Marina de Moraes Filizzola Santos, ex-mulher de Leonardo Almeida Duarte, o Leo, proprietário do tradicional Restaurante do Porto, no Bairro Cidade Nova, Regiao Nordeste, de BH, que morreu em dezembro de 2023, assume o comando do restaurante para cuidar do patrimônio dos herdeiros, os filhos Gustavo e Bernardo -  (crédito: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Marina de Moraes Filizzola Santos, ex-mulher de Leonardo Almeida Duarte, o Leo, proprietário do tradicional Restaurante do Porto, no Bairro Cidade Nova, Regiao Nordeste, de BH, que morreu em dezembro de 2023, assume o comando do restaurante para cuidar do patrimônio dos herdeiros, os filhos Gustavo e Bernardo

crédito: Leandro Couri/EM/D.A Press

Recomeços e mudanças geram frio na barriga, aprendizados, desafios e levam a caminhos, se não novos, repaginados. De repente, a vida apresentou tudo isso a Marina de Moraes Filizzola Santos, ex-mulher de Leonardo Almeida Duarte, o Leo, proprietário do tradicional Restaurante do Porto, no Bairro Cidade Nova, Região Nordeste, de Belo Horizonte, que morreu em dezembro de 2023 em um acidente de motocicleta. Desde então, ela assumiu a direção da casa e aceitou trabalhar para dar continuidade a uma história de cinco décadas de sucesso e cuidar da herança dos filhos, Gustavo, de 12 anos, e Bernardo, de 10, e da enteada, Sara, de 15, que vive no Espírito Santo.    

Ela estava pronta? Preparada? Nada disso. Marina revela que "o Leo partiu numa quinta-feira, na segunda eu estava dentro do restaurante. Não foi pensado, não tinha opção, foi o que tinha de ser, não poderia ser diferente", lembra.

Marina ficou casada com Leo por 15 anos, em um relacionamento de 20, e estavam separados há um ano e meio. Ela é formada em turismo e hotelaria, com pós-graduação em gestão de empresas e finanças. No tempo em que estavam casados, ela conta que sempre esteve ao lado do ex-marido, mas como esposa e namorada que frequentava o restaurante.

"Compartilhávamos ideias, os rumos do restaurante, mas com a chegada do Gustavo e do Bernardo, decidimos, em conjunto, que me tornaria mãe em tempo integral. Assim, o Leo teria mais tranquilidade para focar 100% no restaurante e os meninos contariam com a minha presença, sem os pais trabalhando fora e na correria. Priorizamos a dedicação aos garotos. Antes, trabalhava na construção civil e também cheguei a abrir uma loja de aluguel de vestidos de dama de honra. Decisão boa para os dois".

Mesmo separados, Marina destaca que a empatia, respeito e carinho se mantiveram entre ela e Leo: "Ele estava sempre aqui em casa, convivência legal e dizia que eu era 'ferrinho de dentista', que não deixava de criticar, dizer o que precisava, então, pedia minha opinião sobre o restaurante, algum prato, nota para o arroz e assim seguíamos" .

Então, bateu à porta a fatalidade da perda do Leo: "Entrei no restaurante, tinha de entrar. Antes, minha função na vida era ser mãe. Mas Deus nos capacita e nos dá força que desconhecemos. Lembro que, na primeira reunião com a equipe, pressão gigante, alguém perguntou em que dia seria o pagamento do 13º salário. Respondi 'vou tentar, calma, acho que dou conta'. Foi quando o advogado me interpelou 'nunca mais responda 'acho que dou conta'. Você não tem opção, não pode mais chorar, tem de cuidar do patrimônio dos seus filhos e da enteada e de 20 funcionários que dependem de você. Se cair, todos caem'".

