Entre o som da bateria e o glitter que movimentam Belo Horizonte, o carnaval da capital mineira alimenta uma multidão que não vive apenas de folia. O verdadeiro backstage da festa ganha forma nas mãos de ambulantes, que transformam isopores, chapas e carrinhos no suporte de quem anda pela cidade nos momentos de diversão. Mais do que conveniência, a gastronomia reflete a hospitalidade local, com opções que garantem que ninguém perca o ritmo por falta de energia.


Há uma preparação minuciosa que começa muito antes de o primeiro bloco colocar o pé na rua. Da escolha estratégica de ingredientes até as inovações em drinques refrescantes e lanches rápidos, os trabalhadores do carnaval, maestros da logística urbana, guardam segredos de um planejamento que exige agilidade, higiene e a malandragem necessária para saciar a fome de quem não tem tempo a perder entre um cortejo e outro.


Mais do que o trivial, entre as apostas para os dias de pico, são combinações criativas pensadas para resistir ao calor e à intensidade da maratona carnavalesca.

Mais do que conveniência, os trabalhadores do carnaval refletem a hospitalidade local e a criatividade

Marcos Vieira/EM/D.A Press


São esperados 6,5 milhões de foliões em BH, entre 31 de janeiro e 22 de fevereiro, segundo a Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur), que poderão acompanhar 660 desfiles de 612 blocos. A cidade tem ganhado projeção internacional e esse carnaval deve ter aumento de 2% no número de visitantes em relação ao mesmo período de 2025, que representarão 20% do total do público que estará na capital para a festa.


Entre os turistas, grande parte vem do interior de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro e, considerando os estrangeiros, há uma presença maior de pessoas de Portugal, Estados Unidos, França e Colômbia.

Vitrine para a gastronomia


“Quem está vindo para a festa também precisa comer e beber”, aponta o presidente da Belotur, Eduardo Cruvinel. “Belo Horizonte tem sido pontuada como um dos melhores destinos para se comer bem, e o carnaval é um bom momento para quem chega conhecer nossa rica gastronomia.”


Essa demanda se reflete na agenda dos espaços gastronômicos da cidade. Eduardo lembra que lugares que, geralmente, não funcionavam no carnaval, neste ano, estão de portas abertas, como o Mercado Central, o Mercado Novo e a Feira dos Produtores.


Outro dado interessante, da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), é que negócios que ficavam fechados, aproveitando o recesso para dar prosseguimento a reformas ou pequenos reparos, também passaram a operar.

'Belo Horizonte tem sido pontuada como um dos melhores destinos para se comer bem, e o carnaval é um bom momento para quem chega conhecer nossa rica gastronomia', diz o presidente da Belotur, Eduardo Cruvinel

Acervo Belotur/Divulgação


A Belotur colocou na rua a segunda edição do “Mapa Gastronômico da Folia 2026” (disponível em portalbelohorizonte.com.br), um guia que reúne diversos estabelecimentos para comer e beber durante o carnaval, desde botecos tradicionais até padarias, feiras cobertas, mercados e galerias. O objetivo é fortalecer a imagem de Belo Horizonte como um destino gastronômico de excelência.


“O tempo de permanência do visitante também aumentou. Uma oportunidade para aproveitar mais a cidade e desfrutar da comida”, diz Eduardo.

Uma dose de açúcar

Enquanto a maioria dos foliões busca por bebidas geladas para aplacar o calor, o jovem Ryan Silva Gomes, de 19 anos, aposta em um nicho mais doce para garantir o faturamento no carnaval de BH. Filho de pais que tradicionalmente trabalhavam como ambulantes no entorno do Mineirão, Ryan carrega a venda no sangue – ele começou a comercializar pipoca e paçoca na escola aos 12 anos.


Agora, o jovem formalizou o sonho: abriu seu registro de Microempreendedor Individual (MEI) e leva para as ruas sua própria marca de “banoffees” artesanais, a Gostosu. Diferentemente da tradicional torta de banana, Ryan explora o frescor. Ele aprendeu a base da receita com a tia e, há três anos, aprimora o preparo, que hoje conta com três sabores: limão (o carro-chefe), maracujá e chocolate.


A estrutura do doce é pensada para a praticidade da rua: uma base de biscoito maizena com manteiga, uma camada generosa de mousse (leite condensado, creme de leite e a fruta) e a finalização com chantili. “Sempre gostei de cozinhar e de estar entre as pessoas. Gosto muito de conversar, está no meu DNA”, afirma o jovem, que gasta cerca de quatro horas diárias entre as compras e o preparo final dos doces, contando hoje com a ajuda do primo na produção.

Ryan Gomes, da Gostosu, circula por vários blocos com uma caixa de isopor cheia de tortas de limão, maracujá e chocolate

Rafael Rocha/EM/D.A Press

Dois turnos


Embora sua rotina comum de vendas seja na Rua Padre Pedro Pinto, em Venda Nova, o carnaval está sendo o teste de fogo. Sua estratégia é simples e direta: mobilidade. Ryan pretende circular por vários blocos, entre eles o Filhos da PUC. “Onde tiver mais gente, é onde eu vou estar”, projeta.


Os doces são transportados em caixas de isopor com gelo para garantir a temperatura do mousse. O valor unitário é R$ 12, mas o combo com duas unidades sai por R$ 20.


Com uma capacidade de venda importante – 40 unidades costumam esgotar em duas horas de trabalho, ele espera vender mais de 100 potes por dia durante a folia, dividindo o expediente em dois turnos para garantir o descanso e a reposição do estoque.


“O meu maior projeto de vida é me tornar o maior empresário de Minas Gerais. Falo isso sempre, sem exagero: é um objetivo que levo até o fim da vida. Costumo brincar que, na minha lápide, só existem duas opções. Ou vai estar escrito que fui o maior empresário de Minas, ou que tentei ser até o último dia”, diz Ryan, que pretende inaugurar sua própria confeitaria.

Ideia de sucesso


Outra ideia para a gastronomia de rua no carnaval de Belo Horizonte deste ano vem de quem decidiu unir a praticidade do fast-food com a inclusão alimentar. João Pedro de Amaral, de 28 anos, deixou os livros de direito e hoje é dono de uma receita disputada: o smash burger vegano.


O que começou no fim de 2023 como uma alternativa para complementar a renda, ainda durante a faculdade, rapidamente se transformou em um empreendimento de sucesso, com a marca ¡Ay Papi!. A intenção era vender para os colegas, mas as férias chegaram e ele não parou. Aproveitou o pré-carnaval de 2024 e encontrou um mercado gigante.


Após passar dois anos circulando por festas juninas, eventos como a Festa da Luz e portas de rodas de samba e chorinho, João Pedro chega ao seu terceiro carnaval com uma operação consolidada. E o plano agora é expandir: após a folia, ele vai montar uma cozinha profissional para entrar no delivery via iFood.

João Pedro de Amaral, da ¡Ay Papi!, decidiu apostar em burger vegano para unir a praticidade do fast-food com a inclusão alimentar

Arquivo pessoal


Mesmo não sendo vegano, o jovem escolheu esse nicho estrategicamente para atingir o maior número de foliões possível. A dedicação transparece no preparo, que levou meses de testes domésticos até chegar à receita atual, que ele produz de forma totalmente artesanal. Cozinha cada elemento do sanduíche do zero.

Burger vegano


A proteína é um blend de lentilha, grão-de-bico, feijão preto, cogumelo portobelo e tofu, o queijo é feito à base de amendoim, a maionese é preparada com sementes de girassol e o pão é um brioche macio, que sustenta os ingredientes.


“No início, não estava 100% satisfeito com a receita, mas o retorno do público foi imediato. As pessoas gostaram muito e eu percebi que o que era só para ganhar um dinheiro extra tinha virado meu negócio”, revela.


A estratégia de João é certeira. Ele começa o preparo às 7h e, por volta das 13h, entra no meio dos blocos – justamente no horário em que a fome aperta para quem chegou cedo. Cada sanduíche é vendido por R$ 36. Ele leva 72 unidades por dia e o estoque costuma esgotar em apenas quatro horas.


