“Todo o desejo dele é virar um filme da Marvel”, diz Caco Ciocler sobre Overman, o super-herói criado por Laerte nas tiras da Folha de São Paulo em 1998. “Mas ele tem que lidar com problemas daqui, com supervilões que peidam.”
Desempregado, endividado e morador de uma pensão, o personagem é a figura central de “Overman”, comédia dirigida por Tomás Portella que estreia nesta quinta-feira (22/10).
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O protagonista recebe uma proposta de emprego do governador, interpretado por Otávio Müller, para atuar na Secretaria de Segurança Pública. Aceita a oportunidade de recuperar o prestígio, mas precisa dividir o trabalho com Pâmela, a Mulher Cachorro.
A eficiência da nova parceira de Overman e a atenção que ela recebe agravam a insegurança de um homem que já não consegue administrar a própria vida.
A adaptação mantém uma contradição do personagem de Laerte: Overman tem poderes para salvar outras pessoas, mas não resolve seus problemas mais comuns. Para os realizadores, o desafio foi fazer desse sujeito o protagonista de um longa-metragem sem transformá-lo em versão nacional dos heróis de Hollywood.
“É um cara superinseguro, mas fica fingindo o tempo inteiro que é superseguro”, afirma Portella. O diretor vê no personagem um exagero das dificuldades masculinas de lidar com as regras sociais. Também identifica uma sátira ao próprio país: alguém com grande potencial que acaba empregando suas forças de maneira equivocada, às vezes contra si mesmo.
O projeto é da produtora Iafa Britz, da Migdal Filmes. “Tem como grande inimigo a burocracia, uma certa preguiça, a lei do menor esforço”, diz Britz. “E, ao mesmo tempo, é adorável, porque ele é muito transparente.”
Segundo Britz, Laerte participou de momentos decisivos, como a leitura de um tratamento do roteiro, mas preferiu manter atuação discreta.
O humor, diz o diretor, continua baseado na incapacidade de Overman de compreender as próprias atitudes. Ele se vê como herói exemplar, mas frequentemente se mostra preguiçoso e arrogante.
Já o humor político, acrescenta Portella, também procura seguir Laerte. O filme faz piadas tanto com a direita e o capitalismo quanto com a esquerda.
Para Ciocler, o problema era dar existência física a um personagem que até então se expressava em desenhos. “A tirinha não tem voz, não tem nariz. Eu tenho um baita de um nariz”, diz. O ator precisou encontrar o tom de voz e os movimentos adequados a um corpo exageradamente musculoso, moldado por um figurino de enchimentos.
Ciocler conta que, ao rever o longa, identifica cenas em que ainda procurava o personagem. Ele só encontrou o caminho quando percebeu que, como Overman, tentava corresponder a um modelo que não dominava. “Tô passando a mesma coisa que o personagem tá passando.” Foi quando decidiu incorporar a própria hesitação à interpretação. A insegurança passou a orientar a maneira como ele representava o herói.
Se Overman já tinha dificuldades de convívio nos anos 1990, a presença de uma colega competente apresenta situação especialmente constrangedora. Interpretada por Karina Ramil, Pâmela trabalha, enfrenta os problemas e recebe o reconhecimento que ele gostaria de monopolizar.
“Ela não quer ensinar nada. Ela quer fazer o dela”, afirma a atriz. “Não é uma competição.” Para Karina, a tentativa de tratar os personagens como pessoas, mesmo dentro do absurdo, foi decisiva para impedir que a adaptação se resumisse a uma sucessão de caricaturas.
A discussão sobre reconhecimento aparece de outra maneira na personagem Poline Pilsen, influenciadora digital interpretada por Maria Lucas. A atriz vê nas redes sociais a continuação das questões de vaidade e exposição que Laerte já explorava antes do surgimento dessas plataformas.
“Somos todos 'over' de alguma forma”, diz. Lucas destaca a presença de atores negros e de uma atriz trans em papéis de pessoas comuns, não de super-heróis.
Já Ésquilo (Victor Lamoglia) dispensa a reverência que o protagonista procura nos outros. Dividindo um quarto na pensão, ele conhece o super-herói longe do espetáculo de suas façanhas. “Para a galera, você é o Homem-Aranha, para mim você é o cara que mora aqui comigo”, diz o ator, resumindo a perspectiva de seu personagem.
Crítica social
Os realizadores dizem ter buscado a lógica da comédia brasileira, em vez de reproduzir a escala dos filmes americanos. “A gente não tem US$ 250 milhões para fazer um filme”, afirma Portella. O diferencial de “Overman” está no humor adulto, na crítica social e nas piadas escrachadas.
Britz, a produtora, espera atrair leitores de Laerte, fãs de quadrinhos e interessados num super-herói brasileiro. Ela recupera uma definição de Portella: “Quando Deadpool encontra Macunaíma”.
A equipe organizou sessões de teste com espectadores jovens durante a montagem. Foram convidados adolescentes e pessoas com menos de 20 anos. Os comentários fizeram a produção repensar escolhas que poderiam agradar apenas aos próprios realizadores. (Ivan Finotti)
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