Assim, Marina fez: "O tempo de chorar ficou entre o trajeto que levo da minha casa até o restaurante, dentro do carro. Ali, choro alto, reclamo e agradeço a Deus por me capacitar e estou impressionada. Jamais imaginei ter coragem para assumir tamanha responsabilidade. Importante dizer que busquei o apoio do Saldanha (ex-sogro, pai de Leo, fundador do Porto) e ele estendeu a mão, vestiu a camisa em defesa dos netos. A parte administrativa a gente aprende, mas a alma do restaurante é outra história, e ele conhece bem. Então, mesmo lidando com sua plantação de café e a unidade do Porto, em Lourdes, ele vai na da Cidade Nova todos os dias. Nos falamos por telefone, ele me dá dicas, olha a qualidade da comida".

Além de Saldanha, para Marina a nova missão não andaria sem o apoio da equipe, dos funcionários: "Alguns estão no restaurante há 20 anos, entendem, conhecem e o que fazem pela casa me emociona. Vestiram a camisa, estou junto, mas digo sempre que confio neles e não vamos mudar nada do que o Leo fazia e dava certo. Afinal, é uma história de 55 anos".

 

Marina de Moraes Filizzola Santos assume o comando do Restaurante do Porto, na Cidade Nova, e destaca a parceria da equipe e apoio dos funcionários, alguns com 20 anos de casa

Marina de Moraes Filizzola Santos assume o comando do Restaurante do Porto, na Cidade Nova, e destaca a parceria da equipe e apoio dos funcionários, alguns com 20 anos de casa

Leandro Couri/EM/D.A Press

Marina destaca o valor da equipe, o que lhe dá segurança para dar os passos que precisa: "A cada dia procuro me especializar, ter mais conhecimento, voltei a estudar para entender sobre o negócio-restaurante, marketing, enfim, capacitação. Estou me dedicando ao máximo. Deixo os filhos na escola às 7h, vou para o restaurante, retorno às 17h para vê-los um pouco mais e, à noite, de volta ao Porto. É uma imersão, de segunda a segunda, e vou aprendendo. Faço de tudo, administro, estou na cozinha, corto cebola e lavo pratos se precisar. Só não vou temperar a comida do cliente. E olha que entrei numa época de grande movimento em sequência, Natal, Réveillon e Quaresma, uma loucura. Mas estou junto da equipe, a deixo conduzir e vamos remando juntos".

A pressão, reconhece Marina, é enorme: "Sei que os holofotes estão virados para mim. A expectativa, será que vai dar certo? Será que ela dá conta? Sim, a cobrança é grande, mas estou firme. Não entro em um lugar desconhecido, ainda que minha presença anterior tenha sido como namorada e esposa. Mas tudo vai se encaixar, procuramos fazer nosso trabalho impecável".

Mudanças no cardápio?

Uma certeza Marina mantém intacta: nada de mudança no cardápio. É a velha e certeira máxima: não se mexe em time que está ganhando.

"O Porto é um restaurante tradicional, com pratos consagrados, com cardápio consolidado, temos todo tipo de bacalhau que imaginarem e não acredito em pratos novos. Vamos manter o que tem dado certo. Agora, o que vai voltar é o open wine, a sardinhada. O Leo já abria o espaço para eventos, podemos convidar um enólogo para uma confraria e pensamos em algo voltado para as mulheres, para as mães, um dia especial, sem os filhos, para viverem horas especiais no restaurante. Aos poucos, vamos divulgá-las. Mudança pode ser na carta de vinho, que o Leo de vez em quando renovava. Além disso, ainda que as casas da Cidade Nova e de Lourdes tenham donos diferentes - Saldanha comanda a unidade na Região Centro-Sul -, elas caminham juntas, servem os mesmos pratos". 

Assim, Marina dá um passo de cada vez e muitos ao mesmo tempo. É a vida de equilibrista que toda mulher e mãe conhecem bem. E sempre atenta aos meninos: "Eles foram para a terapia, mas são fortes. Eu sou uma pessoa leve, tranquila, já passei por outras questões de vida difíceis e aprendi a lidar. Os meninos me veem nesta posição, tento blindá-los dos problemas do restaurante, um ou outro chega, mas sabem que faço tudo por eles e têm se mostrado fortes. Às vezes, um de nós choramos, mas nos abraçamos, conversamos e vamos em frente. Fizemos um pacto que falamos sempre sobre o Leo, mas sem tristeza. Ficamos juntos na cama, lembramos de casos, relembramos histórias, puxamos um assunto e isso nos fortalece e me incentiva a continuar."

