BH puxa o bloco dos drinques prontos, que esperam crescimento no carnaval
Com o estímulo da folia, capital mineira se consolida como polo de produção de bebidas prontas para beber – as chamadas RTDs
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Com a chegada do carnaval, os holofotes iluminam os drinques em lata, afinal, são uma opção prática e segura para quem quer curtir a folia nas ruas da cidade. Belo Horizonte e Minas Gerais vêm se consolidando como grandes polos desse setor que, a cada ano, parece ganhar ainda mais força. Pelas nossas mãos passaram mais de 50 latinhas de marcas mineiras nos últimos dias.
Esse crescimento constante mostra que há espaço para diversos perfis de drinques e empresas e que a concorrência é, sim, saudável. Justamente por isso, o setor dos RTDs – sigla derivada do inglês que pode ser traduzida como “prontos para beber” – aposta na união. Produtores mais consolidados apoiam os menores e mais novos. Muitos, inclusive, são produzidos nas mesmas fábricas e compram insumos e embalagens dos mesmos fornecedores.
André Leonel, sócio da distribuidora de bebidas Boozen e um dos fundadores do concurso de drinques prontos Brasil RTD Cup, conta que, logo quando decidiu abrir a empresa, percebeu o potencial e o diferencial desse mercado.
“Começamos a conversar com pequenos produtores de RTDs porque muitos não conseguiam estar em grandes mercados e sequer tinham sites próprios”, diz, explicando que tentou trabalhar com a venda de cervejas, mas que não foi possível ter preços melhores em relação aos supermercados.
Logo, o que começou a se desenvolver foi uma relação de parceria entre quem distribui e quem produz. Hoje, André tem um grupo em que conversam sobre fornecedores, vendas, produção etc. “A turma dos drinques prontos é uma turma jovem que acredita no produto. Eles sabem que o mercado é gigantesco e que cada um tem o seu consumidor ideal”, destaca.
Atualmente, a Boozen tem como principal produto (em termos de faturamento) o chope. “O que acontece é que os drinques prontos funcionam como uma vitrine. O cliente nos conhece por conta da variedade de RTDs, aprova o serviço [que é exclusivamente on-line] e compra outros produtos, em especial, o chope.”
Ano de novidades
Com tantos novos produtos, 2026 se firma como um ano de novidades no setor dos drinques prontos, seja de lançamentos de marcas que acabaram de chegar ou das já consolidadas, como é o caso da bebida Chablauzin, da Equilibrista.
Com base de vodca, chapéu de couro, guaraná e limão siciliano, a mistura promete um sabor singular. “A gente queria criar um drinque com foco em ingredientes brasileiros e queríamos apostar no chá, já que enxergamos um crescimento mundial no consumo dessa bebida. O Chablauzin é muito diferente de praticamente todas as bebidas alcóolicas e não alcoólicas do mercado”, conta Guilherme Drager, sócio-diretor de comunicação e eventos da Equilibrista.
O portfólio de sucesso da marca, com mais de 10 anos no setor, conta ainda com o Gingibre, feito com gim, gengibre e limão; a Rubra, que é um bitter (categoria que engloba bebidas como o Campari) com laranja; e a Veneta, composta por vodca, frutas vermelhas e hortelã.
Produção cigana
Além de ser referência nos drinques prontos (tendo surgido na mesma época do icônico Xeque Mate), a Equilibrista também está por trás (ao lado de outros sócios) da Envasarte, fábrica que produz e envasa exclusivamente drinques prontos. Eles oferecem, ainda, o serviço de criar uma receita exclusiva baseada nos desejos e gostos do cliente.
“Essa produção cigana também ajuda a otimizar a fábrica, significa vender o nosso tempo ocioso”, conta Guilherme, chamando a atenção para o fato de a Equilibrista usar a Envasarte também para a fabricação dos próprios produtos.
Três sabores
Quem também está por trás desse hub de produção é Matheus Camargos, sócio da marca The White Rabbit. Desde 2022, a empresa vende seus drinques inspirados no clássico de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas”.
Os primeiros sabores de bebida lançados foram o Mestre Gato, de açaí com cereja, cranberry e gim; e o Chapeleiro, feito com gim, manga, abacaxi e maracujá.
