Em 1997, o ilustrador Paulo Barbosa trabalhava no Diário de Belo Horizonte quando encontrou o escritor Wander Piroli (1931-2006) na redação. Os dois conversaram rapidamente, mas o encontro deixou uma tarefa que Paulo só conseguiria cumprir quase três décadas depois. Piroli carregava um envelope com 68 crônicas escritas para a Rádio Inconfidência em 1992, ano da morte de Bley Barbosa de Castro, pai de Paulo. Junto dos textos, veio o pedido para que a obra do jornalista e escritor mineiro não fosse esquecida.
“Esse livro vem cumprir uma missão delegada pelo Piroli”, conta Paulo. O resultado está em “Bley Barbosa de Castro, contos e crônicas”, que reúne parte da produção literária deixada pelo autor. O lançamento será neste sábado (12/9), às 10h30, na Casa Literíssima, no Bairro Coração Eucarístico.
Paulo ainda não tinha condições de realizar a tarefa quando recebeu o material. Ao longo dos anos, porém, começou a reunir o que havia restado do acervo do pai. Parte dos originais havia sido perdida quando a família morava no Bairro Eldorado, em Contagem. A casa, localizada em um declive, sofria com as enxurradas durante as chuvas.
O que sobreviveu foi sendo organizado por Paulo. O livro reúne contos que Bley enviou a concursos literários, crônicas e textos publicados em jornais e no Suplemento Literário de Minas Gerais. Para o filho, o conjunto permite conhecer a maneira como o escritor construía suas histórias.
“O destaque é mesmo a carpintaria literária do velho”, afirma Paulo. Ele costuma se referir ao pai como “meu velho” para falar de Bley sem deixar a emoção tomar conta da conversa. “Faço como se fosse um personagem daquela época. E, por acaso, foi meu pai”, conta.
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Um dos cenários mais presentes nos textos é o Bairro Saudade, na Região Leste de Belo Horizonte, onde Bley viveu a partir dos anos 1970. Na época, a região recebeu muitas pessoas vindas do interior, que chegavam à capital para tentar construir uma nova vida.
“Essa é a matéria-prima do meu pai”, diz Paulo. Os personagens e situações observados no bairro aparecem nos contos como registros de um momento de transformação da cidade. Nascido em Barão de Monte Alto, na Zona da Mata, Bley mudou-se ainda criança para Belo Horizonte.
Aos 16 anos, publicou seu primeiro texto no Binômio. Depois, passou por diversos veículos, incluindo o Estado de Minas. Aposentou-se como revisor da Imprensa Oficial. A amizade com Piroli é outro fio que atravessa o livro. Os dois se conheceram no Binômio e trabalharam juntos em diferentes redações.
Quase 30 anos depois daquele encontro, Paulo vê o lançamento como uma forma de devolver a obra do pai ao público. “Para mim, é como se a publicação tivesse cumprido o desejo do Wander, do meu pai e da minha mãe", comenta. Paulo, único dos sete filhos que seguiu a carreira do pai, também acredita que a publicação ajuda a valorizar um escritor que, apesar de muito admirado por quem conviveu com ele, acabou ficando distante das novas gerações.
BLEY BARBOSA DE CASTRO, CONTOS E CRÔNICAS
Organizado por Paulo Barbosa
176 páginas
Editora Literíssima
R$ 70
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Lançamento neste sábado, a partir das 10h30, na Casa Literíssima (Rua Dom José Gaspar, 365 – Coração Eucarístico)