O smash burger vegano já está presente no carnaval de 2026 desde o início de janeiro, nos fins de semana que antecederam a folia, segue pelos dias oficiais e também no fim de semana de pós-carnaval. Entre os blocos na rota de João Pedro, estão Siricotico, OriSamba, Estagiários, Truck do Desejo e Manjericão.


Animação nas alturas


Uma história que une o sotaque mineiro à dormência paraense promete ser um dos destaques do cardápio carnavalesco de Belo Horizonte. Entre um bloco e outro, os foliões já buscam o “colar” que virou marca registrada da festa: o “pingente” é uma garrafinha da cachaça Jambruna.


A mente por trás da bebida é Bruna Brandão, de 33 anos, que já atuou como fotojornalista e é DJ, e viu o caminho da vida profissional rumar pelos alambiques. Há oito anos, ela desenvolveu uma receita própria, que funde a tradição da cachaça mineira com o jambu, planta típica do Norte do Brasil, conhecida por causar uma vibração singular nos lábios.


Logo depois de cursos de destilaria e mixologia, a produção virou coisa séria e criteriosa – a cachaça deste carnaval, por exemplo, começou a ser preparada há dois anos. É envelhecida por um ano em barris de amburana antes de receber a infusão da planta.

No carnaval, Bruna Brandão, da cachaça Jambruna, reduz o tamanho da garrafa e a transforma em 'colar'

Marcos Vieira/EM/D.A Press


Bruna guarda a sete chaves os detalhes do preparo, mas conta que o jambu vem direto de fornecedores do Norte para manter a autenticidade. “É a junção do potencial gastronômico de Minas, com sua destilaria robusta e histórica, com a força da cultura paraense”, define.


Se durante o ano a Jambruna marca presença em cartas de mixologistas e prateleiras de bares e restaurantes da capital, no carnaval a operação ganha escala industrial. “A garrafinha vira um colarzinho no pescoço. No pré-carnaval, saem cerca de 100 unidades por bloco, mas, nos dias oficiais, o volume é muito maior”, conta.


Para essa temporada, a meta é vender cinco mil unidades entre o pré e o pós-carnaval. Para dar conta da demanda, Bruna escalou um time de 15 revendedores, que estão espalhados pela cidade oferecendo a clássica dose de 50ml (R$ 15).


Além de estar nas ruas com os revendedores, ela concilia a produção com sua agenda de DJ e produtora de eventos. O folião poderá encontrar a “dormência” da Jambruna em blocos como o Bloco da Bota e a festa Latino Brega Rave, ambos no Bairro Carlos Prates, Região Noroeste da capital.


Bruna também acaba de criar o Jambrunão – uma mistura pronta da cachaça com o guaraná mineiro Guaramão, servida em latinha. A novidade também circula pelo carnaval e já pode ser encontrada em pontos de venda em BH, como Mamãe Bebidas e Teresa Café, e até em outros estados.

Produção na madrugada


Se o carnaval de Belo Horizonte se profissionalizou e cresceu, quem estava lá no início garante que o segredo para aguentar a maratona é o estômago forrado com sabor de casa. Veterana da folia, Alexandra Fonseca, de 48 anos, acompanha o movimento desde quando os bloquinhos da Savassi eram apenas o embrião do que a festa se tornou hoje. Com 20 anos de experiência como ambulante, ela traz receitas que atravessaram gerações.


“Aprendi tudo com a minha mãe, que teve barraca no Ceasa por muito tempo”, conta. Acostumada com o circuito de festas juninas da capital, Alexandra decidiu levar os quitutes das quadrilhas para os blocos. O cardápio é afetivo e reforçado: milho verde cozido (R$ 12), mingau de milho (R$ 15) e pamonha (R$ 20).


A logística é pensada para garantir o frescor que o público exige. A rotina de Alexandra começa quando a maioria dos foliões ainda nem foi dormir. Às 2h da madrugada, inicia o expediente (tudo é feito no próprio dia). Às 6h, o carro já está na rua pronto para as primeiras concentrações. Ela conta com o apoio do marido, do filho e de dois amigos.