“Beba-me”
“A marca tem esse nome porque 'white rabbit' é o personagem que leva Alice ao País das Maravilhas e, chegando lá, ela toma um líquido dentro de uma garrafinha com uma etiqueta escrita 'beba-me'. Nesse momento, em que prova essa bebida, Alice descreve a sensação de cereja e abacaxi. Por isso, quis trabalhar com esses sabores”, esclarece Matheus.
Para o carnaval de 2026, a The White Rabbit aposta em um novo sabor, ligado a outro personagem. O Absolem é uma bebida com Curaçau Blue e coco que, assim como o personagem do filme da Disney baseado na obra de Carroll, é azul. “Acho interessante o azul, pois não vemos muito isso no mercado, o que traz identidade para a bebida.”
Com mate
Outra novidade deste carnaval é o drinque Mate Melo, que combina mate, rum, gengibre, laranja e limão. Ângelo Duarte, sócio da marca, já tem há nove anos uma empresa de drinques para eventos e se uniu à sua namorada, Sheila Lima, e ao seu cunhado, Bruno Lima, que trabalhava em uma fábrica de cerveja, para criar o drinque pronto com que sonha desde que conheceu o Xeque Mate, logo quando a bebida foi lançada.
O nome Mate Melo foi escolhido porque a primeira receita testada levava caramelo, mas era muito cara para ser feita em larga escala. Por isso, para manterem esse nome interessante, desenvolveram uma embalagem com um desenho divertido de um verdadeiro símbolo brasileiro: o vira-lata caramelo.
Aroma de cannabis
Um dos lançamentos mais inusitados é o Sky Kush Ice, da Lamas Destilaria. Dentro dessa latinha, o uísque se une ao limão e aos terpenos, que são compostos aromáticos naturais presentes em diversas plantas, inclusive na cannabis. Vale destacar que os terpenos e, consequentemente, o drinque não possuem THC nem CBD, componentes psicoativos da maconha. A “onda”, portanto, vem apenas do álcool.
Um ponto interessante é que essa bebida tem relação com um membro da família proprietária da marca, que hoje também é um dos sócios. Lucas Lamas mora no Canadá e trabalha em uma empresa legal de produção de cannabis. “Daí surgiu a ideia de conciliar uma história familiar com um desejo da empresa de criar um drinque pronto diferenciado, tanto no olfato quanto no paladar”, enfatiza Marcos Cysne, parceiro comercial da Lamas Destilaria.
Números impressionam
Segundo levantamento do Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em Geral do Estado de Minas Gerais (SindBebidas MG), o consumo de bebidas no geral deve crescer em 2026 9% em relação ao último ano. Conforme explica o presidente da entidade, Mario Marques, quando falamos dos RTDs, os números impressionam mais: a expectativa é de um aumento nas vendas de cerca de 25% durante o carnaval. O presidente acredita que esse sucesso tem relação com diferentes fatores.
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“Além da facilidade e praticidade, acho que nós estamos produzindo bebidas de muita qualidade e investindo também em inovação. Minas já tem uma chancela em relação à culinária, destaca-se na produção de cervejas e agora é referência no setor de drinques prontos.”
Carnaval sem os gigantes
Não se pode ignorar a informação de que, até o fechamento desta edição, o carnaval de Belo Horizonte não tinha um grande patrocinador do setor de bebidas, como já ocorreu em muitos anos anteriores. Sem o contrato de exclusividade de venda com gigantes do mercado, há mais espaço e visibilidade para os menores e para a diversidade de opções, favorecendo o público em geral, o ambulante que escolhe no que investir e o mercado, que pulsa ainda mais.
Cada detalhe importa
Já imaginou o que leva uma pessoa a escolher, entre tantas opções, determinado produto na gôndola do mercado ou no carrinho do ambulante? Embalagem, nome, sabores e preço são alguns dos fatores que certamente interferem nessa decisão. Por isso, ao criar uma marca de drinques prontos em um cenário de tanta variedade, cada pequeno detalhe importa para que uma bebida seja reconhecida e, no fim das contas, escolhida. As marcas precisam ter identidade, despertar curiosidade e atender às expectativas. Tudo isso, certamente, é um desafio.
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino