonjour, no Bairro Lourdes, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, e nas cidades de Três Pontas e Varginha, no Sul de Minas, e Tiradentes, no Campo das Vertentes.