Antes mesmo de assistir ao filme, Conceição Evaristo já tinha uma preocupação. "Como é que foi meu desempenho? Realmente convenceu?", pergunta, com a mistura de curiosidade e receio de quem ainda não sabe exatamente como será recebida no universo do cinema, que, até agora, não era o seu. Aos 79 anos, a escritora mineira estreia como atriz em "Se eu fosse vivo... Vivia", de André Novais Oliveira, longa que será exibido nesta terça-feira (22/9), às 20h, na abertura da 20ª Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte (CineBH), no Cine Theatro Brasil.



A ansiedade de Conceição ganhou ingrediente inesperado no último fim de semana. Exibido no Festival de Brasília, o filme saiu de lá com o principal prêmio da competição nacional, o Troféu Candango de melhor longa-metragem, além dos prêmios de melhor roteiro e melhor figurino. Conceição e Norberto Novais Oliveira, que interpreta seu marido na trama, receberam ainda menção honrosa pela atuação.


Isso faz da sessão desta terça uma espécie de segunda estreia. Para o público de Belo Horizonte, será a primeira oportunidade de assistir ao filme depois da consagração em Brasília. Para Conceição, será também o momento de descobrir se, realmente, ela convenceu o público.


Antes de ser escritora, Conceição já havia experimentado, ainda que timidamente, as artes cênicas. Participou de atividades amadoras em Belo Horizonte e de um curso livre de artes cênicas no Rio de Janeiro, quando dava aulas. Sem contar as inúmeras vezes que teve – e ainda tem – que subir ao palco em festivais literários, o que nunca a deixou completamente à vontade. “Quando recitava poemas, chegava ao fim com vontade de que o palco se transformasse num buraco para que eu pudesse desaparecer”, diz.



O cinema, no entanto, a colocou diante do desafio de interpretar alguém que não era ela. Durante as filmagens, houve um momento em que se sentiu distante da personagem, mas a equipe de preparação de elenco a fez perceber que não deveria procurar uma identificação imediata, e sim desenvolver uma espécie de receptividade em relação à mulher que precisava interpretar. “Essa personagem não é você”, ouviu da preparadora durante as gravações.


A observação tocou numa questão familiar. Na literatura, Conceição passou décadas inventando personagens e aproximando-se deles até estabelecer relação de cumplicidade. No cinema, precisou fazer o caminho inverso. Teve que entrar na história de outra pessoa sem transformá-la em extensão de si mesma.


Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press


"Acho que eu consegui fazer essa cumplicidade com a minha personagem e com a história", diz Conceição. "Foi a história que me seduziu", afirma.


Conceição diz gostar de novidades e admite que o convite de André Novais Oliveira também despertou a possibilidade de experimentar algo que talvez tivesse desejado fazer na juventude. Depois do longa, veio ainda uma pequena participação em um filme sobre Carolina Maria de Jesus, em uma cena em que a escritora conversa com vizinhas.


Cinema paraguaio


Se Conceição chega à CineBH experimentando uma linguagem nova, a cineasta paraguaia Paz Encina chega ao festival celebrando duas décadas de uma linguagem que se tornou inconfundivelmente sua.


Em 2006, ela estreou “Hamaca paraguaya” na mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes. O filme recebeu o prêmio da FIPRESCI e se tornou um marco do cinema paraguaio. Para ela, a homenagem da CineBH não é apenas uma questão de reconhecimento. Afinal, a cineasta mudou sua relação com a necessidade de ser reconhecida.


'O silêncio no cinema tem um peso e é um suporte muito potente. Inclusive, acredito que ele diz muito mais', afirma a cineasta paraguaia Paz Encina

Tony Rinaldo/Divulgação


No começo da carreira, ela diz, um prêmio podia funcionar como confirmação de que estava construindo uma trajetória. Agora, existe outra medida para seu trabalho. "Ele se tornou muito mais espiritual", destaca.


Isso pode ser visto, entre outras formas, na maneira como ela trabalha com o silêncio. Ele ocupa um lugar central na sua obra. Em "Hamaca paraguaya", no documentário "Ejercicios de memoria" e em "Carta a un viejo master", o que não é dito pode adquirir tanto peso quanto aquilo que chega à fala. "O silêncio tem um peso e é um suporte muito potente. Inclusive, acredito que ele diz muito mais", diz.



A memória também é elemento central nos filmes de Paz Encina. Não se trata de simples reconstituição do passado, mas de matéria viva, sujeita às lacunas, às lembranças e ao esquecimento. "Ejercicios de memoria", por exemplo, parte das recordações dos filhos de Agustín Goiburú, opositor da ditadura de Alfredo Stroessner sequestrado e desaparecido em 1976.

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É nesse ponto que as trajetórias de Paz e Conceição, tão diferentes entre si, encontram uma aproximação. Uma escreve. A outra filma. Uma acaba de descobrir o que significa ocupar um personagem diante de uma câmera. A outra passou 20 anos construindo uma cinematografia em torno daquilo que permanece quando as palavras não são suficientes.


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