Por dia, Alexandra comercializa cerca de 120 espigas de milho, 100 potes de mingau e 70 pamonhas. “O folião encontra tudo fresquinho, feito na hora”, diz.


Este ano, o otimismo é alto. “O carnaval de BH vai ser um estouro”, aposta. Além de circular por redutos tradicionais na cidade, como Sion, Concórdia e União, acompanhando cortejos como o Truck do Desejo e o Pisa na Fulô, ela também está presente em evento fechado na Praça da Estação.


De olho no mercado de bebidas, Alexandra oferece ainda drinques em lata (entre R$ 20 e R$ 25) e lança um desafio audacioso para as grandes marcas. “Nem a Ambev vai conseguir competir com os drinques de BH este ano”, brinca a vendedora, que considera o público de Belo Horizonte fiel e justo. “Em blocos onde tem muita família e criança, ninguém reclama dos preços.”

Parada estratégica


Com a experiência de quem está no trecho desde 2014, Felipe Corrêa Borba, de 52 anos, dono do food truck de hambúrguer artesanal Dip's Burger e da Food Truck BH Oficial, empresa especializada em praças de alimentação de eventos de pequeno porte a mega eventos, coordena uma frota que já faz parte do circuito gastronômico de BH. Este ano, os 18 veículos da sua rede estarão distribuídos por pontos estratégicos do carnaval: Savassi (ruas Fernandes Tourinho e Antônio de Albuquerque), Floresta (ruas Sapucaí e Itambé), Avenida Francisco Sales, Pampulha, Sion e Santo Antônio.


“Conseguimos servir as pessoas que vêm para o carnaval com comida boa, bom atendimento e, claro, também ganhar algum dinheiro. Novembro e dezembro são meses em que os eventos param. O carnaval é o momento em que começamos a nos recuperar”, pontua Felipe, que também é presidente da Associação Mineira de Food Trucks (AMOFT), a primeira associação de grandes food trucks e beer trucks de Minas Gerais, com 28 produtores.

Para quem for encarar a folia, o destaque do food truck Dip's Burger é o BBQ Bacon, com hambúrguer artesanal, queijo, bacon caramelizado, barbecue e um molho especial da casa com toque de alho e defumado

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press


O cardápio é democrático, com pratos clássicos, opções para quem procura se alimentar com praticidade, os que buscam mais sustância e para quem prefere sobremesas e snacks. São hambúrgueres artesanais, hot dogs e fritas, pizzas, espetos, empanadas, cone de coxinha, macarrão na chapa e à bolonhesa, churros, açaí e pipoca.


A estimativa é de que cada truck venda entre 800 e duas mil porções por dia, dependendo do segmento. No caso específico do Dip's Burger, Felipe espera produzir uma média de mil porções diárias. Para ele, o setor é uma vitrine. “É um jeito de as pessoas conhecerem a gastronomia mineira, atraindo ainda mais gente para o nosso carnaval”, afirma.


A relação de Felipe com a cozinha vem de família – ele é sobrinho de chef e neto de uma cozinheira de mão cheia. Embora tenha trilhado caminho na publicidade e no design, a paixão pela culinária falou mais alto em 2009, quando abriu um restaurante em Trancoso, na Bahia. De volta a Minas, passou por hamburguerias físicas até apostar na mobilidade dos food trucks em 2014.


Para quem for encarar a folia, o destaque do truck de Felipe é o BBQ Bacon, receita própria feita com hambúrguer artesanal (150g), queijo, bacon caramelizado, barbecue e um molho especial da casa com toque de alho e defumado. No carnaval, o sanduíche sai por R$ 25. Já o hot dog custa R$ 18 e a batata frita, R$ 10 (200g) e R$ 20 (350g).

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Os trucks já estão na ativa desde janeiro e vão até o pós-carnaval. São um braço da gastronomia itinerante que se tornou um serviço essencial para a infraestrutura turística da cidade, e não apenas um puxadinho de comida.

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