Os filhos também estão sempre no restaurante. "Eles ganharam uma agenda e peço que anotem tudo, claro, do jeito deles, sobre o que gostaram ou não, o que acharam e perceberam. Então, dizem que o 'pudim é perfeito' e que 'o copo veio com pouco gelo'. E assim criam memórias, identidade e aprofundam as raízes com o restaurante, onde ficarei no comando até Gustavo, Bernardo e Sara, mesmo morando longe, não sei, assumirem. Digo aos meninos que estamos em uma fase em que precisam que eles tenham uma maturidade diferente. Não consigo mais corrigir o dever de casa, cortar as unhas, mas somos uma equipe. E desconheço um trio mais legal e bacana do que o nosso".

Os pratos preferidos

O bacalhau grelhado é prato tradicional do Restaurante do Porto

O bacalhau grelhado é prato tradicional do Restaurante do Porto

Leandro Couri/EM/D.A Press
 

Escolher o prato preferido em meio a tantas delícias não é tarefa fácil. Mas há décadas os clientes já elegeram alguns dos favoritos, estrelas do cardápio, e, claro, a família também tem aqueles de que gostam mais, que alegram a memória gustativa.

Marina destaca que o prato carro-chefe do Restaurante do Porto é o "bacalhau grelhado com arroz de Braga, assim como o bolinho de bacalhau do Porto, que é realmente o melhor. Na sequência, entre os preferidos, estão o bacalhau à Lagareiro e o Bacalhau Porto".

Ela revela que o prato escolhido por Gustavo é o "grelhado com a arroz de Braga" e o do Bernardo, o "bacalhau com natas". Já "Sarinha ama moqueca de peixe". E todos, "nunca recusam bolinho e pastel de camarão". E o seu, o que a faz feliz é o bacalhau à Lagareiro.

Para quem ainda não conhece ou para quem já degustou e quer ter um momento de água na boca (talvez, quem sabe, uma vontade de correr até o restaurante), vejam o que esses pratos especiais entregam:

Bacalhau grelhado com arroz de Braga

O campeão de vendas. O delicioso lombo de bacalhau grelhado em azeite, acompanhado de arroz com bacalhau desfiado, tomates picados, brócolis e cebola.

À lagareiro

Receita tradicional com lombo do bacalhau deitado em azeite com cebola, tomates, ovos, brócolis e batatas. Acompanha arroz branco.

Bacalhau do Porto

Lombo do bacalhau confitado em azeite, com camarões, brócolis, batata e cebola. Acompanha arroz branco.

Despedida inesperada

Marina ficou casada com Leo por 15 anos

Marina ficou casada com Leo por 15 anos

Arquivo pessoal

Vale registrar que o empresário Leonardo Almeida Duarte, de 43 anos, proprietário do tradicional Restaurante do Porto, em Belo Horizonte, morreu em um acidente no dia 14/12/2023, depois que sua motocicleta bateu em um caminhão e uma carreta, na Rodovia Fernão Dias, a BR-381, próximo a São Gonçalo do Sapucaí.

Leonardo era o herdeiro do tradicional Restaurante do Porto, fundado pelo pai dele, José da Costa Duarte, conhecido por Saldanha, em 1969.

Mais de cinco décadas

A primeira loja do restaurante foi no Bairro Santa Inês, Região Leste da capital mineira, que ganhou fama pela variedade de pratos de bacalhau português. Com o sucesso, logo se expandiu, com a abertura da primeira filial, na Rua Conselheiro Lafaiete, divisa dos bairros Cidade Nova e Sagrada Família. 

Aos poucos, o negócio cresceu e outra casa foi inaugurada, desta vez, no Bairro de Lourdes, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Mais tarde, uma pizzaria, no Barro Preto, passou a integrar a rede de restaurantes da família.

Serviço

Restaurante do Porto
Rua Conselheiro Lafaiete, 2099, Cidade Nova
@restaurantedoportooficial