Uma anotação de Leonardo da Vinci (1452–1519) no manuscrito "Madrid Codex II", preservado na Biblioteca Nacional de Espanha, revelou um princípio científico sobre durabilidade: "eles serão mais bem preservados se forem descascados e superficialmente carbonizados do que de qualquer outra forma”. Ou seja, de acordo com um estudo publicado recentemente, uma das maiores mentes criativas da história antecipou em mais de um século o princípio científico do yakisugi, a técnica japonesa de carbonização superficial da madeira para preservação.

O texto indica que a madeira pode se tornar mais resistente por meio do elemento que parece destruí-la: o fogo. A técnica descrita ativa transformações nos materiais que a ciência moderna confirma. A retirada da casca elimina a parte mais vulnerável ao desgaste biológico, que retém umidade e facilita o ataque de insetos e microrganismos.

Manuscrito de Leonardo da VinciDivulgação

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A queima superficial cria uma cobertura protetora natural sobre a peça. A madeira queimada passa a apresentar características funcionais:

  • reduz a absorção de água;

  • desacelera a degradação biológica;

  • melhora a resistência contra intempéries;

  • aumenta a resistência ao fogo ao funcionar como barreira térmica.

Divergência entre Europa e Japão

A redescoberta desse fragmento resultou de uma pesquisa de Annalisa Di Maria, especialista em Leonardo da Vinci, do biólogo molecular e escultor Andrea da Montefeltro e da historiadora da arte Lucica Bianchi, membros do Clube UNESCO de Florença.

Apesar da eficácia, a ideia não virou escola nem entrou em manuais no Ocidente. A Europa utilizava alternativas consolidadas, como piche, resinas e óleos. Enquanto esses métodos protegiam pela adição de substâncias sem alterar a estrutura interna, o fogo atuava transformando a própria matéria. Os cadernos do artista italiano também eram anotações pessoais inacessíveis aos artesãos da época.

No Oriente, entre os séculos 17 e 18, o Japão desenvolveu de forma independente a técnica "yakisugi", também conhecida como "shou sugi ban". Sem contato prévio com os escritos europeus, carpinteiros queimavam tábuas de cedro para protegê-las do clima e da decomposição, integrando a prática à tradição arquitetônica comunitária.

Presença na arquitetura atual

O conceito retorna impulsionado por demandas ambientais e pela sustentabilidade. O prêmio "Wood in Architecture Awards 2025" reconheceu projetos que expõem e valorizam a madeira tratada, como o edifício 154 Broadway, em Somerville, e o campus do California College of the Arts, desenhado pelo Studio Gang.

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Sistemas de revestimento com madeira carbonizada receberam distinções internacionais de inovação, consolidando o fogo como ferramenta de projeto em estruturas que transformam a matéria sem recorrer a coberturas artificiais.

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